Ante a notícia de que o filho arrancara e vendera a porta da casa para tomar tequila, Mamita se desesperou.
Na primeira noite trabalhou até o amanhecer. Faxinou a casa, lavou os cães, lustrou as tartarugas, banhou os caranguejos e pôs a urtiga para dormir dentro de casa. Queixou-se do sono perdido e o procurou pela casa, nas gavetas, debaixo do tapete, nos bolsos, no sótão, debaixo das tábuas corridas.
Na noite seguinte, contou os mortos da família pelas estrelas – trinta e três – e achou que o número teve serventia a ser a idade de Cristo e, portanto, não era um bom número. E para desempatar tal pendência carecia de mais um morto na família e, assim, prestou-se ao sacrifício. Sua hora chegara. Deveria partir.
Subtraiu dos ratos a ração venenosa, adicionou sonífero (dormiria para não ver o rosto da morte) e tomou tudo junto a um gole de vinho que ainda restara na caneca de louça branca.
Assentou-se no primeiro patamar da escada da sala, chorou e esperou a morte chegar.
Nesse intervalo, lembrou-se que era primordial deixar uma carta. Por esse motivo, tomou bicarbonato de sódio a fim de retardar o efeito do veneno, e escreveu algumas linhas para o filho, terminando com um “eu te amo” escrito em letras góticas bordadas com flores amarelas e vermelhas.
Sentindo-se só, com um olhar estático na aurora do próximo dia, como moradora do sublime, disse para o filho, que chegara correndo:
— A tristeza do seu vício mora nos meus olhos, traz apenas imagens tristes para o que vejo. Meu filho, você não é apenas um sonho, é a minha existência. Reze para que Deus não lhe traga uma velhice que vai corroer suas carnes, roer seus ossos… reze para o amor não o enganar…
O filho, gordo e feio de tudo, tal como sempre fora, abraçou a mãe, chorou muito e encostou o rosto inchado de cerveja no ombro dela.
Daí a poucos minutos, sons de ambulância. Homens de branco abraçaram Mamita, amarraram-na e colocaram em sua boca um tubo que era conectado a uma máquina transparente, até chegar ao hospital, onde foram necessários seis homens – fora os dois médicos – para segurá-la e colocá-la numa cama com vários aparelhos que iriam desintoxicá-la.
A noite passara e não se fez outra coisa senão esperar e, ali, com as nádegas na cama, lembrou que a mãe era a única capaz de diferenciar o seu sorriso triste de uma lágrima falsa e era capaz de adivinhar o que ele ainda não havia pensado. Era a mãe…
Somente ela sabia que as ovelhas mudam, os lobos também, mas o pasto é o mesmo…
O filho havia perdido o elo com a realidade da vida e não desejaria ter olhos que pudessem chorar pela morte da mãe, a que ele se prestara a ser o causador.
Passara a noite acordado. Pela manhã deveria acordar o galo para acordar a aurora que deveria transformar o negrume da noite nas cores do sol, extinguir o brilho da lua e das estrelas, recriar a magia de um novo tempo, arrastar o corpo para a beira-mar e mandar vir a poesia do espetáculo de mais um dia nascendo…
Quando o médico chegou, o filho se levantou e se prontificou a ouvi-lo. E o médico disse:
— Sua mãe precisa se divertir. Adquiriu um sentimento de culpa associado a uma tristeza involuntária, que às vezes pode levar à morte. Aconselho-o a levá-la para dançar e se divertir.
Uma semana depois o filho e Mamita saem para se divertir, entram numa casa de dança, se assentam e chamam o garçom. Mamita se lembra de que não sabe bailar e diz:
— Dois copos de tequila.

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Roberto Márcio Pimenta, de Serra - ES, tem na literatura de contos, sua dedicação maior no afazer literário, escrevendo suas obras com a minúcia de um cirurgião. Premiado várias vezes, tem já um invejável acervo de obras que pretende ver em livro solo.