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Uma velha casa na rua Humberto I

Postado por Clube Em 08 Aug 2007 | Em: Antologias

    Sempre sonho com a casa paterna. Nos meus sonhos é mais bonita e reformada. Sinto-me feliz e orgulho-me de morar numa casa tão bonita. Geralmente estou acompanhada de alguém e sou feliz e alegre em ver onde sempre morei.
Não entro na casa há mais de cinquenta anos! Sei que as figuras pintadas nas paredes da sala de visitas e da sala de jantar não existem mais. Diversas camadas de tinta as apagaram.
Outro dia, no desejo de reviver as pinturas, eu adentrei a casa da minha infância e mocidade. Com coragem entrei. Dominei o alvoroço do meu coração. A casa em si continua como era: bem limpa, as tábuas do assoalho bem conservadas. O quarto dos meus pais era o mais bonito – o sol de manhã entrava direto e ele estava iluminado, num tom amarelo suave e luminoso. Senti um grande bem-estar, quase uma alegria.
Não vi nem a sala de jantar nem a de visita. Estavam vedadas com tapumes e transformadas em quartos. Esqueci de dizer que a casa hoje é um cortiço. Mesmo lá é uma velha mulher que toma conta da casa. Quando me viu ficou tão contente. Me deixou entrar e não entendeu nada do que eu dizia.
Entrei no quarto que compartilhava com minha irmã Inês. Olhei a janela para ver se ainda tinha o jasmim que a contornava. Nem sinal. O quarto da minha irmã Amélia também estava fechado. Entrei no quarto do meu irmão Moacyr. Olhei para o teto para ver se o abajur amarelo com uns cachos de glicínias lilases ainda estava lá. Nem abajur nem glicínia. Na sala da frente eu queria encontrar a escrivaninha do meu pai, os livros e os retratos nas paredes. Também não estavam lá. Nhá Antonia, a nossa preta velha, na cozinha, a escolher o feijão e a contar os “causos” de assombração, também não estava mais lá…
Meu irmão caçula, João, resolveu amestrar uma aranha. Não sei como, amarrou-a num barbante e andava com ela metendo medo na gente. Também não estava mais lá….
O meu irmão Chico estava sempre machucado – vivia brigando com a molecada da rua. Mas as mãos dele eram delicadíssimas. Ele também era nosso guardião. Também não estava mais lá…
Minha irmã, tocando uma valsa vienense ao piano e meus pais dançando. Minha mãe apoiava a cabeça no ombro do meu pai e eu pensava: deve ser a moda alemã. Ela parecia como que encabulada. Minha mãe era alemã… Mas eles não estavam mais lá.
Da janela do quarto dos fundos vi o quintal grande, as flores eram outras. Nada do meu passado distante, quando me pendurava nas ameixeiras. Não desci aos porões onde dormia a minha Bela, a preta velha que fora escrava do meu pai – eu sabia que ela não estava mais lá. Eu e meu irmão João gostávamos de mexer nos trastes da nhá Bela, como a gente carinhosamente a chamava.
O Baiano – que não era baiano, mas mineiro – que fora esquecido pelo seu patrão de regresso a Minas foi acolhido pelo meu pai. Ficou agregado da família. Dormia no porão da frente e tomava conta da casa e de toda a molecada que nela aportava. Ele era bravo. Baiano, você também não está mais lá, plantando milho ou na horta, brigando com a molecada que jogava futebol no campo e pulava o muro para pegar a bola. O Baiano, do qual nunca soube o nome, já não estava mais lá…
Saí da casa com o coração aliviado. A estrutura bem planejada da casa bem sólida estava lá.
Eu entendi. Ela queria ficar sozinha como até então, com todas as alegrias e todas as tristezas e todos os sonhos dos que nela viveram e não estavam mais lá…Se foram. Para onde? Não sei.
Era apenas uma casa bem pensada para durar uma eternidade como vai durar, pois está completando oitenta e sete anos, quase a minha idade, e, se não for demolida, vai ser centenária.
Meu neto passou o braço pelo meu ombro e então entendi: a casa queria que eu olhasse para frente nos dias que ainda viverei até que o vento que os levou também um dia sopre para mim. Até lá, me esperam dias alegres e tristes, preocupantes, mas eu não estarei sozinha.
Tranquei o portão, olhei a casa outra vez. Ela deu-me um longo adeus e me pediu para que eu a esquecesse. Estava feliz como uma velha de oitenta e sete anos, no seu silêncio e nas lembranças, nas tristezas, nas nostalgias de seus longos dias de solidão que já estão bem longe.

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Ana Ricarda Reimão Lacerda, a Didi, de Santos - SP, escreve (aos oitenta e oito anos) sobre reminiscências de sua infância. Lê Saramago por interesse especial por sua crítica irônica, quase debochada, dos acontecimentos. Credita a Carlos Heitor Cony o interesse em dar conhecimento ao público de suas crônicas, até então, despretensiosamente escritas em caderno.

O Pastor

Postado por Clube Em 08 Aug 2007 | Em: Antologias

    A morte chega um dia para todos, ele sabe. Mas, sabe de modo diferente das pessoas sadias que assim dizem, de leve, como é costume entre os que não lhe sentem a aproximação, como se a morte fosse uma abstração, algo distante, irrealizável… Verdade que já falara assim também, a morte é para todos, a vida apenas uma passagem, consolando moribundos, como se a morte fosse coisa só deles, sinceridade quase nenhuma, já que só pode avaliar verdadeiramente os sentimentos, quem também os vive… Sabe agora o que é esperá-la, palpável, chegando a qualquer momento… Cancerosos podem morrer lúcidos, falando, se alimentando… Não fosse a dificuldade na locomoção, dependendo de muletas, e o cuidado que lhe recomendam, talvez pudesse até se esquecer por momentos da doença, tornada agora uma obsessão…
Tivera fé um dia na missão de sacerdote, vida espiritual plena, o controle dos sentidos quando excitados, a palavra certa nos sermões eloqüentes, a admiração dos que o ouviam, aos milhares, muitas vezes. A importância crescente, a fama extrapolando fronteiras… Um ressurgir do entusiasmo religioso nas multidões, que ele atraía… Então a doença… E o despencar do alto da glória para o mais fundo da consciência e a constatada vaidade pessoal que a tudo se sobrepusera. E questionada a prática da fé, dúvidas se avolumando, tantas as religiões, tanto o bem, mas tantos os males também, tanto seu Deus, como o de tantos outros na origem da morte, sofrimento e dor… A princípio, se recolheu em si mesmo… Pediu depois que o limitassem à missão do consolo aos doentes graves, como ele próprio. Tentaria amar a Deus no próximo e o amaria do seu jeito, sem preces, sem rituais, lhe perdoando o sofrimento que lhe impunha. Quem sabe purificação em vida, algo transcendente a que a razão não tem acesso…
Consulta a agenda, tem visitas a fazer… A começar pelo condenado, que só tem mais alguns dias antes que a injeção letal o leve… Para onde?

    Condenado
— Virá mesmo? É o único a compartilhar comigo a angústia na espera do momento fatal, também ele condenado à morte pela doença traiçoeira, e quando mais a vida lhe sorria, o pastor das almas… Talvez o único que me entenda quando digo que não foi pelas minhas mãos que ela morreu, embora nela tivesse atirado à queima-roupa tantas vezes… Nem pela minha livre vontade, embora tivesse premeditado o crime há tantos dias. Tenho as mãos, o coração e a mente limpos. Pois como falar em premeditação quando o que mais queria no mundo era vê-la viva?  Como falar em assassinato, se a queria para sempre a meu lado? Como falar em crime perpetrado por mim se ela mesma decretou a própria morte quando veio ao meu encontro, se aproveitando da minha posição e fortuna, me alegrando a vida, transformando a minha velhice morna e sem brilho numa juventude prazerosa? Era meu céu e meu inferno…
Mas não. Não é vítima de si mesma. É inocente também por querer o que não tinha e a tentavam a ter, por lhe acenarem com as belas roupas para lhe vestirem o jovem corpo perfeito, por a tentarem com o status social que jamais tivera, dinheiro, luzes… E daí achegar-se ao homem poderoso que eu era, o homem que a elevaria da pobreza à riqueza, do apagado ao brilho. E da vida à morte. Mas o homem instrumento, o homem vítima, o homem purificado no sangue dela. Puna-se com a morte o culpado/inocente, com a morte oficial, a morte legal, a morte vingança social. E de que adiantaria a vida sem ela?

 

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Maria A. S. Coquemala, de Itararé - SP,  tem três livros publicados, “Naná e o Beija-flor” (infanto-juvenil – 2ª edição), “Círculo vicioso” e “O último desejo”, contos curtos, ajustados aos leitores dos nossos dias, sem muito tempo para longas leituras, mas desejando um pouco de literatura para os momentos de ócio. Gosta de estar em contato com gente do seu meio, poetas, prosadores, jornalistas.

A solidão num apartamento da metrópole

Postado por Clube Em 08 Aug 2007 | Em: Antologias

        Desde quando se casara, mudara-se para aquele apartamento na metrópole. Dividiam aquele espaço: alguns vasos de flores, um papagaio, um cãozinho e um gato, que conviviam com sua solidão.
Todos os dias regava as plantas e cuidava dos animais. Nem se importava em olhar para baixo do prédio, onde carros se moviam, cabeças se aglomeravam e formavam apenas um corpo a andar pelas ruas de São Paulo. Lembrava a infância e a mocidade mineira. O espaço da chácara em que vivera era relembrado quando esbarrava sobre os móveis do apartamento. Sim. Havia, ainda, um piano que não podia tocar. Devia permanecer em silêncio para não perturbar os vizinhos, mas convivia com o ruído do rock, o barulho do funk e o tiroteio no morro. Diária e serenamente ouvia bem baixinho a música “Sonata ao Luar”, de Beethoven, mesmo sem poder avistar, do seu prédio, a lua. Sentava-se na varanda e punha-se a pintar: flores, jardins, igrejas… Tudo isso, enquanto avistava a favela e ouvia o som das sirenes das ambulâncias e das viaturas policiais. Era uma vida contraditória. Dois mundos a separavam. Já estava muito velha e o que conhecia daquela cidade não ia além dos limites onde seus olhos alcançavam.
Às vezes, quando sentia o assédio do passado, tinha vontade de conversar, de rever os amigos, de retornar o tempo… O marido já não estava mais ao seu lado. Regressara ao interior para ser enterrado. O único filho morrera há alguns anos quando voltava da faculdade. Fora atingido por uma bala perdida. A vida a comprimira ali, naquele espaço de poucos cômodos. Mantinha tudo como os dois deixaram. Quando se sentava à mesa, colocava sempre dois pratos a mais. Guardava a sensação de que um dia o filho fosse abrir a porta, jogar as chaves sobre a mesa, estender-lhe os braços, afagar-lhe os cabelos e contar como fora o dia: o que havia visto nas ruas, nas praças e no metrô. Pensava também no marido, na conversa amiga, nas confidências, nas promessas que sempre lhe fizera: passear com ela, todas as tardes, pelos vários jardins da metrópole. Às vezes, ela também se lembrava dos amigos que ali conquistara, mas que também partiram… Para aonde quer que fosse conviveria com o vazio que a morte nos traz. Tantas vezes atendeu ao telefone sendo convidada para ir a mais um velório: dos pais, dos parentes, dos amigos… Por isso, não voltaria mais para Minas Gerais. Havia de viver ali até o último dia de vida. Não se preocupava com a própria morte. Assim como não se preocupava com a própria vida. Já estava velha e cansada. Não lhe cabia mais a alegria, a tristeza e a saudade. Continuaria a viver a solidão que povoava aquele acanhado recinto que não ia além da varanda. Só lhe restavam as flores, o papagaio, o cãozinho, o gato, o passado e um pequeno postal da metrópole que se lhe abria à frente, através do limitado espaço da varanda.

 

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“À memória de minha mãe, Isabel Augusta de Paula Aniceto”

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Patrícia de Paula Aniceto, de Santos Dumont - MG, escreveu ensaios, análises sobre a produção poética do escritor Affonso Romano de Sant’Anna, participou do livro “Carlos Drummond de Andrade: um poeta e seus enigmas”, foi premiada em concursos literários e editada em coletâneas e antologias.


Blog Trivial do Sergio Grigoletto