Sentada numa velha cadeira de balanço, num cadenciado vai-e-vem, que no seu ranger emitia uma triste cantilena compassada… Igual… Com olhos embaçados, tentava enxergar através dos vidros da janela do pequeno quarto do Lar, onde vivia já sem esperanças que os seus a visitassem naquele dia do seu aniversário. Olhava para aqueles vidros enquadrados em modeladas molduras como se fosse a tela de um cinema onde passava o filme da sua vida que vinha em suas lembranças com nostalgia e até com amargura, às vezes. Em remotas memórias descerrava a cortina do tempo e via desfilar na sua mente toda sua infância de menina pobre, mas feliz. A adolescência, a mocidade, a família numerosa, com os irmãos, os pais, os avós que tantos ensinamentos haviam lhe passado segundo a moral e os costumes daquela época.
Neste tempo, os velhinhos morriam em casa, rodeados de carinhos, que os ajudava a passar os últimos dias da vida amenizando assim os sofrimentos e a solidão. Agora, morre-se num hospital ou asilo, onde o carinho e a dedicação são comprados, não vêm mais do coração…
Continuou a ver o filme imaginário e comoveu-se ainda mais, ao lembrar do seu casamento, na pequena capela lá mesmo na cidadezinha de ruas de terra batida. Como ela ia bonita no seu vestido de noiva!… Depois, sua nova casa, pequenina mas acolhedora, onde um afluente do caudaloso rio cortava a propriedade e gorgolejava por entre pedras, tugindo dia e noite numa silente canção, embalando os momentos felizes com o marido jovem também e cheio de vida. Mais tarde o alarido dos filhos, as correrias, as cantigas de rodas das meninas, o futebol dos meninos.
Tinha sido muito feliz até o dia em que o hospital da cidade a procurou para comunicar que seu marido havia sofrido um acidente de trabalho e, devido a um traumatismo craniano, não resistira e morrera.
Sem auxílio da previdência social, teve que se empregar para manter a casa e os estudos dos filhos. Enfrentou corajosamente a situação, trabalhou dia e noite para que nada faltasse à família.
Sua mãe, que morava com ela desde a morte do marido, já em idade avançada, em princípio não lhe dava trabalho, mas com o passar dos anos foi enfraquecendo, até que, por fim, não se levantava mais da cama.
Toda manhã, antes de sair para o trabalho dava-lhe banho, mudava-lhe a roupa, dava os medicamentos. Queria que a mãe a sentisse sempre por perto de si, dando-lhe carinho para que a sensação de abandono nunca fosse motivo de tristeza ou trabalho.
Também não descuidava dos filhos, incentivando-os, ajudando-os nos deveres escolares enquanto não estavam na faculdade. Sempre se preocupava em trazê-los bem vestidos e em dar-lhes algum dinheiro para se divertirem, para que não ficassem envergonhados perante os amigos e colegas. Em suma, ajudou a todos, doou-se inteiramente, esgotou-se a trabalhar e esqueceu-se de si! O seu único desejo era que não faltasse nada à família. Sua felicidade consistia em vê-los felizes. Não importava seu desgaste físico, a renúncia que fazia dos próprios anseios e sonhos. Bastava a presença dos filhos para compensar tanto sacrifício. Envolvida com as necessidades da família, não teve tempo de perceber que a mocidade passara depressa e que a velhice se aproximava a passos galopantes!…
Algumas vezes, no ônibus, a caminho de casa, quando saía do emprego, sentada no último assento para pensar quietinha, sonhava… Sonhava com a aposentadoria e os filhos casados, poderia, então, ler os livros de que gostava, ir ao cinema e até viajar, conhecer pelo menos as cidades da região… Ouvira dizer que existiam grupos da terceira idade que passeavam, dançavam, faziam ginástica. Depois viriam também os netinhos para distraí-la e reviver o tempo feliz em que os filhos eram pequenos. Que saudade tinha dessa época!… Das gracinhas que eles faziam… Quando começaram a andar e a falar as primeiras palavras. Agora já são adultos, alguns já casaram. Quando completou o tempo para se aposentar, sua mãe deixou este mundo, acometida de grave enfermidade. O trabalho, o desgosto de ver seus entes queridos partirem provocaram-lhe esgotamento e lhe tiraram a saúde. Quando teve vagar para ler, já não via, pois perdera parte da visão, por efeito da catarata.
Quando teve tempo para passear, já não tinha força nem disposição. O sofrimento, o cansaço, trouxeram-lhe a velhice precoce. O único consolo era a companhia do filho caçula. Mas um dia este chegou em casa com esta novidade: — Mãe, agora que já me formei, arranjei emprego, vou me casar. A mãe tem que compreender, os tempos são outros, os filhos agora não ficam mais com os pais… Eu até propus essa hipótese à Lúcia, mas ela não aceitou, quer viver só comigo, ou não se casa. Eu concordo com ela, a mãe deve ir para um Lar para idosos, porque sozinha não pode ficar, está doente, sem forças, vê pouco, tem dificuldade para caminhar; no Lar terá quem cuide da senhora, terá companhia. Tente compreender, eu tenho que viver a minha vida!… Já falei com os meus irmãos, eles também concordam. Até já arrumamos vaga numa morada para idosos, um lugar sossegado onde poderá ser feliz ao lado de outros idosos. Vá pensando nisso, eu me caso no mês que vem.
Ela nem acreditava no que ouvira! Ela que sempre cuidou dos pais velhinhos, nunca tinha passado pela sua cabeça terminar seus dias num asilo. Ela que passara toda a vida dedicada à família, agora que envelhecia, não tinha ninguém para sacrificar-se por ela! Não podia ser verdade… Tinha que encontrar uma solução!
Mas não encontrou… Um mês depois, após o casamento do filho, lá estava ela no Lar, onde se encontra agora pensativa, vivendo só de lembranças.
Sentada atrás da pequena janela naquela sombria casa, no dia do seu aniversário, à espera da visita dos filhos ou de algum amigo. Mas ninguém apareceu!
Entardecia… Abriu a janela para espairar… Sentiu a brisa fresca vinda do jardim… Ah cármica saudade da sua vidinha alegre sempre igual, sua vivenda modesta, onde Gerânios enfeitavam as janelas e as avencas brotavam ao acaso nas brechas dos muros… Respirou fundo. Uma dor profunda comprimia-lhe o peito. Sempre ouvira dizer que solidão dói. Agora sentia que era verdade. Os olhos tristes e baços prenderam-se na roseira florida que com seus galhos compridos e finos baloiçavam ao sabor do vento. Das rosas de suave perfume, algumas pétalas desfolhadas deslizavam soltas no ar e iam parar no chão e certamente seriam pisoteadas pelos passantes. Olhou-as com ternura e com pena, estabelecendo comparação consigo própria: também ela era uma flor murcha, abandonada ao sabor do vendaval da vida…!
Algumas pétalas açoitadas pelo vento foram cair no parapeito da janela. Com as mãos trêmulas, marcadas por manchas senis, apanhou-as com carinho… Foi o único presente que ganhou naquele dia do seu aniversário… Ofertado pelo vento.

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Sarah de Oliveira Passarella, de Campinas - SP, apresenta-se ao Clube Amigos das Letras com o seu notável “Nostalgia” e dado a qualidade da amostragem de suas obras, certamente a teremos junto do grupo em trabalhos que se seguirão a presente antologia.