A morte chega um dia para todos, ele sabe. Mas, sabe de modo diferente das pessoas sadias que assim dizem, de leve, como é costume entre os que não lhe sentem a aproximação, como se a morte fosse uma abstração, algo distante, irrealizável… Verdade que já falara assim também, a morte é para todos, a vida apenas uma passagem, consolando moribundos, como se a morte fosse coisa só deles, sinceridade quase nenhuma, já que só pode avaliar verdadeiramente os sentimentos, quem também os vive… Sabe agora o que é esperá-la, palpável, chegando a qualquer momento… Cancerosos podem morrer lúcidos, falando, se alimentando… Não fosse a dificuldade na locomoção, dependendo de muletas, e o cuidado que lhe recomendam, talvez pudesse até se esquecer por momentos da doença, tornada agora uma obsessão…
Tivera fé um dia na missão de sacerdote, vida espiritual plena, o controle dos sentidos quando excitados, a palavra certa nos sermões eloqüentes, a admiração dos que o ouviam, aos milhares, muitas vezes. A importância crescente, a fama extrapolando fronteiras… Um ressurgir do entusiasmo religioso nas multidões, que ele atraía… Então a doença… E o despencar do alto da glória para o mais fundo da consciência e a constatada vaidade pessoal que a tudo se sobrepusera. E questionada a prática da fé, dúvidas se avolumando, tantas as religiões, tanto o bem, mas tantos os males também, tanto seu Deus, como o de tantos outros na origem da morte, sofrimento e dor… A princípio, se recolheu em si mesmo… Pediu depois que o limitassem à missão do consolo aos doentes graves, como ele próprio. Tentaria amar a Deus no próximo e o amaria do seu jeito, sem preces, sem rituais, lhe perdoando o sofrimento que lhe impunha. Quem sabe purificação em vida, algo transcendente a que a razão não tem acesso…
Consulta a agenda, tem visitas a fazer… A começar pelo condenado, que só tem mais alguns dias antes que a injeção letal o leve… Para onde?

    Condenado
— Virá mesmo? É o único a compartilhar comigo a angústia na espera do momento fatal, também ele condenado à morte pela doença traiçoeira, e quando mais a vida lhe sorria, o pastor das almas… Talvez o único que me entenda quando digo que não foi pelas minhas mãos que ela morreu, embora nela tivesse atirado à queima-roupa tantas vezes… Nem pela minha livre vontade, embora tivesse premeditado o crime há tantos dias. Tenho as mãos, o coração e a mente limpos. Pois como falar em premeditação quando o que mais queria no mundo era vê-la viva?  Como falar em assassinato, se a queria para sempre a meu lado? Como falar em crime perpetrado por mim se ela mesma decretou a própria morte quando veio ao meu encontro, se aproveitando da minha posição e fortuna, me alegrando a vida, transformando a minha velhice morna e sem brilho numa juventude prazerosa? Era meu céu e meu inferno…
Mas não. Não é vítima de si mesma. É inocente também por querer o que não tinha e a tentavam a ter, por lhe acenarem com as belas roupas para lhe vestirem o jovem corpo perfeito, por a tentarem com o status social que jamais tivera, dinheiro, luzes… E daí achegar-se ao homem poderoso que eu era, o homem que a elevaria da pobreza à riqueza, do apagado ao brilho. E da vida à morte. Mas o homem instrumento, o homem vítima, o homem purificado no sangue dela. Puna-se com a morte o culpado/inocente, com a morte oficial, a morte legal, a morte vingança social. E de que adiantaria a vida sem ela?

 

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Maria A. S. Coquemala, de Itararé - SP,  tem três livros publicados, “Naná e o Beija-flor” (infanto-juvenil – 2ª edição), “Círculo vicioso” e “O último desejo”, contos curtos, ajustados aos leitores dos nossos dias, sem muito tempo para longas leituras, mas desejando um pouco de literatura para os momentos de ócio. Gosta de estar em contato com gente do seu meio, poetas, prosadores, jornalistas.