Há duas espécies de gente: “jovens” e “velhos”. Não estou me referindo à idade cronológica, detalhe insignificante, considerando a atitude com que a pessoa encara a vida. Importante é o espírito. Os “jovens” de qualquer idade, com a força do coração empregam sua energia para construir uma existência feliz, alegre, criativa. Têm fé em si mesmos, em seus projetos, na vida, em Deus. Eles são e fazem felizes a todos. São pólos emissores de energia positiva, levantando o astral dos menos afortunados. Balões de gás que sobem aos céus tais bolas coloridas de algodão doce. Todos querem estar por perto, tão gostosa é sua companhia. Distribuem livremente o perfume do Amor, que exala pelos caminhos por onde passam.
Outros nascem com a sina de se enrodilharem eternamente em desventuras depressivas. Não deve ser por gosto! A sorte já lhes deve ter aprontado alguma muito cedo… quem sabe ainda dentro do útero? Ficam “velhos” antes do tempo, infelizes, depressivos. Suas lentes negras não permitem ver a luz do sol, o brilho da vida! Convide-os para uma volta ao mundo, com todas as despesas pagas…! Vão reclamar e mais reclamar! Nada os satisfaz. São desagradáveis, queixentos, invejosos. Sem perceber, fazem da infelicidade, profissão de fé. São xingados e rejeitados… o que só os faz confirmarem para si mesmos que a vida é madrasta para eles.
Ah! Meu Senhor! Há que ter paciência de santo!
Minam a saúde mental de uma família inteira. Precisariam de amor, atenção e carinho, mais que o ar que respiram! Pudéssemos enviá-los a um tratamento… Mas o que recebem, sim, é rejeição e desAmor. Vão rolando ladeira abaixo, cada vez mais desafortunados. Os anos passando deparam-se com uma existência vazia e, sem a menor consciência, focalizam sua tristeza nos estragos que o tempo traz ao corpo físico. Tentam se engambelar, chamando este estágio de “melhor idade”, que de melhor não tem nada. Coisa triste essa, pois o que galopa a passos largos e inexoráveis, é a velhice, as mazelas, a falta de ânimo para revirar a vida.
Ah ! Meu Senhor ! Há que ter paciência de santo !
Os “jovens”, mesmo os de setenta e oito anos, viveram cultivando a existência através das experiências vividas, exercitando a tolerância, a solidariedade, a paciência de esperar a sábia guiança da vida… O que lhes trouxe, afinal, bom senso… serenidade… compreensão… a almejada paz no coração. Exceto os pequenos percalços, aos quais todos estamos expostos, conseguem viver tranqüilos embora o tumulto em torno tente desalinhar seu equilíbrio! São seres felizes, cheios de Amor, luminosos! Para esses não é apenas a velhice que chega, é a sabedoria da maturidade! O espírito continua jovem. Percebem que estão vivos, muito mais vivos que antes! Embora (verdade seja dita…) as falhas do corpo possam incomodar… E como! No entanto, o desenvolvimento atingido pela adultidade, ainda é a realização maior! Esses não se torturam se o corpo já não corresponde tão bem às suas necessidades. Sabem que ele é só um invólucro. A essência é a alma, de onde emana a sábia intuição que nos norteia a vida.
E os infelizes? Como ajudá-los? Afinal, somos todos filhos de Deus! Sempre me pareceu que esta é tarefa delegada do Alto aos que foram mais bem aquinhoados. Não afirmei que nós éramos os compreensivos, dadivosos, alegres…? Teríamos recebido tanto merecimento para ser usufruído egoisticamente, abandonando os irmãos à mingua? Não! Não! Daremos de graça, o que de graça recebemos. Então… nossa difícil tarefa é ter paciência e dar Amor aos que não sabem o que é isto!
Por arte e vocação, os ventos me conduziram a um destino gratificante, mas difícil. Ao olhar para fora, via almas desamparadas, lágrimas, revolta, tristeza dos que não conseguiram encontrar seu destino. Seres perdidos, soltos na imensidão de um mundo do qual desconheciam o porquê e o para que. Nada de material lhes faltava, mas eram indigentes de Amor, patrimônio inalienável de todos os humanos. Quem lhes sonegou estes dons divinos, indispensáveis à vida? As circunstâncias da própria vida? A bárbara “civilização” em que vivemos teria lhes exaurido as forças para conquistá-lo? Falta de alguém que lhes desse Amor?
Maktub! Meu destino houve por bem me inserir neste time do serviço voluntário.
De berço, me prepararam para cumprir alegremente a missão . A adoração da avó, o Amor incondicional da madrinha e a sabedoria da tia iluminada, professoras de vida que muito me amaram, foram as fontes do acervo a ser oferecido. Aprendi desde cedo, muito antes dos diplomas, por pura intuição, a acolher aqueles atoleiros humanos de sofrimento, introduzindo, aos poucos, carinho, compreensão e afeto. Um quinhão de Amor aqui, um olhar de aceitação ali… conseguiam ir fazendo brotar um rasgo de luz nos corações. Com medo, desconfiados, mas felizes, estavam recebendo o essencial que lhes faltava.
Você já viu gente renascer? É lindo! O raiar de uma nova realidade inimaginável!
Sim… mas há que estarmos atentos ao lado negro de outro tipo de gente. São gente…? Ou “aves de rapina humanas”? Contorcem-se de inveja ao verem alguém ditoso. Ávidas e famintas, vão se chegando e sugando a paz do irmão, arduamente conseguida. Já percebeu que essas gentes não podem ver ninguém feliz? Insatisfeitos e carentes, vêm usurpar a inteireza dos que, frágeis ainda, não sabem se defender.
Meu destino era então ensinar Amor aos que assim o desejassem, aos que escolhessem aprender alegria com os “jovens”. Mostrar a essas gentes frágeis como se tornarem fortes, para se defenderem das aves de rapina. Então, vamos! Primeiro item: oferecer com cautela uma aceitação amorosa. Com cuidado. Suavemente. Um animal ferido foge se querem lhe dar mais do que pode receber. Há de ser prudente. Aos poucos, ele próprio vai percebendo que o coração ferido tem cura… através do contato amigo, leal, verdadeiro. Vai superando a eterna dor que lhe toma a alma, preenchendo o vazio com o palpitar da vida! Emergindo assim tudo de bom que já existia naquele ser, desde a primeira luz que recebeu do mundo! Acolhendo-os com persistente paciência veremos voltar o sorriso, o ânimo, o afeto, a esperança… o Amor! Nessa convivência vai sendo expurgado o peso do mal, deixando entrar a leveza do espírito de luz! Surge a Vida, afinal!
Por que alguns atravessam uma existência sofrida, enquanto outros desconhecem essas vicissitudes? Vamos tentar entender? Mergulhei fundo no sofrimento. Agora vou emergir da tristeza, cintilando com a doce alegria dos “jovens”. Analisemos as duas facetas através de uma família feliz!
Eugênio e Lili cresceram em famílias simples, mas extremamente amorosas. Muito carinho, paciência, compreensão, solidariedade foram seu alimento. Apaixonados, se casaram. Cada pimpolho que nascia era motivo de festa, êxtase do Amor que os unia. Os filhos gerados pelo Amor, só Amor sabiam dar. Eram jovens prestativos, dadivosos, brincalhões, gostados por todos. Transmitiam o que receberam. Foram crescendo, se formando, se casando… e lá iam eles curtindo a vida calma e cheia de criatividade, repetindo o script vivido pelos mais velhos. Possuíam tudo o que de melhor desejavam, sem aquele afã de “correr atrás” de ascensão social e financeira. Perceberam, intuitivamente, a distinção entre o que os faria felizes e aquele excesso de bens materiais que terminaria levando-os a se perderem de si mesmos. Por instinto, não deformaram a incomum harmonia e felicidade que herdaram de seus ancestrais.
E como vive o outro lado? É só olhar para as “aves de rapina”. São críticos, malevolentes, morrem de inveja. Colocam seu “olho gordo”, destrutivo, em quem possua aquilo que eles imaginam jamais conseguirão. Esse olhar maléfico destrói o bem que os circunda. São vítimas de si próprios e da era em que vivemos. A violência decepou-lhes sua parte mais linda, aquela que alberga o Amor.
A “civilização” moderna a partir da onipotência outorgada à Ciência, para a qual só existe o que é cognoscível, está a ponto de nos destruir, enquanto humanos. Separa a matéria do espírito, levando-nos a desprezar o que é simples e natural. Alienou-nos de nós mesmos ceifando nossa essência. Ousando alardear que só é válido o que é passível de ser provado, a Ciência afirma que ela, somente ela, está apta a preencher as necessidades do desenvolvimento humano. Não é bem assim! A tecnologia progrediu de uma maneira sábia, surpreendente, jamais imaginada… mas o homem, esse coitado! Vai de mal a pior, destruído e destruindo tudo!
Onde fica você? No time dos invejosos, “olhudos”, cheios de raiva de si e do mundo, ou prefere lutar para ser forte, “eternamente jovem”, pleno de realização e alegria? Só depende de você! Nascemos com um acervo genético: é a predestinação. Mas o destino, que é outra coisa, este, cada um constrói o seu. Diz o ditado que “o homem depende do seu pensamento”. Nosso amanhã é conseqüência do que pensamos, agimos e fazemos hoje.
A sabedoria é holística! O homem é um todo indivisível. Para nos sentirmos completos, dizem os cientistas modernos, carece unir as duas partes, restaurando a integridade e o equilíbrio do ser, tal como o mundo funcionou em eras douradas. Atingiremos esse estágio quando a Humanidade abandonar a negra perversidade que a envenena, deixando que prevaleça sua luminosidade. Só então seremos felizes. A Paz ao coração dos homens virá quando aprendermos a viver o Amor fraterno, a doação, o desapego, a solidariedade e a dignidade de saber respeitar a si mesmo, o outro e as Leis da Mãe Natureza.

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“Ao clã Burlamaqui, originário do amor de Neyde e Walmar, minha maior realização”

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Neyde Burlamaqui de Alvarenga, de Caxambu - MG, credita tudo que conhece de Literatura ao saudável hábito da leitura, que cultiva desde a infância. Sua participação ativa dentro da arte vem de há poucos anos, tendo um livro, inédito. Em 2004 começou a participar de eventos culturais, tendo sido agraciada em vários deles.