Pesquisa personalizada

Nostalgia

Postado por Clube Em 08 Aug 2007 | Em: Antologias

Sentada numa velha cadeira de balanço, num cadenciado vai-e-vem, que no seu ranger emitia uma triste cantilena compassada… Igual… Com olhos embaçados, tentava enxergar através dos vidros da janela do pequeno quarto do Lar, onde vivia já sem esperanças que os seus a visitassem naquele dia do seu aniversário. Olhava para aqueles vidros enquadrados em modeladas molduras como se fosse a tela de um cinema onde passava o filme da sua vida que vinha em suas lembranças com nostalgia e até com amargura, às vezes. Em remotas memórias descerrava a cortina do tempo e via desfilar na sua mente toda sua infância de menina pobre, mas feliz. A adolescência, a mocidade, a família numerosa, com os irmãos, os pais, os avós que tantos ensinamentos haviam lhe passado segundo a moral e os costumes daquela época.
Neste tempo, os velhinhos morriam em casa, rodeados de carinhos, que os ajudava a passar os últimos dias da vida amenizando assim os sofrimentos e a solidão. Agora, morre-se num hospital ou asilo, onde o carinho e a dedicação são comprados, não vêm mais do coração… Continue lendo»

A choupana

Postado por Clube Em 08 Aug 2007 | Em: Antologias

    Aqueles eram dias difíceis para o velho Horozimbo. Ele e sua família, composta pela mulher Sinhana e as duas filhas gêmeas que andavam pela casa dos quinze anos. Andavam fugindo do domínio e do mau tratamento dispensado pelos fazendeiros naqueles dias tumultuados do ano de 1889, logo após a libertação dos escravos. Seu interesse era não ficar muito tempo no mesmo lugar. Apenas o necessário para refazer as forças e não cansar muito as filhas. O sonho era avançar sempre em direção à Corte, o Rio de Janeiro, que era para onde se dirigia a maioria dos ex-escravos e gente sem raízes. Na verdade todos eles sonhavam com a cidade onde tudo era luxo e não havia os maus-tratos a que eram submetidos nas vilas e fazendas do interior. Nas fazendas permaneceram apenas uns poucos negros já adiantados na idade, sem muita capacidade de trabalho. As caminhadas de Horozimbo o levaram até à Fazenda Santa Clara, na Zona da Mata mineira, no mês de junho, no auge da colheita do café.
Administrada pelo proprietário, Aparício, a Santa Clara vinha, a exemplo das demais fazendas, enfrentando dificuldades para conseguir mão-de-obra que pudesse substituir os negros escravos. Quando o velho Horozimbo pediu guarida por uma noite, foi-lhe oferecida a oportunidade de trabalho por uns tempos ou pelo menos durante a colheita do café. Decidiu ficar por ali desde que lhe fosse permitido erguer uma choupana para abrigá-lo e à sua família. O fazendeiro aceitou, mas fez duas exigências: a primeira era que os quatro esteios da choupana fossem de umbaúba e que a cobertura fosse de sapé e as paredes de taquara.
Como se sabe, a umbaúba é uma madeira de má qualidade. O sapé, um capim recusado pelo gado. Com estas exigências, esperava-se que a choupana fosse abandonada em no máximo um ano, quando se tornaria inabitável. Horozimbo era um cafuso experimentado nas agruras da vida, sabia muito bem o que fazer. Como aprendera com os índios puris cortou a madeira para os esteios, mas antes de enterrá-los deixou-os por algum tempo em uma fogueira. Queimou superficialmente os troncos de forma que eles criassem uma crosta de carvão na superfície, o suficiente para permitir que fosse retardado o seu apodrecimento. Dessa forma, eles durariam um tempo maior do que o normal. O fazendeiro, branco, não tinha conhecimento daquele costume. O tempo passou e nada da choupana ser abandonada. O fazendeiro interpelou Horozimbo a respeito de sua saída da Santa Clara, ao que ele informou não ter chegado a hora, pois os esteios ainda não haviam se deteriorado. Intrigado com o fato, Aparício mandou que homens de sua confiança procurassem descobrir num momento oportuno, o ocorrido. Ao cavarem em torno dos esteios, descobriram o ocorrido. Furioso, o fazendeiro se pôs a pensar em um modo de afastar a família indesejável de suas terras.
Descoberta a forma de como agir, reuniu alguns capangas e à noite quando estavam todos dormindo, cercou a choupana, amarrou portas e janelas por fora, e tocou fogo na mesma. Com a estrutura completamente seca, o conjunto incendiou-se rapidamente. O fogo, o calor e a fumaça impediram qualquer reação da família, que morreu sem qualquer tentativa de fuga. Estava resolvido o problema da forma comum na região naqueles dias. Nenhum registro, nenhuma investigação, nenhum comentário. Interrompeu-se assim, o sonho daquela gente simples, fruto do desamparo então existente. Era assim que funcionavam as coisas naqueles dias nos recantos das íngremes montanhas de Minas Gerais…

***

“À minha família e aos amigos, pelo apoio e incentivo”

***

José Geraldo Tavares, de Juiz de Fora - MG é um autodidata na literatura, o que o leva a uma constante procura pelo aprimoramento.Tem livro publicado, colabora em vários órgãos e em sites na internet, publicando contos e crônicas. Com premiação em concursos literários, inclusive no exterior, tem participação em várias coletâneas. É membro de diversas organizações literárias. Destaca Machado de Assis e José Lins do Rego, reconhecendo a influência deste último em seus contos, a maioria deles ambientados na sua região, a Zona da Mata mineira.

Com licença, mestres

Postado por Clube Em 08 Aug 2007 | Em: Antologias

Ando com pensamentos estranhos a me tirar o sono. Fico a pensar como ficará nosso Canto depois da nossa partida. A propósito, nosso Canto é nosso pedacinho de terra, para onde vamos, religiosamente, todos finais de semana. E tem mais, nosso Canto é nosso filho, e é bom esclarecer: só temos este. E lá se vão vinte anos de dedicação e zelo, feito pais dedicados e amorosos, a defender a cria como convém. Agora, o protegemos, o temos em apreço e a ele nada falta. Está sempre perfeito.
Nosso Canto tem flores e também palmeiras onde canta o sabiá. Nosso Canto é nosso exílio! Por isso me ponho hoje a cismar como ficará isso depois, depois da nossa passagem para o lado de lá.
Como ficarão as flores? Elas necessitam de olhares constantes, regas diárias, podas em épocas certas. Precisam ser replantadas nas estações corretas, pois isso garante a florada esplendorosa e bela. O solo precisa ser fertilizado periodicamente e as ervas daninhas arrancadas. São trabalhos repetitivos, ano após ano, dia após dia, onde não se pode faltar, negar, falhar, sem herdar, por conta disso, o cenário da devastação e do abandono.
A grama dá trabalho, carece de ser aparada semana sim, semana não, nos meses de novembro a abril. E depois, em agosto, pede terra preta, derramada por cima, em camada bem fina, para crescer bonita na estação das flores.
A mata exige trabalho também. Árvores apodrecem, árvores secam. São as doenças, as pragas, e se não forem combatidas, atacarão árvores sadias, sejam de porte alto, baixo, não importa, cairão pelo chão. E os cipós? Estes estão sempre rondando e se deixarmos, eles enlaçarão as árvores e isso impedirá o crescimento normal e pode até levá-las à morte. Por isso precisam ser arrancados, mas atenção: tem jeito para ser feito, não pode ser a torto e a direito. E é assim, manejo constante. Sem trela. Sem descanso.
Sem os pais, como será? Não sei ainda, por isso sigo com a minha cisma, mas isso posso afirmar: a várzea do nosso Canto tem mais flores e lá nossas vidas têm mais amores.
Como ficará o rio com o leito cheio de coisas por tirar: galhos, troncos e tantos objetos, como plásticos e vidros carregados e depositados no remanso dos meandros? Se para limpá-lo é necessário adentrar-se, molhar-se até o peito, pisar o chão às cegas, sem medo e sem receio e ter forças para arrancar os trastes a cobrir o leito? Como ficará nosso rio vagaroso, de margens verdejantes e cheias de beijos floridos e jasmins cheirosos?
Não é diferente com o lago. Não mesmo! Plantas invasoras crescem e se proliferam rapidamente. Se não forem erradicadas, ganharão força, e isso não é bom, nem para os peixes, pois terão menos área para nadar, e nem para as aves, pois o local não fica bom para nidificar.
E há os peixes do lago e também as aves e os ratões do banhado. Todos precisam ser alimentados. E não fica de fora a horta e o pomar e a casa e as estradas e os caminhos pela mata.
Há também as pontes, feitas de madeira. Volta e meia precisam ser pintadas para se conservarem inteiras. O mesmo com a casa do mel e onde ficam as abelhas. Há de se fazer a limpeza, caso contrário, com o passar do tempo, nada sobrará.
É por conta de todo o relato acima a minha cisma. E posso dizer mais ainda, pois lá também o mata e as flores têm mais vida. E minha vida, mais encanto e mais cores.
Às voltas com esses pensamentos estranhos venho passando vários dias. Minha alma não tem sossego. Não sei como ficará nosso Canto, órfão de pai e mãe, sozinho e sem amparo, solitário e abandonado. E mesmo pondo os pensamentos desse jeito, com rimas entremeadas a ermo, a dar a este texto ar de gracejo, ainda assim não tenho sossego e volto a me indagar: e então, como será?

(Como será ainda não sei. Sei apenas isso: fiz como você mestre Ziraldo, ao redigir “Reminiscência” sem a letra “o”. E como sem essa letra não poderia escrever, pois a carrega no nome e reverenciá-lo precisava, escrevi sem o “u”, a vogal derradeira. Se não o fiz lindamente como você é por ter nascido Ângela e ser, ainda, aprendiz nessa seara das letras. E a você mestre Gonçalves Dias, direi mais: nosso Canto faz parte da terra verde e amarela. A nossa terra! E também peço para não morrer longe dela).

 

***

“Para Antonio”

***

Ângela Maria Godoy Theodorovicz, de São Paulo - SP, permeia seus escritos entre poemas e textos em prosa. Editou, em pequena tiragem, livro sobre o sítio Canto das Águas, onde entre fotos e poesias, cantou seus jardins, lago, rio e matas. Para ler, gosta de poemas, romances e biografias. Dentre seus preferidos estão Gonçalves Dias, Fernando Pessoa, Adélia Prado, Manuel Bandeira, Lílian Hellman, Carlos Heitor Cony e Érico Veríssimo.


Blog Trivial do Sergio Grigoletto