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Histórias filiais

Postado por Clube Em 08 Aug 2007 | Em: Antologias

    É quarta-feira, são dez da noite. Já é hora de Thiago dormir, pois ele tem nove anos e acorda cedo para ir ao colégio. A mãe – Suzana – acompanha-o até o quarto, entretida com as figuras do livro que tem nas mãos.
Mal começa a leitura e o filho vai sentindo as pálpebras pesando… Ela nem termina de ler o primeiro capítulo, e o garoto já tem os olhos se fechando… Ela chacoalha-o pelo braço; ele resmunga, entreabrindo os olhos, já sem muita noção do que se passa em volta. Ela insiste na leitura, um olho no livro e outro no filho, vendo se controla para que ele resista ao sono.
É tudo em vão: em poucos minutos o menino já dorme pesadamente. Mas Suzana torna a acordá-lo, e quando num susto o guri abre os olhos, ela o xinga: “Que sem graça, isso! Desse jeito eu nem me animo mais pra te ler nenhuma história… Eu te compro um livro novo, uma história tão bonita, e dormes antes do segundo capítulo?! Desse jeito me dá vontade é de te trocar pelo filho da Lúcia, pelo menos nessa hora!”. E vai dormir francamente desapontada, como se aquela cena não fosse a mesma de quase todas as noites.
É quase meia-noite na casa da Lúcia. Apesar do adiantado da hora e de seu filho Vitório ter apenas seis anos, ele ainda está acordado. Os dois estão deitados na cama dele. Os olhos de Lúcia, cheios de olheiras e cansaço, já vão cerrando, mas ela desperta quando o menino lhe grita: “Mãe, pode mais um?”. Num rompante ela esbraveja: “Não é possível… Isso é muita falta de consideração! Eu te leio sete livros seguidos, s-e-t-e!, e nem assim tu dormes, meu filho? Inda tenho que acabar duas petições antes de ir dormir… Toda noite essa mesma ladainha… Deus que me perdoe, viu?, mas dá vontade de te trocar pelo filho da Suzana, pelo menos na hora de te fazer dormir… Francamente!”.

 

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“À Lu[zia], ao Vitor e ao Hiago, que me inspiraram este conto parcialmente baseado em fatos verídicos, e a todos que se esforçam para lidar da melhor forma possível com os percalços das relações entre pais&filhos”

 

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Suyan Faria, de Araranguá - SC,  tem poesias, contos e crônicas publicados em diversos sites da internet e em antologias do Clube Amigos das Letras e de outros eventos literários. Cita Machado de Assis, “Matamos o tempo; o tempo nos enterra”, e Voltaire, “Não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-lo”.

Pé de pitanga

Postado por Clube Em 08 Aug 2007 | Em: Antologias

Um pé de pitanga nasceu aqui ao lado
Impossível pitanga em fruto imprevisível
Num solo duro, árido e faminto,
Mas se nasceu, há que se fazer criar a pitangueira,
Há que se torcer por ela, rogar a força e a reza,
E o vingar de todas as vontades

Assim é o afeto, que inesperado, nasce agora
Neste impossível espaço de mim mesma
Indiscutivelmente amor-pitanga que nasceu impróprio
Pra esse coração tão ínfimo, tão só e incompleto

Hei de querer todos os frutos, pitangueira,
De meus invernos, dos verões, das tardes preguiçosas,
Hei de querer os delicados cachos de bondade,
E toda cumplicidade do amor não-sei-porque

Se nasce um fruto milagroso no cimento
Que eu pasmada, vejo crescer em teimosia
Faço valer o meu direito de poeta
Deixo crescer o fruto em sentimento

Venham pitangas, venham vindo aos montes,
Trazendo o gosto infantil do meu amor primeiro
Que qual pé de fruta,
Um amor nasce, se fortifica e cresce,
Milagre semeado, pitanga dos afetos,
Que cresce agora no cimento do meu peito

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Maria Cecília Monteiro de Figueiredo, de Ribeirão Preto - SP,  foi “Menção Honrosa” pela Academia Ribeiraopretana de Letras em 1979 com o conto “A Magrela”. Seus autores preferidos são Adélia Prado, Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade e Rubem Braga. Um pensamento: “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis” (Fernando Pessoa).

Termpo: a sorte da vida

Postado por Clube Em 08 Aug 2007 | Em: Antologias

Pelos caminhos do tempo
Eu, pêndulo deslumbrado,
Busco as rédeas do vento
Que sempre me havia guiado.

Se o tempo é amigo da experiência,
Talvez possa acabar com o escuro
Que tão ingrata inconsequência
Quer impor ao sonhado futuro.

Não sei se é pura utopia
Acreditar que o tempo cura a ferida.
Essa, porém, na construção de um dia,

É a mais doce concepção de vida.
E só se acha um vento na ventania
Quando do tempo é a lição entendida.

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Ana Helena Ribeiro Tavares, do Rio de Janeiro - RJ, é poetisa premiada e ensaísta reconhecida, com textos publicados em diversos veículos de comunicação. Em poesia, aprecia Fernando Pessoa e Vinícius de Moraes. Em prosa, Machado de Assis, Zuenir Ventura, Nelson Rodrigues, Luís Fernando Veríssimo e Arnaldo Jabor. De John Lennon observa a frase: “A vida é tudo o que acontece quando estamos ocupados demais fazendo planos”.


Blog Trivial do Sergio Grigoletto