Pesquisa personalizada

Lógica Binária

Postado por Clube Em 08 Aug 2007 | Em: Antologias

      Ainda bem que tenho você, companheiro computador. Pensei em lhe arranjar um nome, para que nossa relação ganhasse mais calor humano, mais intimidade. Mas, desisti da idéia porque fiquei com medo de que, de repente, você se abancasse e “entrasse numas” de se sentir humano. Poderia até chegar ao absurdo de querer sentir, raciocinar, emitir opiniões, etc!
Daí pensei: “isso não vai prestar”! Você se tornaria menos confiável, passível de falhas lógicas, imperfeito, misterioso, imprevisível, desconhecido, surpreendente, decepcionante, sentimentalmente instável, eventualmente desequilibrado e com humor variável.
Você poderia até desenvolver um sentimento de rejeição por mim. Poderia criar um vírus para me combater, para não me deixar escrever, para me impedir de escrever o que eu quero. Poderia até se transformar num censor implacável transformando meus textos em discursos medíocres. Poderia por exemplo impedir a digitação de gírias, palavrões, opiniões políticas, religiosas, expressões racistas, etc… Já pensou que maçada?
Prefiro você como é: “um gigolô das palavras”, tal como Luís Fernando Veríssimo.
Admiro sua humildade. Você recebe todas as palavras igualmente bem e não as deleta automaticamente; apenas coloca um tracinho embaixo delas para indicar que algo está errado. Mas fica só nisso. Não as junta, censura e deleta. Se depender de você, aproveita todas!
Para você, o importante é se comunicar. É usar as palavras para estar em ação. Quando se enche delas, o que faz? Pede que o descarreguem, que o deletem todo, que formatem seu disco rígido para que possa voltar a sua potência total.
Quem dera o ser humano pudesse ser formatado como você! Quando tudo saísse errado, quando monstros fossem criados, quando fantasmas perambulassem pela mente humana como vírus incansáveis, restaria ao homem formatar-se e começar tudo do zero novamente. Quem dera pudéssemos retornar à sua velha, pura e boa lógica binária!
Prefiro sua burrice total. Na verdade, uma vez que você não raciocina, você é amoral, e isso é muito bom! Engole tudo “numa boa” sem retrucar.
Você é melhor que padre, pastor, psicólogo, terapeuta ou psiquiatra. Para você, dois mais dois são sempre quatro.

***

Rita Bernadete Sampaio Velosa, de Américo Brasiliense - SP,  é fervorosa defensora da Educação como inclusão social, colaboradora de diversos jornais e revistas, revisora, e editora da revista eletrônica “A Ratoeira”(Internet). Foi premiada em vários eventos literários e editada em antologias.

Só depende de você

Postado por Clube Em 08 Aug 2007 | Em: Antologias

Há duas espécies de gente: “jovens” e “velhos”. Não estou me referindo à idade cronológica, detalhe insignificante, considerando a atitude com que a pessoa encara a vida. Importante é o espírito. Os “jovens” de qualquer idade, com a força do coração empregam sua energia para construir uma existência feliz, alegre, criativa. Têm fé em si mesmos, em seus projetos, na vida, em Deus. Eles são e fazem felizes a todos. São pólos emissores de energia positiva, levantando o astral dos menos afortunados. Balões de gás que sobem aos céus tais bolas coloridas de algodão doce. Todos querem estar por perto, tão gostosa é sua companhia. Distribuem livremente o perfume do Amor, que exala pelos caminhos por onde passam.
Outros nascem com a sina de se enrodilharem eternamente em desventuras depressivas. Não deve ser por gosto! A sorte já lhes deve ter aprontado alguma muito cedo… quem sabe ainda dentro do útero? Ficam “velhos” antes do tempo, infelizes, depressivos. Suas lentes negras não permitem ver a luz do sol, o brilho da vida! Convide-os para uma volta ao mundo, com todas as despesas pagas…! Vão reclamar e mais reclamar! Nada os satisfaz. São desagradáveis, queixentos, invejosos. Sem perceber, fazem da infelicidade, profissão de fé. São xingados e rejeitados… o que só os faz confirmarem para si mesmos que a vida é madrasta para eles.
Ah! Meu Senhor! Há que ter paciência de santo!
Minam a saúde mental de uma família inteira. Precisariam de amor, atenção e carinho, mais que o ar que respiram! Pudéssemos enviá-los a um tratamento… Mas o que recebem, sim, é rejeição e desAmor. Vão rolando ladeira abaixo, cada vez mais desafortunados. Os anos passando deparam-se com uma existência vazia e, sem a menor consciência, focalizam sua tristeza nos estragos que o tempo traz ao corpo físico. Tentam se engambelar, chamando este estágio de “melhor idade”, que de melhor não tem nada. Coisa triste essa, pois o que galopa a passos largos e inexoráveis, é a velhice, as mazelas, a falta de ânimo para revirar a vida.
Ah ! Meu Senhor ! Há que ter paciência de santo !
Os “jovens”, mesmo os de setenta e oito anos, viveram cultivando a existência através das experiências vividas, exercitando a tolerância, a solidariedade, a paciência de esperar a sábia guiança da vida… O que lhes trouxe, afinal, bom senso… serenidade… compreensão… a almejada paz no coração. Exceto os pequenos percalços, aos quais todos estamos expostos, conseguem viver tranqüilos embora o tumulto em torno tente desalinhar seu equilíbrio! São seres felizes, cheios de Amor, luminosos! Para esses não é apenas a velhice que chega, é a sabedoria da maturidade! O espírito continua jovem. Percebem que estão vivos, muito mais vivos que antes! Embora (verdade seja dita…) as falhas do corpo possam incomodar… E como! No entanto, o desenvolvimento atingido pela adultidade, ainda é a realização maior! Esses não se torturam se o corpo já não corresponde tão bem às suas necessidades. Sabem que ele é só um invólucro. A essência é a alma, de onde emana a sábia intuição que nos norteia a vida.
E os infelizes? Como ajudá-los? Afinal, somos todos filhos de Deus! Sempre me pareceu que esta é tarefa delegada do Alto aos que foram mais bem aquinhoados. Não afirmei que nós éramos os compreensivos, dadivosos, alegres…? Teríamos recebido tanto merecimento para ser usufruído egoisticamente, abandonando os irmãos à mingua? Não! Não! Daremos de graça, o que de graça recebemos. Então… nossa difícil tarefa é ter paciência e dar Amor aos que não sabem o que é isto!
Por arte e vocação, os ventos me conduziram a um destino gratificante, mas difícil. Ao olhar para fora, via almas desamparadas, lágrimas, revolta, tristeza dos que não conseguiram encontrar seu destino. Seres perdidos, soltos na imensidão de um mundo do qual desconheciam o porquê e o para que. Nada de material lhes faltava, mas eram indigentes de Amor, patrimônio inalienável de todos os humanos. Quem lhes sonegou estes dons divinos, indispensáveis à vida? As circunstâncias da própria vida? A bárbara “civilização” em que vivemos teria lhes exaurido as forças para conquistá-lo? Falta de alguém que lhes desse Amor?
Maktub! Meu destino houve por bem me inserir neste time do serviço voluntário.
De berço, me prepararam para cumprir alegremente a missão . A adoração da avó, o Amor incondicional da madrinha e a sabedoria da tia iluminada, professoras de vida que muito me amaram, foram as fontes do acervo a ser oferecido. Aprendi desde cedo, muito antes dos diplomas, por pura intuição, a acolher aqueles atoleiros humanos de sofrimento, introduzindo, aos poucos, carinho, compreensão e afeto. Um quinhão de Amor aqui, um olhar de aceitação ali… conseguiam ir fazendo brotar um rasgo de luz nos corações. Com medo, desconfiados, mas felizes, estavam recebendo o essencial que lhes faltava.
Você já viu gente renascer? É lindo! O raiar de uma nova realidade inimaginável!
Sim… mas há que estarmos atentos ao lado negro de outro tipo de gente. São gente…? Ou “aves de rapina humanas”? Contorcem-se de inveja ao verem alguém ditoso. Ávidas e famintas, vão se chegando e sugando a paz do irmão, arduamente conseguida. Já percebeu que essas gentes não podem ver ninguém feliz? Insatisfeitos e carentes, vêm usurpar a inteireza dos que, frágeis ainda, não sabem se defender.
Meu destino era então ensinar Amor aos que assim o desejassem, aos que escolhessem aprender alegria com os “jovens”. Mostrar a essas gentes frágeis como se tornarem fortes, para se defenderem das aves de rapina. Então, vamos! Primeiro item: oferecer com cautela uma aceitação amorosa. Com cuidado. Suavemente. Um animal ferido foge se querem lhe dar mais do que pode receber. Há de ser prudente. Aos poucos, ele próprio vai percebendo que o coração ferido tem cura… através do contato amigo, leal, verdadeiro. Vai superando a eterna dor que lhe toma a alma, preenchendo o vazio com o palpitar da vida! Emergindo assim tudo de bom que já existia naquele ser, desde a primeira luz que recebeu do mundo! Acolhendo-os com persistente paciência veremos voltar o sorriso, o ânimo, o afeto, a esperança… o Amor! Nessa convivência vai sendo expurgado o peso do mal, deixando entrar a leveza do espírito de luz! Surge a Vida, afinal!
Por que alguns atravessam uma existência sofrida, enquanto outros desconhecem essas vicissitudes? Vamos tentar entender? Mergulhei fundo no sofrimento. Agora vou emergir da tristeza, cintilando com a doce alegria dos “jovens”. Analisemos as duas facetas através de uma família feliz!
Eugênio e Lili cresceram em famílias simples, mas extremamente amorosas. Muito carinho, paciência, compreensão, solidariedade foram seu alimento. Apaixonados, se casaram. Cada pimpolho que nascia era motivo de festa, êxtase do Amor que os unia. Os filhos gerados pelo Amor, só Amor sabiam dar. Eram jovens prestativos, dadivosos, brincalhões, gostados por todos. Transmitiam o que receberam. Foram crescendo, se formando, se casando… e lá iam eles curtindo a vida calma e cheia de criatividade, repetindo o script vivido pelos mais velhos. Possuíam tudo o que de melhor desejavam, sem aquele afã de “correr atrás” de ascensão social e financeira. Perceberam, intuitivamente, a distinção entre o que os faria felizes e aquele excesso de bens materiais que terminaria levando-os a se perderem de si mesmos. Por instinto, não deformaram a incomum harmonia e felicidade que herdaram de seus ancestrais.
E como vive o outro lado? É só olhar para as “aves de rapina”. São críticos, malevolentes, morrem de inveja. Colocam seu “olho gordo”, destrutivo, em quem possua aquilo que eles imaginam jamais conseguirão. Esse olhar maléfico destrói o bem que os circunda. São vítimas de si próprios e da era em que vivemos. A violência decepou-lhes sua parte mais linda, aquela que alberga o Amor.
A “civilização” moderna a partir da onipotência outorgada à Ciência, para a qual só existe o que é cognoscível, está a ponto de nos destruir, enquanto humanos. Separa a matéria do espírito, levando-nos a desprezar o que é simples e natural. Alienou-nos de nós mesmos ceifando nossa essência. Ousando alardear que só é válido o que é passível de ser provado, a Ciência afirma que ela, somente ela, está apta a preencher as necessidades do desenvolvimento humano. Não é bem assim! A tecnologia progrediu de uma maneira sábia, surpreendente, jamais imaginada… mas o homem, esse coitado! Vai de mal a pior, destruído e destruindo tudo!
Onde fica você? No time dos invejosos, “olhudos”, cheios de raiva de si e do mundo, ou prefere lutar para ser forte, “eternamente jovem”, pleno de realização e alegria? Só depende de você! Nascemos com um acervo genético: é a predestinação. Mas o destino, que é outra coisa, este, cada um constrói o seu. Diz o ditado que “o homem depende do seu pensamento”. Nosso amanhã é conseqüência do que pensamos, agimos e fazemos hoje.
A sabedoria é holística! O homem é um todo indivisível. Para nos sentirmos completos, dizem os cientistas modernos, carece unir as duas partes, restaurando a integridade e o equilíbrio do ser, tal como o mundo funcionou em eras douradas. Atingiremos esse estágio quando a Humanidade abandonar a negra perversidade que a envenena, deixando que prevaleça sua luminosidade. Só então seremos felizes. A Paz ao coração dos homens virá quando aprendermos a viver o Amor fraterno, a doação, o desapego, a solidariedade e a dignidade de saber respeitar a si mesmo, o outro e as Leis da Mãe Natureza.

***

“Ao clã Burlamaqui, originário do amor de Neyde e Walmar, minha maior realização”

***


Neyde Burlamaqui de Alvarenga, de Caxambu - MG, credita tudo que conhece de Literatura ao saudável hábito da leitura, que cultiva desde a infância. Sua participação ativa dentro da arte vem de há poucos anos, tendo um livro, inédito. Em 2004 começou a participar de eventos culturais, tendo sido agraciada em vários deles.

Esqueci de dizer

Postado por Clube Em 08 Aug 2007 | Em: Antologias

Ontem o dia foi muito corrido,
nos vimos tão pouco,
nos despedimos tão breve
que eu esqueci de dizer tantas coisas…

Esqueci de dizer
que eu a amo e já não mais consigo viver sem você;
que seu rostinho de anjo não sai mais de meu pensamento,
esteja eu alegre ou triste, sozinho ou com a turma,
de dia ou de noite, em todos momentos.

Esqueci de dizer
que diariamente surpreendo minh’alma viajando, bem longe,
voando, pairando em sonhos benditos,
e meus olhos perdidos, ultimamente sem brilho, fixos,
buscando os seus no azul infinito.

Esqueci de dizer
que você não foi o meu primeiro amor,
mas é o atual;
que você não foi o meu único amor, mas, de todos que tive,
é o principal.

Esqueci de dizer
que seu cheiro não sai de meu corpo, por mais que eu me lave;
que o sabor dos seus beijos fixou-se em meus lábios,
depois de imergir em meus poros sua pele suave.

Esqueci de dizer
que só você me extrai o sorriso mais puro;
que não me importa o passado,
mas tão somente o presente, nós dois
e o nosso futuro.

Esqueci de dizer
que sua ausência machuca e faz doer minha alma
mas o meu coração, quando meus olhos a vêem,
silencia, se acalma.

Esqueci de dizer
que eu a quero e espero,
e que o tempo de vida que ainda me resta,
eu ofereço a você,
para que você o transforme,
com seu jeito moleque,
em domingo de festa.

***

Duda Minozzi, de Sorocaba - SP,  gosta de poesia e as suas chama de “despretensiosas, mas sinceras”. Com “Boa companhia” – na antologia Além das Letras – apresentou-se aos Amigos de Letras naquela que foi sua primeira participação num evento cultural literário. Sua amostragem enviada para as seletivas mostraram que pode vir a construir muitos e belos poemas.


Blog Trivial do Sergio Grigoletto