Segredos de Natal (Contos Malditos)
Postado por Clube Em 08 Aug 2007 at 08:40 pm | Em: Antologias
Os pisca-piscas ainda brilhavam suas cores desbotadas frente à exigência dos raios de sol naquela manhã gostosa de Natal. Fechei a cortina do quarto querendo nocautear por mas um pouco a lucidez caótica daquela manhã de ressaca e felicidade da meia-noite, divisória de dias pré e tal… Risos na calçada da rua tentavam dividir espaço em minha mente com o barulho na sala, de sobrinhos felizes por seus presentes e os lisonjeios de tia Clara para a receita de panetone caseiro à minha mãe, que havia preparado muitos deles para o café daquela manhã, a fumaça da churrasqueira já se fazia notar pela vidraça, sinal que as sobras da ceia iriam juntar-se aos churrascos bem passados do tio Hélio, que orgulhoso por ter ele mesmo construído aquela máquina de fumaça, servia alguns petiscos já àquela hora da manhã.
Levantei meio atordoado com todo aquele arsenal de vozes, fumaças, gosto de sangue na boca e gritaria de crianças felizes, cena típica aqui no sul, características de famílias bem resolvidas e sem problemas… Olhei mais uma vez da janela, afastando as cortinas ainda com cheiro de tecido novo, pude avistar algumas crianças expondo seus brinquedos umas, correndo felizes, e fiquei observando, pensando, lembrando… De repente entre elas avistei Augusto, o sorveteiro do bairro, um menino aparentando oito, nove anos que admirando o brinquedo e a felicidade das demais crianças puxava autômato o carrinho de sorvete pesado, que fazia suar a fronte do menino franzino que mal sabia, com certeza, o significado do Natal. E sorria como todas as crianças ali em festa e às vezes até desgrudava do carrinho de sorvetes e seguia-os com olhar faiscando de brilho platônico com a felicidade dos demais. Era Natal e ele estava trabalhando, Jesus havia nascido naquela noite, mas ele não teve tempo para comemorar, nem pôde sonhar com a ceia que a mãe prometera que naquele ano teria, pois a doença de Cema, a irmã, levara todas as economias, duas semanas antes do Natal, e tirava-lhe, mais uma vez a promessa da mãe, e ele tivera que dormir cedo, logo após o café com pão adormecido ganhado na padaria da dona Téta. Amanhã é dia de Natal, pensara na noite anterior, e tem bastante criança por todos os lugares, bom dia para vender sorvete. E assim se fez, e ali estava ele, calças curtas, sandálias de pés trocados e algumas moedas, no bolso da camisa azul, que ganhara da vizinha, camisa que não servia mais ao filho mais novo.
A fumaça do churrasco fazia uma cortina levemente transparente, separando a janela do meu quarto e as crianças na rua; mesmo assim era possível avistar a silhueta magra de Augusto diferenciando-o das demais crianças, perfil quase esquelético devido a uma doença estranha que havia adquirido há pouco tempo. Brincava sozinho em meio à alegria dos demais; embora não tivesse algum brinquedo, sorria como se tivesse sido convidado para a festa; mas aos poucos os anfitriões preocupados com seus próprios prazeres o olhavam de canto e cochichavam e davam de ombros, e ele sorria, seguia com o olhar os carrinhos de madeira de Pedro, batia palmas quase que patético ao som que Juarez tentava tirar do violão novo, e olhou pensativo para Tereza, que estava talvez todo o tempo observando-o, sentada no canto da calçada ao lado da roseira miúda. Então ele se aproximou e ficaram os dois ali olhando um para o outro. Ele não tinha nada e sorria; Tereza, filha da professora, tinha muito, inclusive uma boneca de faces vermelhas com roupinhas e tudo, mas sofria, olhava Augusto, não era piedade mas doía vê-lo assim, ali naquele dia que era o dia que todas as crianças deveriam ganhar presentes… De repente Augusto foi até o carrinho e apanhou um sorvete de baunilha, seu sabor preferido, ofereceu a Tereza que sem jeito recusou, não tinha nenhuma moeda ali naquele momento. Augusto insistiu e as mãozinhas frágeis de ambos se encontraram em meio ao frescor da guloseima, atrapalhado sorriu ao agradecimento da menina, ia saindo de mansinho e Tereza o segurou pelo braço. — Oh, disse ela, estendendo a mão oferecendo a boneca colorida, é para você. — Não precisa, disse ele sem jeito, e depois eu nem brinco de bonecas, obrigado mesmo assim. — Mas sei que gostaria de levar um presente para sua irmã, ofereceu ela, ele baixou a cabeça. — Ela ainda esta no hospital? — Ham ham, respondeu e aceitou, tímido, sofrido, com os olhos molhados, uma boneca para a irmã. Ela o acompanhou empurrando o carrinho de sorvete enquanto ele comparava o cabelo comprido da boneca aos de Tereza, e os olhos de ambos brilhavam como as luzes coloridas do pisca-pisca que já não pareciam mais desbotadas.
Todas aquelas alegrias e o sabor da novidade haviam se decepado como atingidos por lâmina afiada, fatal, dolente. Não deu tempo da irmã receber o único presente que receberia naquele Natal. Assustou-se com o choro convulsivo da mãe, no jardim, perguntando a Deus o porquê daquilo tudo. — Minha filha não, meu Deus…Mas Deus é Deus e Augusto assim como o resto da humanidade, não entendia bem as coisas de Deus. Correu para os braços da mãe, assustado, abandonando no chão a bonequinha de cabelos iguais aos de Tereza, e esqueceu de Tereza, e chorou a partida da irmã.
O barulho vindo da sala e os risos invadiam o corredor que dava para o quarto. Com os olhos voltados ainda para a rua, os via como se fosse aquele dia, doce e amargo, alegre e triste com muitos brilhos coloridos desbotados do Natal… De repente fui despertado por batidas na porta… Augusto meu amor, acorda, já estão servindo o almoço… Augusto fecha a cortina, outro acesso de tosse, fecha a válvula do aparelho de soro, está ardendo em febre de pé em frente à janela, volta-se, e sorri para Tereza que o olha assustada. Acho que chegou a hora, fala Augusto olhando para o chão, não tenho mais forças, me abraça, por favor me abraça. Ninguém fala nada, as mãos de Augusto acariciam num último afago o cabelo da mulher, lágrimas furtivas de saudade, de dor, de perguntas sem respostas… Tereza disca o telefone da emergência chamando os paramédicos mas Augusto desliga o telefone, pede para partir dignamente, não quer mais hospitais, não quer mais olhares de piedade, só quer ser acariciado pelas mãos da mulher deitando em seu colo. Enquanto Tereza tenta secar o rosto, aturdida, as mãos de ambos entrelaçam-se frágeis como naquela manhã de Natal quando se encontraram entre o frescor da guloseima. Com vontade de maldizer a própria vida, Tereza engole o choro e o sofrimento, enquanto balbucia baixinho a canção de ninar que Augusto compôs ao piano, para o filho que não puderam ter. Afinal Deus quis assim… E a vida continua, o menino Jesus nasceu outra vez. É Natal.
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“Aos meus pais, in memoriam”
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Tonni Lima, de Tijucas - SC, é ator, autor, professor de cursos e diretor de teatro, autor de poesias e contos. Conta com várias participações, inclusive o livro de contos “Vidas Breves de Contos Malditos”, pela editorial Dunken, Buenos Aires, com lançamento na 32º feira internacional do livro na Argentina em 2006. É membro conselheiro da Fundação Municipal da Cultura de Tijucas –SC. Para ler, gosta de Mário Quintana, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Nelson Rodrigues e Rosamund Pilcher.
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Apoio Cultural: Sec.Cultura de Itajaí, Trup Teatro Tempestade, Jornal Imprensa Tijucas SC e Sr. Elmis Mannrich
