Voltei no tempo
Postado por Clube Em 08 Aug 2007 at 09:28 pm | Em: Antologias
Voltei no tempo, meus cinco, meus sete, meus onze, meus quinze, meus dezessete, meus vinte, meus vinte e sete anos… Tempo que já fez girar muitas vezes os ponteiros das horas, dos dias, dos meses, dos anos, naquele relógio chamado Experiência de Vida. Tempo que seguiu a linha da vida como o rio que segue rumo ao mar, calmo aqui, agitado ali, despencando das alturas e fazendo muito barulho acolá, contornando algum obstáculo que lhe tentasse obstruir o caminho mais além, ou até mesmo passando por cima dele quando necessário.
Voltei no tempo. Meus tempos de antes, tempos de aprender, de seguir em frente sem olhar para trás, tempo de apreciar e viver intensamente o momento, pois que só havia mesmo o presente. Para que remoer o passado? Para que pensar em futuro? Importante era o aqui e agora. Amanhã? Amanhã se pensava nele…
Voltei no tempo. O interior de Minas, Sul, a Mantiqueira, roça, sem luz elétrica, matas, animais selvagens, luz de lamparina de querosene… Lamparina de querosene que quebrava o negrume da noite em meu quarto com sua luz, permitindo que eu ficasse lendo noite adentro livros que me transportavam para todo o mundo, para o mundo da magia. Livros que me ensinavam os segredos do mundo, das ciências, da matemática, da física, da filosofia, das línguas. Lamparina de querosene que quebrava o negrume do quarto, sim, mas o transportava inteiro para minhas narinas…
Voltei no tempo das longas caminhadas por trilhas, só, pé procurando pelo outro pé sem nunca se acharem, sem nunca se encontrarem, carimbando o solo empoeirado com a marca de pés descalços, ou poucas vezes calçados, que o vento se encarregava de ir atrás apagando para levantar uma nuvem de poeira. Se não era pisando poeira, então era amassando o barro formado pela chuva caída de antemão que transformava toda a poeira em barro como num passe de mágica. Atravessando poças d’água, os riachos, talvez por uma pinguela com um bambu na horizontal servindo de corrimão, mas indo sempre em frente por longas distâncias, indo de lugar nenhum a nenhum lugar, pois que havia apenas alguns poucos aglomerados insignificantes de casas aqui e acolá. Chegando ao destino cansado, sim; chegando ao destino sujo de poeira, ou sujo de barro, sim; mas sempre chegando feliz, de alma lavada, pronto para repetir tudo no dia seguinte, ou mesmo no mesmo dia, na mesma noite se necessário fosse, sem pestanejar.
Voltei no tempo. A noite de lua cheia, clara que até dava para ler alguma coisa, ou então a noite de lua nova com o céu tão cheio de estrelas que não havia nele espaço para apontar sequer a ponta do dedo sem tocá-las. Mas havia a noite escura como breu, céu nublado, muitas vezes chovendo muito, a cântaros que por lá chovia assim, sem que pudesse enxergar nem um dedo colocado bem na ponta do nariz.
Voltei no tempo, não para reclamar da vida, não para fugir do presente para viver do passado. Voltei no tempo para vivenciar a magia que estes momentos me proporcionaram, para recordar o aprendizado que eles me deixaram, para continuar trilhando o mesmo caminho. Momentos de saber que estava no rumo certo, ou de entender o momento em que devia mudar uma trajetória qualquer. Voltei no tempo para incorporar mais energia no presente, pois o que temos de concreto na vida é apenas o eterno presente. Ontem foi hoje, amanhã será hoje, e o que eu tenho de fato é o hoje.
Voltei no tempo, meus cinco, meus sete, meus onze, meus quinze, meus dezessete, meus vinte, meus vinte e sete anos… Tempo que já fez girar muitas vezes os ponteiros das horas, dos dias, dos meses, dos anos, naquele relógio chamado Experiência de Vida. Voltei no tempo, os ponteiros giraram, mas o eixo que os fez girar, o ponto de apoio que os manteve no plano estão situados no centro deste plano, no local chamado HOJE. E este ponto independe de qualquer distância, está sempre ali, sempre presente, estático, pois que é um simples marco, o marco zero do meu universo. Neste ponto eu tenho o eterno presente. Deste ponto eu tenho uma visão panorâmica e atemporal do passado, e do futuro. Para este ponto apontam os vetores de todos os momentos dos intermináveis ciclos e dos infinitos recomeços da vida. Deste ponto eu posso apontar o obturador de minha câmara mental para congelar um momento de interesse para estudá-lo, aprofundar-me nele, entendê-lo mais a fundo, reprogramá-lo…
Fiz uma parada em minha viagem no tempo, num ângulo qualquer de um quadrante qualquer da elipse formada pelos contornos do relógio do tempo (pois que esta é a forma dos contornos do nosso universo, na visão dos astrônomos atuais) para observar. Parei especificamente em frente a um colégio de primeiro grau da cidade, invisível a quantos por ali se movimentavam para descarregar de seus carros luxuosos, quase sempre parados em fila dupla sem se incomodarem por estarem atrapalhando o trânsito do local, seus filhos ainda pequenos, encaminhados para ali para iniciarem sua formação intelectual, seres estes que carregam em seu sangue o DNA de seus pais, artifício usado pela natureza no intuito de lhes perpetuar a estirpe. O que noto são muitas crianças vestindo-se como adultos, assumindo uma postura de adulto em miniatura, verdadeiras marionetes na mão dos pais… E vejo ainda adultos, pais e/ou mães, que insistem, hoje, em se vestirem e em se comportarem como crianças. Como terão sido suas infâncias? Será que elas, quando crianças, foram formatadas como estes seus filhos que hoje são conduzidos por elas? Deixo esta questão para que Freud explique. Desta observação deduzi que não se pode atropelar o tempo de um aprendizado, sob pena de perder o momento mágico de seu entendimento.
Não quis avançar no futuro nesta minha viagem porque sei que o futuro é o espelho do presente. Já o conheço. Tudo na roda da vida, presente, passado e futuro, está aqui e agora. Somente pequenos detalhes é que poderiam ser desconhecidos ainda. Mas para que tirar a emoção de senti-los plenamente no momento certo? Preferi deixar que o futuro me conte em seu momento.
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Rodolfo Lopes, de Lorena, diz: “Quando lemos, viajamos como convidados do autor, partilhando de suas emoções. Ao escrever, convidamos o leitor a viajar conosco, somos cicerones, tutores de seus sentimentos, condutores de suas emoções. E o cativamos com talento e carinho no ato de escrever. É gratificante conseguir isto!”. O autor mantém um site na internet, o www.rodolfolopes.net
