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Guerreiro-menino

Postado por Clube Em 08 Aug 2007 | Em: Antologias

    Na beleza de seu sono, o semblante sereno dava a sensação de um sonho bom. Gostava de ver suas pernas e mãos unidas de um jeito a parecer um menino frágil e desprotegido.
Homem forte do alto de 1,82cm, não se faz superior a ninguém; os olhos castanhos vêem o mundo de uma maneira colorida e sempre positiva; apesar dos braços fortes não deixa de ser carinhoso e o pratear de seus cabelos não tira a jovialidade também demonstrada pelo seu sorriso – Ah! O seu sorriso… O mais lindo que já vi!
Se alguém o visse dormindo daquele jeito, jamais imaginaria o homem forte que é.
“Você é um guerreiro, o meu guerreiro”, pensava eu.
O sol mal acaba de nascer e ele já está de pé, muitas vezes ainda cansado, pois se deitava já com a lua alta. Orgulho-me dele, homem honesto e preocupado com as pessoas, dedicado ao trabalho. Muitas vezes vai para longe, outras fica por perto, mas independente da distância, está sempre em meu pensamento e em meu coração.
Quando chega o final do dia a lua traz de volta meu guerreiro e com um beijo e um abraço forte comemoro sua chegada.
Sinto-me realmente feliz! Jantamos, conversamos sobre vários assuntos, mas ele ainda tem que trabalhar. Eu espero e torço para que possamos ter um pouco mais de tempo juntos.
Quando o relógio nos contempla com alguns momentos a mais, deitamos no sofá da sala – extremamente confortável para apenas uma pessoa – e, disputando o pequeno espaço, entrelaçamos nossos corpos e damos longas e gostosas gargalhadas.
Assim chega o final do nosso dia e o momento e ouvi-lo dizer:
— Flor, vou para o berço…
Despedimo-nos com um longo abraço, em poucos minutos percebo que meu guerreiro tornou-se novamente o menino frágil e desprotegido de antes. Olhando para ele com o coração cheio de amor, vendo-o perto e seguro, meu porto seguro, digo:
— Dorme meu anjo, dorme minha flor, dorme com Deus, meu amor.
Dia desses, ainda deitado, contou-me um sonho que acabara de ter. Estávamos em uma linda casa, dessas de dois andares que têm no lugar das janelas portas com sacadas. Tinha um grande viveiro de pássaros onde moravam nossos canários. Esse viveiro ficava em um grande jardim, que acabava em uma praia maravilhosa, e além do jardim havia muito espaço ainda onde criávamos nossos cães. Enfim, era a casa dos nossos sonhos. Divertiu-me seu entusiasmo dizendo que um dia aquilo se tornaria realidade.
Com brilho no olhar, brilho dos olhos do menino prestes a adormecer, vi acordar o guerreiro que, mesmo sem perceber, já havia me dado tudo aquilo.

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“A você minha flor, meu grande amor, meu guerreiro-menino”

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Renata de Freitas Sanches, de Santos - SP,  diz que sua inspiração é noturna, “quando os pensamentos voam”. Gosta de Vinícius de Moraes, Luís Fernando Veríssimo, Mário Prata, Jorge Amado e Nelson Rodrigues. E sua frase: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã” (Renato Russo).

Poços na memória

Postado por Clube Em 08 Aug 2007 | Em: Antologias

    Aguar a rua, já viu? Não tinha calçamento nem asfalto. Minha rua, central, era pura terra batida. Cada moradora jogava água no seu “pedaço”. Só depois de domar o pó lá fora é que iam limpar dentro. Quase toda casa tinha alpendre, um quadradinho gostoso de ficar, ventilado e com sombra. Brinquedos espalhados, liberdade, fantasia boa, serenidade. Portões baixos, nem sempre com trinco. Não precisava. Grades e chaves também não. Trancar portas só à noite. Risco mínimo de furto ou roubo, tiro ou faca nem pensar, estupro ou seqüestro? Imagine…
E a gente temia o Zé Biri. Ele batia os pés e a gente corria. Certinho da cabeça certamente não era, mas, perigoso… Perigoso é o tráfico, e o álcool dirigindo. Também a indiferença e o desrespeito. Feras na coleira e no quintal. “Feras” sobre rodas com gana de correr, voar, sei lá! Zé Biri, coitado, era só diferente. Também havia os caiapós, da festa de S. Benedito. Minha avó alertava: “Eles vêm atrás da bugrinha, roubada deles, e levam meninas brancas!”. Mais branca que eu era difícil e eu me escondia: mal respirava! Claro que, nos caiapós, minha avó projetava seus medos de a neta cair em mãos estranhas e o medo, nestes casos, é bom companheiro. Fora isso a Festa era festa. Rodar no carrossel e olhar a serra verdinha, ao sol ameno, depois a roda-gigante, os carrinhos, a rua, depois tudo de novo. Em maio fazia frio. Ou melhor: gelava! Ir à Festa só de gorro, casaco e luvas! Saia pregueada de lã xadrez e sapato de verniz preto com meias brancas. Inocentes anos ’60…
Tudo era barato e todos tinham dinheiro. E dinheiro vivo… Muito poucos tinham carro. Normal era andar a pé. E a gente andava, sem medo e sem perigo. Proibido era falar com estranhos e olhar para dentro de bar. Sempre havia uma “vendinha” perto de casa, sorveteria, padaria e muita coisa boa, insuperável. Como a bomba e o canudo folhado recheados de creme da Padaria Santa Marina. E os inigualáveis Doces Mesquita? Em quadradinhos, num “tijolinho” caprichado, ou em pasta, com pedaços de ameixa preta! Seu Mesquita tinha um segredo e o doce não enjoava. Saudade imensa daquele senhor alto e amável! Leite a gente comprava na leiteria. Era entrar e vir o cheiro bom de leite fresquinho. Geladeira não fazia falta, porque o clima era bem frio, na época. Guaraná, Grapette e Crush, saborosos mesmo sem gelo e em garrafas de vidro.
Com a ditadura vieram a TV e o telefone, a Censura e o medo, mas também a presença maciça – e obrigatória – de estudantes nos desfiles oficiais. “Não ir” era impensável. A vantagem era que a criatividade das escolas dava show. As faixas contendo a platéia eram respeitadas e ninguém invadia o desfile. Mas quando entrava na avenida a banda marcial do Colégio Marista era difícil não se emocionar: muito vigor e competência com nenhuma timidez! Idem quanto aos Carnavais: a juventude em peso na praça, engajada e feliz nos blocos e blocões. “Arco-Íris”, “Saci-Pô”, disputa séria… “Domésticas de Lourdes”, bloco masculino de turistas de saia e avental, brincavam e faziam rir! Pernas peludas de meia e salto, trejeitos caricatos de empregadas do lar, barba e batom, beijo e bigode, enfim, passaram, se foram! Como se foi o corso nos Carnavais, em carros abertos e bem freqüentados, com música boa e sem grosseria. Violência e transgressão eram raras exceções…

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“À Associação Atlética Banco do Brasil (AABB) de Poços de Caldas, patrocinadora de minhas participações nas Antologias do Clube Amigos das Letras desde 2003”

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Fátima Ricci, de Poços de Caldas - MG,  tem crônicas e poesias publicadas em jornais, revistas e sites na Internet. Formada em Letras, considera a Literatura uma atividade lúdica e fascinante, seja no papel de leitora ou de escritora. Outros amores: cinema e música, dança e natureza, Andrea Bocelli e Poços de Caldas. Esta é sua sexta participação em antologias do Clube, o que considera uma honra. Uma frase: “O amor é a história da vida das mulheres e um episódio na dos homens” (Anne Louise Germaine de Stäel).

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Apoio Cultural – AABB–Associação Atlética Banco do Brasil – Poços de Caldas – MG

Segredos de Natal (Contos Malditos)

Postado por Clube Em 08 Aug 2007 | Em: Antologias

Os pisca-piscas ainda brilhavam suas cores desbotadas frente à exigência dos raios de sol naquela manhã gostosa de Natal. Fechei a cortina do quarto querendo nocautear por mas um pouco a lucidez caótica daquela manhã de ressaca e felicidade da meia-noite, divisória de dias pré e tal… Risos na calçada da rua tentavam dividir espaço em minha mente com o barulho na sala, de sobrinhos felizes por seus presentes e os lisonjeios de tia Clara para a receita de panetone caseiro à minha mãe, que havia preparado muitos deles para o café daquela manhã, a fumaça da churrasqueira já se fazia notar pela vidraça, sinal que as sobras da ceia iriam juntar-se aos churrascos bem passados do tio Hélio, que orgulhoso por ter ele mesmo construído aquela máquina de fumaça, servia alguns petiscos já àquela hora da manhã. Continue lendo»


Blog Trivial do Sergio Grigoletto