Um pé de pitanga nasceu aqui ao lado
Impossível pitanga em fruto imprevisível
Num solo duro, árido e faminto,
Mas se nasceu, há que se fazer criar a pitangueira,
Há que se torcer por ela, rogar a força e a reza,
E o vingar de todas as vontades

Assim é o afeto, que inesperado, nasce agora
Neste impossível espaço de mim mesma
Indiscutivelmente amor-pitanga que nasceu impróprio
Pra esse coração tão ínfimo, tão só e incompleto

Hei de querer todos os frutos, pitangueira,
De meus invernos, dos verões, das tardes preguiçosas,
Hei de querer os delicados cachos de bondade,
E toda cumplicidade do amor não-sei-porque

Se nasce um fruto milagroso no cimento
Que eu pasmada, vejo crescer em teimosia
Faço valer o meu direito de poeta
Deixo crescer o fruto em sentimento

Venham pitangas, venham vindo aos montes,
Trazendo o gosto infantil do meu amor primeiro
Que qual pé de fruta,
Um amor nasce, se fortifica e cresce,
Milagre semeado, pitanga dos afetos,
Que cresce agora no cimento do meu peito

***

Maria Cecília Monteiro de Figueiredo, de Ribeirão Preto - SP,  foi “Menção Honrosa” pela Academia Ribeiraopretana de Letras em 1979 com o conto “A Magrela”. Seus autores preferidos são Adélia Prado, Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade e Rubem Braga. Um pensamento: “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis” (Fernando Pessoa).