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Manifesto do Povo do Livro

Postado por Clube Em 08 Aug 2007 | Em: Antologias

    O acesso ao livro e a outras formas de leitura – como jornais, revistas e Internet – deve ser assegurado a toda a nação brasileira. Independentemente de credo, raça, faixa etária, necessidade especial, escolaridade ou condição econômica, todo brasileiro, como ser humano que é, deve ter garantido seu direito inalienável à leitura – como meio de transmissão do conhecimento, entretenimento, de desenvolvimento pessoal e profissional e, portanto, de cidadania.
Em um país como o Brasil – onde apenas um entre cada quatro habitantes está habilitado para a prática da leitura; onde nossas crianças ocupam os últimos lugares nos estudos internacionais sobre compreensão leitora; onde o índice nacional de leitura é de menos de 2 livros lidos por habitante/ano; e onde a maior parte dos milhões de alfabetizados nas últimas décadas tornou-se analfabeta funcional – a leitura precisa e deve ser tratada como uma prioridade nacional.
A Educação e a Cultura são áreas estratégicas dentro do projeto do desenvolvimento nacional e da cidadania. A escrita e a leitura constituem não só o mais forte amálgama entre elas como o caminho indispensável para a formação do cidadão crítico, emancipado, inserido em seu meio e capaz de modificá-lo. Embora não seja a via única de acesso ao conhecimento e à informação – o que compartilha com outras linguagens, como a visual e a eletrônica –, o livro continua a ser a maior invenção do último milênio e a ocupar um papel central na sociedade.
A leitura gera condições para decodificar, interpretar, compreender e se fazer entendido, criando, assim, as condições necessárias para o ser humano se comunicar com os seus iguais. De tal forma que, ao promover o seu desenvolvimento em todos os aspectos, o ato de ler o credencia a buscar maior participação social e política e a exercer sua cidadania em plenitude.
As conquistas e os avanços obtidos nos últimos anos nas esferas federal, estadual e municipal necessitam ser preservados, mas não só. Precisam ser ampliados e ganhar a dimensão que o tema merece. Programas e projetos de acesso ao livro e às outras formas de leitura, de formação de agentes multiplicadores (como os educadores, os bibliotecários e os voluntários), de valorização do ato de ler no imaginário coletivo, e, ainda, de fortalecimento da economia do livro devem ser convertidos em política de estado – acima dos governos e das pessoas.
Tornar a questão do livro e da leitura uma política pública significa aprofundar o vínculo das ações de Educação e Cultura e, sobretudo, dotar a área de uma estrutura administrativa e orçamentos capazes de atender às grandes demandas existentes. Os esforços feitos até agora pelos diferentes governos merecem o devido respeito, porém ainda são insuficientes para o Brasil começar a saldar essa dívida social com o cidadão e a cidadania, com o livro e a leitura.
O Estado deve garantir as condições necessárias de acesso ao livro gratuito aos seus cidadãos. A biblioteca é um serviço público e dever do Estado, tal como a saúde e a educação. Para tanto, o Estado deve cumprir, de forma cabal, a Política Nacional do Livro e dar, a partir de 2007, prioridade total à revitalização da biblioteca pública. É ela o meio mais eficiente de proporcionar educação continuada à população e, dessa forma, ser instrumento de democracia e de política social.
É, pois, fundamental e urgente que todos os municípios brasileiros tenham pelo menos uma biblioteca e que a rede existente – municipal, estadual, federal, escolar, universitária e comunitária – seja fortalecida e reequipada para atender ao cidadão brasileiro dentro dos padrões mínimos internacionais: com bons e diversificados acervos de livros e outros materiais; pessoal qualificado e estimulado; e recursos permanentes para manutenção, atualização, formação e fomento. A Lei do Livro, a Câmara Setorial e o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) devem ser aprofundados e ganhar maior efetividade, materializados em projetos, programas e investimentos, em todos os rincões do país, sobretudo nas áreas menos favorecidas.
Às vésperas de se comemorar os 200 anos da criação da indústria do livro no país – que ocorreu em 1808, com a instalação da primeira tipografia e editora, a Impressão Régia – faz-se urgente e indispensável tornar o Brasil uma nação verdadeiramente de cidadãos leitores. A prática social da leitura é, afinal, o caminho para onde apontava a legião de brasileiros notáveis – integrada por escritores como Monteiro Lobato e tantos outros – como a estratégia de enfrentamento do drama da fome, da pobreza, da ignorância e da violência urbana para colocar o Brasil, aí sim, no rumo do desenvolvimento, da justiça social e da solidariedade.

Brasil, Setembro de 2006

Manifesto da Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura e entregue em mãos do Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva

Amigas

Postado por Clube Em 08 Aug 2007 | Em: Antologias

Tô amando teu marido. Tô louquinha por ele. Jade não entendeu direito. Limitou-se a olhar a amiga. — O que, Cida, tás maluca? — Negativo. Palavra de amiga. Não me deixa sozinha com ele. Fez a confissão e saiu. — Mas… Jade não teve tempo de retrucar. Era fim de tarde, estava cansada. Permaneceu sentada na cozinha. Com as mãos alisou a barriga de quase sete meses que abrigava o primeiro filho.
Cida e Jade nasceram com poucos dias de diferença. Em comum, o fato de serem filhas de mães solteiras. Cresceram juntas, adquiriram hábitos semelhantes. A menstruação de uma veio com o espaço de poucos dias da outra. Negras e pobres, morando em uma favela da periferia de São Paulo, nem terminaram o primeiro grau. Ganhavam a vida vendendo bugigangas nos semáforos. Assim não dependiam tanto das mães. Tinham feito um pacto para não se prostituírem. Com dezesseis anos começaram a namorar. Robson, o namorado da Cida, foi quem apresentou Biu. Os dois trabalhavam para uma transportadora. No primeiro dia em que saíram foram a um baile da escola de samba do bairro. De madrugada foram deixadas no portão de suas casas, com o compromisso de se encontrarem no dia seguinte. Continue lendo»

Mamita não sabe bailar

Postado por Clube Em 08 Aug 2007 | Em: Antologias

Ante a notícia de que o filho arrancara e vendera a porta da casa para tomar tequila, Mamita se desesperou.
Na primeira noite trabalhou até o amanhecer. Faxinou a casa, lavou os cães, lustrou as tartarugas, banhou os caranguejos e pôs a urtiga para dormir dentro de casa. Queixou-se do sono perdido e o procurou pela casa, nas gavetas, debaixo do tapete, nos bolsos, no sótão, debaixo das tábuas corridas.
Na noite seguinte, contou os mortos da família pelas estrelas – trinta e três – e achou que o número teve serventia a ser a idade de Cristo e, portanto, não era um bom número. E para desempatar tal pendência carecia de mais um morto na família e, assim, prestou-se ao sacrifício. Sua hora chegara. Deveria partir. Continue lendo»


Blog Trivial do Sergio Grigoletto