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Banco de(s) crédito

Postado por Clube Em 08 Aug 2007 | Em: Antologias

    O cliente chegou no banco esbaforido. Entrou na fila, olhou para o relógio e aguardou a sua vez. Depois de uma hora e meia de espera, foi atendido.
— Como posso ajudá-lo? – disse o caixa.
— Quero fazer uma reclamação sobre…
— Reclamação?! Do que veio reclamar? Acha que tem mais problemas do que eu?
— Mas…
— Nada de mas. Sabe há quantos dias que eu não durmo? Três dias.
— Desculpe. Eu não sabia.
— Desculpe. Eu não sabia. Não tem consideração com as pessoas? Sabe pelo que estou passando? Não. Não sabe. Nem quer saber.
— Quero sim.
— Minha mulher me largou e se casou com a melhor amiga dela, meu filho virou drag queen e hoje ganha mais dinheiro do que eu, dando (shows) para turistas. Olha só quanto desgosto. E você ainda vem fazer uma reclamação?
— Não está mais aqui quem falou.
— Só pensa nos seus problemas. Não liga para os outros.
— Obrigado pela informação. Até logo.
Decidiu ir ao gerente. Foi até a mesa dele e começou a falar:
— Por favor, queria fazer uma reclamação…
— Reclamação?! Com que direito você quer reclamar da gente? Já não sabe o que nós gerentes sofremos aqui dentro? Pensa que é fácil trabalhar num banco? Tem idéia do stress que passamos todos os dias?
— Espere. Eu só quero…
— Você quer é levantar o dedo indicador e me xingar, mas eu não vou deixar que isso aconteça, porque você não sabe dos meus problemas.
— Está muito bom o papo, mas tenho que ir embora.
— Agora vai embora, não é? Primeiro pisa na gente e depois acha que está tudo bem, que nós não merecemos nenhuma consideração. Somos seres humanos.
— Foi um prazer conversar com você. Tchau.
Correu para a porta de saída e esbarrou sem querer num dos guardas encostados na parede.
— Desculpe. Foi sem querer.
— Sem querer? Você pensa que eu não vi que você fez de propósito? Queria me empurrar mesmo e espere. Aonde você vai?
Saiu do banco, com grande pressa, desejando nunca mais voltar ali. Era melhor manter distância daquele lugar. Aquela loucura podia ser contagiosa.

 

***

Gaston Leonardo Stefani, do Rio de Janeiro - RJ,  fez cursos e oficinas de redação e escrita. Escreveu o livro “Contos da Escuridão”, publicou livros virtuais (de poemas e de contos), além de várias participações literárias. Para ler, gosta de Stephen King, Rubem Fonseca e Luís Fernando Veríssimo.

Brincadeira na praia

Postado por Clube Em 08 Aug 2007 | Em: Antologias

    Não se atrevia a mirá-los. A incredulidade em seus rostos misturava-se com a dor e o sofrimento. Também não lhe dirigiam o olhar. Não sabia o porquê, mas tampouco perguntava. Ao redor, aquela atmosfera modorrenta e fúnebre, típica dos cemitérios. Sentia-se culpado pela brincadeira, mas, afinal, fora compartilhada por todos. Já bastava a culpa que sentiu quando foi a sua vez. Preferiu, assim, adotar o silêncio respeitoso, solidarizando-se com a dor que verificava sentiam, ainda que não a sentisse.
Eram cinco amigos em férias. Costumavam sentar num banco lá na calçada da antiga Robert Kennedy, praia de Pajuçara, perto de onde havia o bar Ipaneminha. Papeavam, paqueravam as garotas que passavam, essas coisas.
A nova brincadeira: não poderiam saudar qualquer um que passasse de carro. Bastava ser alguém a quem normalmente o fariam. Teriam de encarar o infeliz. Proibido fingir que não o tinham visto. Olhá-lo, se possível dentro dos olhos, para não lhe deixar dúvida que fora visto e propositadamente não cumprimentado.
Veio um carro. Olharam fixa e seriamente para os passageiros. Após, gargalhada. Afinal, eram os pais da recente namorada de um deles. Vexame. Nenhuma intimidade com os futuros sogros. Assim passaram a tarde, sempre com um, ao menos, servindo ao deleite dos demais. Vinham professores da escola, parentes, paqueras e por aí afora. Quem tivesse o azar de defrontar-se com um conhecido, que cuidasse, depois, de desfazer o mal-feito.
O último carro. Dentro, Manoel, vulgo Lapada, cara violento, fama de brigão e arruaceiro. Sobrou para Sílvio, pois era quem o conhecia, mas só de oi. Engoliu em seco. Azar! Quis desistir. Até então só se divertira. Sua hora, porém, havia chegado. Podia imaginar a ira do Lapada. Na melhor das hipóteses, e rezava por ela, nunca mais lhe dirigiria um aceno. As risadas, via-as contidas na face dos amigos, prontas para o momento de desaguarem. O carro, perigosamente mais perto. Apegou-se à esperança, última, de que Lapada não os visse. Nada. Como todos, olhou, detendo-se em Sílvio. Acenou. Até sorriu um pouco. Sílvio, obediente às regras, limitou-se a encará-lo, sério. Morto de medo, não movia um só músculo. O sorriso da vítima logo se desvaneceu. Seguiu-se-lhe um ar meio sem graça, logo transformado em ira. Estava frito. Parou o carro, abrindo a porta com violência. Percebia-se-o vivamente transtornado. Iniciou a travessia da avenida. Sequer olhara para os lados. Passos firmes. Cara vermelha, veias a estourar. A última coisa de que Sílvio se recorda foi do líquido abundante e quente escorrendo por suas pernas. Mais, não lembrava.
Por que não falavam com ele? Afinal, não fora o único culpado pela brincadeira. Será que, apesar do medo que sentira, da urina incontida — cujo cheiro ainda sentia no ar —, batera no Lapada num arroubo de coragem? Matara-o? Ou fora atropelado e morto? Claro! Daí o cemitério! Não lembrava porque deve ter ficado em estado de choque.
Levantaram-se para irem à sala do velório. Sílvio os imitou. O caixão aproximava-se, na medida em que a distância entre eles era vencida. Sentiu náuseas. Andava lentamente, um pouco atrás. Sentia que participara diretamente da razão pela qual estavam ali. Mas temia constatar ser o responsável. Manteve-se a uma distância maior. Vira-os debruçar-se sobre o caixão. Choravam. Aproximou-se mais. Olhou para o defunto. Sentiu-se desmaiar. Não podia acreditar. Era ele, Sílvio, no caixão! Infarto, alguém dissera. Morrera na hora. De medo do Lapada.

 

***

André Falcão de Melo, de Maceió - AL,  escreveu sua primeira crônica, “O Saci e a Bicicleta”, publicada no jornal Gazeta de Alagoas, e não mais parou. Gosta de Machado de Assis (Conto e Romance) e Luís Fernando Veríssimo (Crônica), Graciliano Ramos, Rubem Fonseca e João Ubaldo Ribeiro, entre outros.

Escola da vida

Postado por Clube Em 08 Aug 2007 | Em: Antologias

        Quando um feto é formado, está sendo feita uma matrícula para entrar na escola da vida.
No momento em que a criança vem ao mundo, é iniciada a aprendizagem. Estão ao seu dispor os melhores professores com titulação de Mestre e Doutorado: seus pais. À medida que cresce, brinca e aprende.
O material auxiliar de ensino é tudo o que está a sua volta.
As lições teóricas são realizadas em seu lar. Na convivência com as demais pessoas serão colocadas em prática, no dia-a-dia.
Muitas vezes, apesar de inúmeras explicações, o aluno demora a entender… erra muitas vezes até acertar. Porém, há aqueles que são sempre reprovados e parece que jamais alcançarão a próxima etapa.
A vida é um estudar contínuo, cuja carga horária só termina quando deixamos de respirar. Entretanto, pressentimos que em tempo algum nos tornamos realmente habilitados para viver na íntegra.
É necessário ultrapassar a fase de estagiário e aproximar-se ao máximo de um profissional capacitado na arte de viver… igualar-se a um aventureiro e escalar os picos mais altos das dificuldades. Sofrer, ganhar ou perder, não importa, mas recolher o que adquiriu ao longo dos anos e seguir em frente; preparar-se para o próximo obstáculo, porque a existência é uma batalha constante, não necessariamente uma guerra violenta, porém, ela gosta de provocar para conduzir o indivíduo mais adiante.
A pós-graduação se dá na maturidade, no auge da vivência.
No fim, quando o ser humano fecha os olhos e parte para a eternidade, leva consigo sua maior riqueza: experiências de vida. Isso não se pode receber como herança de ninguém: cada qual conquista a sua e ficam apenas as memórias da trajetória de um estudante que tornou-se universitário, diplomou-se, no entanto, persegue-lhe a sensação que ainda falta alguma coisa…
Por muito que se vive, parece pouco…
Ao nascer, ganhamos uma caneta, para com ela escrevermos a história da nossa vida, contudo, um dia, a tinta acaba, não sendo possível substituí-la por outra.

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Rosimeire Leal da Motta, de Vila Velha - ES,  aprecia História e Arqueologia, além da literatura. Leu Agatha Christie, Leo Buscaglia, Saint-Exupéry, Richard Bach e com especial carinho, Manuel Bandeira. Tem um livro solo ,“Voz da alma”, e inúmeras participações em antologias.


Blog Trivial do Sergio Grigoletto