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	<title>Clube Amigos das Letras</title>
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	<description>Concursos de poesias, contos e crônicas</description>
	<pubDate>Fri, 23 May 2008 02:26:17 +0000</pubDate>
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		<title>&#8220;Orelha&#8221; 02 de &#8220;a Ponte&#8221; - Suyan Faria</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Aug 2007 02:01:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Clube</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Um dia me disseram para nunca desistir de escrever. Mas para quem tem a Literatura pelo lado de dentro do espírito, sendo o que Vinícius de Moraes chamou de “Alma que sofre pavorosamente/A dor de ser privilegiada”, não escrever equivale a “escolher morrer um pedaço”. Então é claro que nunca desistirei, não importa em que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify"><img src="http://www.clubeletras.net/wp-content/suyan.jpg" align="left" />Um dia me disseram para nunca desistir de escrever. Mas para quem tem a Literatura pelo lado de dentro do espírito, sendo o que Vinícius de Moraes chamou de “Alma que sofre pavorosamente/A dor de ser privilegiada”, não escrever equivale a “escolher morrer um pedaço”. Então é claro que nunca desistirei, não importa em que estágio esteja minha escrita. No entanto, para aprimorar-se, vencer a si mesmo e fazer sentido, o fruto da atividade literária precisa da interação com o leitor, a vida, o mundo, esse mundo que voa na velocidade da luz rumo à evolução tecnológica &amp; outras. Isso nem sempre é bom: esse volume cada vez maior de informações massificadas, na tv, na internet e em todo lugar, em geral desestimula a leitura, a percepção do lirismo, da Literatura como necessidade primordial, para a “otimização” do indivíduo e de sua relação com o Todo. A Literatura precisa vencer as barreiras todas, as sociais, as econômicas, o preconceito, o desestímulo. E, nesse ponto, aplaudamos o Clube Amigos das Letras e sua feliz iniciativa chamada “Viva Livro”, um programa de leitura e circulação gratuita de livros. Aplaudamos seu responsável direto, Sérgio Grigoletto, e todos os demais colaboradores. Aplaudamos a escrita, a leitura, como escritores e/ou leitores sempre mais críticos e conscientes. E, nos vários sentidos possíveis, corramos o risco da evolução.</p>
<p><strong>Suyan Faria<br />
Araranguá - SC</strong></p>
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		<title>&#8220;Orelha&#8221; 01 de &#8220;a Ponte&#8221; - Fátima Ricci</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Aug 2007 01:58:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Clube</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[“Antologia”, em grego, significa coleção de flores. Nada mais apropriado para descrever este livro. O sétimo editado pelo Clube Amigos das Letras, de Barra Bonita, SP. A beleza e a inocência da cidade certamente alimentam a cruzada cultural a que se dedica o incansável Sérgio Grigoletto. Garimpar textos criativos não é tarefa pequena. Nem simples. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify"><img src="http://www.clubeletras.net/wp-content/fatima.jpg" align="left" />“Antologia”, em grego, significa coleção de flores. Nada mais apropriado para descrever este livro. O sétimo editado pelo Clube Amigos das Letras, de Barra Bonita, SP. A beleza e a inocência da cidade certamente alimentam a cruzada cultural a que se dedica o incansável Sérgio Grigoletto. Garimpar textos criativos não é tarefa pequena. Nem simples. Fácil, muito menos. Mas ele aceita o desafio. Ainda bem. Prova disto é o programa “Viva Livro!”, viva expressão de boa vontade e cidadania. Materialização da máxima de Malba Tahan – “Quem não lê mal fala, mal ouve, mal vê”, concorda com Paulo Francis: “Quem não lê não pensa, e quem não pensa será para sempre um servo”. A diferença entre aqueles e o Sérgio Grigoletto é que ele também dissemina cultura, democratiza a leitura e faz disto sua bandeira. E – que o digam os autores aqui presentes – também cede o veículo que traz à luz estórias e histórias, pensamento e emoção que se restringiriam a arquivos pessoais. Letras compõem palavras a que têm acesso todos os falantes da Língua. Mas poucos se valem da comunicação escrita de forma original, diversa do simples “juntar palavras”. Estes o Sérgio Grigoletto atrai, não por acaso, e seleciona, acolhe, publica! Um dos resultados é conceder espaço a jóias da criação literária inédita, muitas vezes por simples falta da oportunidade de dar-se a conhecer, que é o objetivo maior do que extrapola a alma e vai, irresistivelmente, para o papel ou a tela do computador.</p>
<p><strong>Fátima Ricci – Poços de Caldas – MG</strong></p>
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		<title>Nosso momento literário</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Aug 2007 01:52:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Clube</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Antologias]]></category>

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		<description><![CDATA[Admiremos as pessoas que fazem. Aprendi a não comentar antes com ninguém de projetos ou idéias que tentarei colocar em prática. Talvez eu tenha aprendido mesmo é com o Sérgio Grigoletto, que, de uma hora pra outra brinda nosso tempo com outra produção supra literária, pois mostra como a arte escrita pode ser de valia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify"><img src="http://www.clubeletras.net/wp-content/marcondes.jpg" align="left" />Admiremos as pessoas que fazem. Aprendi a não comentar antes com ninguém de projetos ou idéias que tentarei colocar em prática. Talvez eu tenha aprendido mesmo é com o Sérgio Grigoletto, que, de uma hora pra outra brinda nosso tempo com outra produção supra literária, pois mostra como a arte escrita pode ser de valia muito adiante do que até então se podia supor.<br />
Produto puro e genuíno da liberdade de pensar, as inquietações, calores e pulsares de nossa época são colocados no alto andar que merecem. Nossos textos   podem estar longe de serem masterpieces. São a biografia da vida agora, do coração hoje, do mundo cujo ar é respirado neste exato momento. Relatos, impressões pessoais, poemas, liras embriagadas da necessidade de escrever, da possibilidade de montar uma rima ou uma frase quiçá perfeita, é o que veremos de agora em diante ao virar cada uma destas páginas, verdadeiras “radiações de um corpo negro”.<br />
Como nem percebemos, estamos fazendo história ao penetrar em discussões que podem estar na pauta da humanidade há séculos. Nossa imersão no mundo da literatura é mais profunda do que pensamos, porque estamos despidos da cultura capitalista, a qual teve usurpado seu trono de “única-comandante-das-ações” para que a doçura de reencontrar amigos, comentar seus textos, editar um livro a muitas mãos, exerça sua tarefa sábia e sagrada de ver nascer obras de todos os lugares deste país.<br />
Sim, porque um texto só existe quando é lido, quando é posto à prova monocrática de quem o toma pelas mãos e o transforma de papel e tinta em gota de experiências, anseios e temores.<br />
A proposta literária do Clube Amigos das Letras é sempre desafiadora e responsável por fazer uma inclusão social que nada tem a ver com diplomas, faculdades e academias. Jamais profissionais que se dizem possuidores de certificados reconhecidos ou não pelo MEC. terão a verve de quem se sente instigado a abrir o computador ou pegar na pena com o intuito de derramar sua alma para que uma outra pessoa que ele nem conhece possa recolher tais impressões, de maneira a acrescentar algo ao leitor após tal apreensão. Se bem quiserem notar, todas a minibiografias nas antologias do Clube Amigos das Letras não fazem sequer uma referência a títulos e comendas. Remetem apenas ao afazer literário de cada um, o que é uma prova inconteste do valor da obra, do autor, e não de seus títulos.<br />
Fui chamado a uma Delegacia de Polícia para depor no que seria um inquérito contra minha pessoa e aos jornais que me publicam, porque não sou jornalista profissional. Tal Sindicato me acusa de crime contra o emprego e falsidade ideológica, dentre outros. Ato contínuo, meus editores estão aguardando o trâmite do processo e não publicarão mais meus textos até que tudo se resolva, intimidados que estão. Sinto-me amordaçado, vivendo um retrocesso de quarenta anos, e faço desta minha apresentação a esta coletânea um libelo a favor da liberdade de expressão, cujos maiores representantes são vocês, escritores que deixam de ser anônimos a partir de agora e dão uma banana aos boçais incapazes e invejosos, de cuja pena jamais sairá uma frase poética, porque são secos e rasos. Viva a liberdade!</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify"><strong><br />
Marcondes Serotini Filho - Barra Bonita - SP<br />
Ortodontista, cronista e autor dos livros:<br />
“O Sonho: Crônicas Escolhidas”<br />
“Os Caçadores de Tirisco” </strong></p>
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		<title>Manifesto do Povo do Livro</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Aug 2007 01:49:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Clube</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Antologias]]></category>

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		<description><![CDATA[    O acesso ao livro e a outras formas de leitura – como jornais, revistas e Internet – deve ser assegurado a toda a nação brasileira. Independentemente de credo, raça, faixa etária, necessidade especial, escolaridade ou condição econômica, todo brasileiro, como ser humano que é, deve ter garantido seu direito inalienável à leitura – como [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">    O acesso ao livro e a outras formas de leitura – como jornais, revistas e Internet – deve ser assegurado a toda a nação brasileira. Independentemente de credo, raça, faixa etária, necessidade especial, escolaridade ou condição econômica, todo brasileiro, como ser humano que é, deve ter garantido seu direito inalienável à leitura – como meio de transmissão do conhecimento, entretenimento, de desenvolvimento pessoal e profissional e, portanto, de cidadania.<br />
Em um país como o Brasil – onde apenas um entre cada quatro habitantes está habilitado para a prática da leitura; onde nossas crianças ocupam os últimos lugares nos estudos internacionais sobre compreensão leitora; onde o índice nacional de leitura é de menos de 2 livros lidos por habitante/ano; e onde a maior parte dos milhões de alfabetizados nas últimas décadas tornou-se analfabeta funcional – a leitura precisa e deve ser tratada como uma prioridade nacional.<br />
A Educação e a Cultura são áreas estratégicas dentro do projeto do desenvolvimento nacional e da cidadania. A escrita e a leitura constituem não só o mais forte amálgama entre elas como o caminho indispensável para a formação do cidadão crítico, emancipado, inserido em seu meio e capaz de modificá-lo. Embora não seja a via única de acesso ao conhecimento e à informação – o que compartilha com outras linguagens, como a visual e a eletrônica –, o livro continua a ser a maior invenção do último milênio e a ocupar um papel central na sociedade.<br />
A leitura gera condições para decodificar, interpretar, compreender e se fazer entendido, criando, assim, as condições necessárias para o ser humano se comunicar com os seus iguais. De tal forma que, ao promover o seu desenvolvimento em todos os aspectos, o ato de ler o credencia a buscar maior participação social e política e a exercer sua cidadania em plenitude.<br />
As conquistas e os avanços obtidos nos últimos anos nas esferas federal, estadual e municipal necessitam ser preservados, mas não só. Precisam ser ampliados e ganhar a dimensão que o tema merece. Programas e projetos de acesso ao livro e às outras formas de leitura, de formação de agentes multiplicadores (como os educadores, os bibliotecários e os voluntários), de valorização do ato de ler no imaginário coletivo, e, ainda, de fortalecimento da economia do livro devem ser convertidos em política de estado – acima dos governos e das pessoas.<br />
Tornar a questão do livro e da leitura uma política pública significa aprofundar o vínculo das ações de Educação e Cultura e, sobretudo, dotar a área de uma estrutura administrativa e orçamentos capazes de atender às grandes demandas existentes. Os esforços feitos até agora pelos diferentes governos merecem o devido respeito, porém ainda são insuficientes para o Brasil começar a saldar essa dívida social com o cidadão e a cidadania, com o livro e a leitura.<br />
O Estado deve garantir as condições necessárias de acesso ao livro gratuito aos seus cidadãos. A biblioteca é um serviço público e dever do Estado, tal como a saúde e a educação. Para tanto, o Estado deve cumprir, de forma cabal, a Política Nacional do Livro e dar, a partir de 2007, prioridade total à revitalização da biblioteca pública. É ela o meio mais eficiente de proporcionar educação continuada à população e, dessa forma, ser instrumento de democracia e de política social.<br />
É, pois, fundamental e urgente que todos os municípios brasileiros tenham pelo menos uma biblioteca e que a rede existente – municipal, estadual, federal, escolar, universitária e comunitária – seja fortalecida e reequipada para atender ao cidadão brasileiro dentro dos padrões mínimos internacionais: com bons e diversificados acervos de livros e outros materiais; pessoal qualificado e estimulado; e recursos permanentes para manutenção, atualização, formação e fomento. A Lei do Livro, a Câmara Setorial e o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) devem ser aprofundados e ganhar maior efetividade, materializados em projetos, programas e investimentos, em todos os rincões do país, sobretudo nas áreas menos favorecidas.<br />
Às vésperas de se comemorar os 200 anos da criação da indústria do livro no país – que ocorreu em 1808, com a instalação da primeira tipografia e editora, a Impressão Régia – faz-se urgente e indispensável tornar o Brasil uma nação verdadeiramente de cidadãos leitores. A prática social da leitura é, afinal, o caminho para onde apontava a legião de brasileiros notáveis – integrada por escritores como Monteiro Lobato e tantos outros – como a estratégia de enfrentamento do drama da fome, da pobreza, da ignorância e da violência urbana para colocar o Brasil, aí sim, no rumo do desenvolvimento, da justiça social e da solidariedade.</p>
<p><strong>Brasil, Setembro de 2006</strong></p>
<p>Manifesto da Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura e entregue em mãos do Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva</p>
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		<title>Amigas</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Aug 2007 01:47:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Clube</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Antologias]]></category>

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		<description><![CDATA[    Tô amando teu marido. Tô louquinha por ele. Jade não entendeu direito. Limitou-se a olhar a amiga. — O que, Cida, tás maluca? — Negativo. Palavra de amiga. Não me deixa sozinha com ele. Fez a confissão e saiu. — Mas&#8230; Jade não teve tempo de retrucar. Era fim de tarde, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">    Tô amando teu marido. Tô louquinha por ele. Jade não entendeu direito. Limitou-se a olhar a amiga. — O que, Cida, tás maluca? — Negativo. Palavra de amiga. Não me deixa sozinha com ele. Fez a confissão e saiu. — Mas&#8230; Jade não teve tempo de retrucar. Era fim de tarde, estava cansada. Permaneceu sentada na cozinha. Com as mãos alisou a barriga de quase sete meses que abrigava o primeiro  filho.<br />
Cida e Jade nasceram com poucos dias de diferença. Em comum, o fato de serem filhas de mães solteiras. Cresceram juntas, adquiriram hábitos semelhantes. A menstruação de uma veio com o espaço de poucos dias da outra. Negras e pobres, morando em uma favela da periferia de São Paulo, nem terminaram o primeiro grau. Ganhavam a vida vendendo bugigangas nos semáforos. Assim não dependiam tanto das mães. Tinham feito um pacto para não se prostituírem. Com dezesseis anos começaram a namorar. Robson, o namorado da Cida, foi quem apresentou Biu. Os dois trabalhavam para uma transportadora. No primeiro dia em que saíram foram a um baile da escola de samba do bairro. De madrugada foram deixadas no portão de suas casas, com o compromisso de se encontrarem no dia seguinte.<span id="more-126"></span><br />
Semanas depois os quatro já haviam combinado: iriam ser independentes e morariam próximos. Os rapazes juntaram as economias e construíram, cada um, o seu chatô. Continuaram amigos, mas havia um assunto que ninguém comentava:   Cida não conseguia engravidar.<br />
Jade levantou-se, trôpega, foi até o fogão e mexeu a panela com feijão. Estava na hora de Biu chegar e a janta estava pronta. Os dias passaram e as duas não tocaram mais no assunto. Jade não demonstrou ressentimentos mas, intimamente, estava incomodada. Com a barriga bem crescida, quando ficava sozinha, divagava: — A Cida está cada vez mais inquieta e Biu deu pra ficar de cara amarrada. E se eles&#8230;<br />
No dia da consulta pré-natal, Biu acompanhou Jade. O médico tranqüilizou o casal: o parto deveria ser normal, para dali a quinze dias. Em casa, Jade notificou a amiga sobre o que o médico dissera.<br />
Dois dias depois, Cida e Robson foram acordados de madrugada, por fortes batidas na porta e gritos alucinados de Jade. O alvoroço atraiu a vizinhança: — É o Biu&#8230; mexi com ele e ele não respondeu; estou com medo, gente&#8230; me ajudem&#8230;<br />
Todos correram para ver o que havia acontecido. Robson foi o primeiro a entrar. Biu jazia imóvel e não se mexeu quando Robson deu-lhe um solavanco. O amigo logo percebeu que o outro estava morto: — Vamos chamar um médico – bradou. — A essa hora? Tás brincando! – disse alguém — Então vou até a delegacia.<br />
Robson correu até a delegacia onde narrou o ocorrido. O plantonista fez o registro e orientou o rapaz para que voltasse e aguardasse. Quase meio-dia, quando a viatura do IML compareceu. Após o exame do cadáver e algumas perguntas a Jade, o legista liberou o corpo para o enterro. Cida adiantou-se e perguntou ao médico: - Doutor, o que o senhor vai colocar no atestado? — Causa desconhecida – foi a resposta. Jade, por sua vez, quedou-se, cabisbaixa. O médico afastou-se. Cida olhou para a viúva e teve um estremecimento: — Jade tá muito calma – pensou.<br />
Uma semana depois, Jade deu à luz uma menina, de parto normal. No leito da enfermaria, Jade, enquanto amamentava, feliz da vida, chamou a amiga para perto de si: — Quero que você seja a madrinha. Você é a minha melhor amiga.<br />
Cida sorriu, comovida, mas não pôde evitar que uma lágrima rolasse pela face magra.</p>
<p align="justify">***<img src="http://www.clubeletras.net/wp-content/capon.jpg" align="right" height="160" width="111" /></p>
<p align="justify"><strong><img src="http://www.clubeletras.net/wp-content/franca.jpg" align="left" />Fernando Macedo França</strong>, de São Paulo - SP,  decidiu dedicar-se a escrever contos, crônicas e poesias há poucos anos, como resgate de uma tendência frustrada na mocidade. É aluno da Universidade Aberta à Terceira Idade — UATI/USP. Autodidata em literatura, são os seus preferidos: Machado de Assis, José Lins do Rego, Eça de Queiroz, Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira e Fernando Pessoa.</p>
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		</item>
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		<title>Mamita não sabe bailar</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Aug 2007 01:39:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Clube</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Antologias]]></category>

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		<description><![CDATA[Ante a notícia de que o filho arrancara e vendera a porta da casa para tomar tequila, Mamita se desesperou.
Na primeira noite trabalhou até o amanhecer. Faxinou a casa, lavou os cães, lustrou as tartarugas, banhou os caranguejos e pôs a urtiga para dormir dentro de casa. Queixou-se do sono perdido e o procurou pela [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Ante a notícia de que o filho arrancara e vendera a porta da casa para tomar tequila, Mamita se desesperou.<br />
Na primeira noite trabalhou até o amanhecer. Faxinou a casa, lavou os cães, lustrou as tartarugas, banhou os caranguejos e pôs a urtiga para dormir dentro de casa. Queixou-se do sono perdido e o procurou pela casa, nas gavetas, debaixo do tapete, nos bolsos, no sótão, debaixo das tábuas corridas.<br />
Na noite seguinte, contou os mortos da família pelas estrelas – trinta e três – e achou que o número teve serventia a ser a idade de Cristo e, portanto, não era um bom número. E para desempatar tal pendência carecia de mais um morto na família e, assim, prestou-se ao sacrifício. Sua hora chegara. Deveria partir.<span id="more-125"></span><br />
Subtraiu dos ratos a ração venenosa, adicionou sonífero (dormiria para não ver o rosto da morte) e tomou tudo junto a um gole de vinho que ainda restara na caneca de louça branca.<br />
Assentou-se no primeiro patamar da escada da sala, chorou e esperou a morte chegar.<br />
Nesse intervalo, lembrou-se que era primordial deixar uma carta. Por esse motivo, tomou bicarbonato de sódio a fim de retardar o efeito do veneno, e escreveu algumas linhas para o filho, terminando com um “eu te amo” escrito em letras góticas bordadas com flores amarelas e vermelhas.<br />
Sentindo-se só, com um olhar estático na aurora do próximo dia, como moradora do sublime, disse para o filho, que chegara correndo:<br />
— A tristeza do seu vício mora nos meus olhos, traz apenas imagens tristes para o que vejo. Meu filho, você não é apenas um sonho, é a minha existência. Reze para que Deus não lhe traga uma velhice que vai corroer suas carnes, roer seus ossos&#8230; reze para o amor não o enganar&#8230;<br />
O filho, gordo e feio de tudo, tal como sempre fora, abraçou a mãe, chorou muito e encostou o rosto inchado de cerveja no ombro dela.<br />
Daí a poucos minutos, sons de ambulância. Homens de branco abraçaram Mamita, amarraram-na e colocaram em sua boca um tubo que era conectado a uma máquina transparente, até chegar ao hospital, onde foram necessários seis homens – fora os dois médicos – para segurá-la e colocá-la numa cama com vários aparelhos que iriam desintoxicá-la.<br />
A noite passara e não se fez outra coisa senão esperar e, ali, com as nádegas na cama, lembrou que a mãe era a única capaz de diferenciar o seu sorriso triste de uma lágrima falsa e era capaz de adivinhar o que ele ainda não havia pensado. Era a mãe&#8230;<br />
Somente ela sabia que as ovelhas mudam, os lobos também, mas o pasto é o mesmo&#8230;<br />
O filho havia perdido o elo com a realidade da vida e não desejaria ter olhos que pudessem chorar pela morte da mãe, a que ele se prestara a ser o causador.<br />
Passara a noite acordado. Pela manhã deveria acordar o galo para acordar a aurora que deveria transformar o negrume da noite nas cores do sol, extinguir o brilho da lua e das estrelas, recriar a magia de um novo tempo, arrastar o corpo para a beira-mar e mandar vir a poesia do espetáculo de mais um dia nascendo&#8230;<br />
Quando o médico chegou, o filho se levantou e se prontificou a ouvi-lo. E o médico disse:<br />
— Sua mãe precisa se divertir. Adquiriu um sentimento de culpa associado a uma tristeza involuntária, que às vezes pode levar à morte. Aconselho-o a levá-la para dançar e se divertir.<br />
Uma semana depois o filho e Mamita saem para se divertir, entram numa casa de dança, se assentam e chamam o garçom. Mamita se lembra de que não sabe bailar e diz:<br />
— Dois copos de tequila.</p>
<p align="justify"> ***<img src="http://www.clubeletras.net/wp-content/capon.jpg" align="right" height="160" width="111" /></p>
<p align="justify"><strong><img src="http://www.clubeletras.net/wp-content/pimenta.jpg" align="left" height="129" width="117" />Roberto Márcio Pimenta</strong>, de Serra - ES,  tem na literatura de contos, sua dedicação maior no afazer literário, escrevendo suas obras com a minúcia de um cirurgião. Premiado várias vezes, tem já um invejável acervo de obras que pretende ver em livro solo.</p>
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		<title>Carta a uma rosa</title>
		<link>http://www.clubeletras.net/carta-a-uma-rosa.html</link>
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		<pubDate>Thu, 09 Aug 2007 00:33:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Clube</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Antologias]]></category>

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		<description><![CDATA[Tal qual uma flor drummondeana: foi assim que você veio ao mundo.
Suas pétalas estavam guardadas num botão tímido, mas seu perfume já exalava desde que a semente fecundara o solo em que caiu. Caiu, não – porque você não foi parar lá por acaso ou acidente. Melhor seria dizer que pousou. Pouso certeiro, exatamente no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Tal qual uma flor drummondeana: foi assim que você veio ao mundo.<br />
Suas pétalas estavam guardadas num botão tímido, mas seu perfume já exalava desde que a semente fecundara o solo em que caiu. Caiu, não – porque você não foi parar lá por acaso ou acidente. Melhor seria dizer que pousou. Pouso certeiro, exatamente no vãozinho de terra que havia no sólido e ameaçador pavimento.<br />
Ali cresceu, desafiando as leis da probabilidade. Abria as folhas uma a uma, como se abrisse os dedos de uma mão com tendência a permanecer fechada. Mexia-se incessantemente, a mostrar com insistência que havia vida dentro de si.<br />
Um dia, viu a luz e deu-se a ela de presente. Sua cor não se percebia. Seu nome não estava nos livros. Mas era, realmente, uma flor! Os anjos avisaram-me: eis uma rosa nascida no asfalto! Então descobri quão forte você era: furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. Mandei passar de longe os bondes, ônibus, rio de aço do tráfego e anunciei ao mundo que uma rosa nascera.<br />
Pouco viveria uma flor em ambiente tão hostil. Para protegê-la, envolveram-na em uma estufa. E naquele apertado vão de terra encravado no concreto, você lutou por continuar existindo. No solo rígido que não deixava espaço para que se firmassem suas raízes, no tempo mais inóspito, você teimou! Seguiu até o enjôo! A vida jorrava num potente chafariz preso num corpo tão frágil de giz. E o giz se partiu&#8230;<br />
Mimosa rosa do asfalto, queria eu tê-la transplantado para um bonito jardim, e ter-lhe mostrado as coisas belas: o sol, o mar, as estrelas, os cachorros, a música, a poesia e as bolhas de sabão! Mas na estufa em que permaneceu, conheceu apenas seus próprios espinhos&#8230;<br />
Jamais pude passar a mão em sua forma insegura: você murchou antes que eu pudesse tocá-la&#8230; Só então pôde ser transplantada ao pequeno vaso de madeira onde a vi resplandecer: uma rosa entre crisântemos! E voltou para dentro da terra de onde surgiu. Mas agora a terra é ampla, sem asfalto! Finalmente, você pode descansar em paz.<br />
Vá com Deus, pequena rosa! Quando brotarem suas sementes, regadas pelas lágrimas, decerto surgirá um roseiral!</p>
<p>***<img src="http://www.clubeletras.net/wp-content/capon.jpg" align="right" height="160" width="111" /></p>
<p align="justify"><strong><img src="http://www.clubeletras.net/wp-content/gabi.jpg" align="left" height="133" width="129" />Gabriela Andrade da Silva</strong>, de Campinas - SP,  desde cedo escreve em prosa e verso. Estudou literatura e já classificou suas obras em vários eventos. Lê Machado de Assis, Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Mário Quintana, Augusto dos Anjos, Olavo Bilac e  João Cabral de Melo Neto. Crê na literatura como meio de aprimoramento cultural de pessoas e nações.</p>
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		<title>Voltei no tempo</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Aug 2007 00:28:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Clube</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[    Voltei no tempo, meus cinco, meus sete, meus onze, meus quinze, meus dezessete, meus vinte, meus vinte e sete anos&#8230; Tempo que já fez girar muitas vezes os ponteiros das horas, dos dias, dos meses, dos anos, naquele relógio chamado Experiência de Vida. Tempo que seguiu a linha da vida como [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">    Voltei no tempo, meus cinco, meus sete, meus onze, meus quinze, meus dezessete, meus vinte, meus vinte e sete anos&#8230; Tempo que já fez girar muitas vezes os ponteiros das horas, dos dias, dos meses, dos anos, naquele relógio chamado Experiência de Vida. Tempo que seguiu a linha da vida como o rio que segue rumo ao mar, calmo aqui, agitado ali, despencando das alturas e fazendo muito barulho acolá, contornando algum obstáculo que lhe tentasse obstruir o caminho mais além, ou até mesmo passando por cima dele quando necessário.<br />
Voltei no tempo. Meus tempos de antes, tempos de aprender, de seguir em frente sem olhar para trás, tempo de apreciar e viver intensamente o momento, pois que só havia mesmo o presente. Para que remoer o passado? Para que pensar em futuro? Importante era o aqui e agora. Amanhã? Amanhã se pensava nele&#8230;<span id="more-123"></span><br />
Voltei no tempo. O interior de Minas, Sul, a Mantiqueira, roça, sem luz elétrica, matas, animais selvagens, luz de lamparina de querosene&#8230; Lamparina de querosene que quebrava o negrume da noite em meu quarto com sua luz, permitindo que eu ficasse lendo noite adentro livros que me transportavam para todo o mundo, para o mundo da magia. Livros que me ensinavam os segredos do mundo, das ciências, da matemática, da física, da filosofia, das línguas. Lamparina de querosene que quebrava o negrume do quarto, sim, mas o transportava inteiro para minhas narinas&#8230;<br />
Voltei no tempo das longas caminhadas por trilhas, só, pé procurando pelo outro pé sem nunca se acharem, sem nunca se encontrarem, carimbando o solo empoeirado com a marca de pés descalços, ou poucas vezes calçados, que o vento se encarregava de ir atrás apagando para levantar uma nuvem de poeira. Se não era pisando poeira, então era amassando o barro formado pela chuva caída de antemão que transformava toda a poeira em barro como num passe de mágica. Atravessando poças d&#8217;água, os riachos, talvez por uma pinguela com um bambu na horizontal servindo de corrimão, mas indo sempre em frente por longas distâncias, indo de lugar nenhum a nenhum lugar, pois que havia apenas alguns poucos aglomerados insignificantes de casas aqui e acolá. Chegando ao destino cansado, sim; chegando ao destino sujo de poeira, ou sujo de barro, sim; mas sempre chegando feliz, de alma lavada, pronto para repetir tudo no dia seguinte, ou mesmo no mesmo dia, na mesma noite se necessário fosse, sem pestanejar.<br />
Voltei no tempo. A noite de lua cheia, clara que até dava para ler alguma coisa, ou então a noite de lua nova com o céu tão cheio de estrelas que não havia nele espaço para apontar sequer a ponta do dedo sem tocá-las. Mas havia a noite escura como breu, céu nublado, muitas vezes chovendo muito, a cântaros que por lá chovia assim, sem que pudesse enxergar nem um dedo colocado bem na ponta do nariz.<br />
Voltei no tempo, não para reclamar da vida, não para fugir do presente para viver do passado. Voltei no tempo para vivenciar a magia que estes momentos me proporcionaram, para recordar o aprendizado que eles me deixaram, para continuar trilhando o mesmo caminho. Momentos de saber que estava no rumo certo, ou de entender o momento em que devia mudar uma trajetória qualquer. Voltei no tempo para incorporar mais energia no presente, pois o que temos de concreto na vida é apenas o eterno presente. Ontem foi hoje, amanhã será hoje, e o que eu tenho de fato é o hoje.<br />
Voltei no tempo, meus cinco, meus sete, meus onze, meus quinze, meus dezessete, meus vinte, meus vinte e sete anos&#8230; Tempo que já fez girar muitas vezes os ponteiros das horas, dos dias, dos meses, dos anos, naquele relógio chamado Experiência de Vida. Voltei no tempo, os ponteiros giraram, mas o eixo que os fez girar, o ponto de apoio que os manteve no plano estão situados no centro deste plano, no local chamado HOJE. E este ponto independe de qualquer distância, está sempre ali, sempre presente, estático, pois que é um simples marco, o marco zero do meu universo. Neste ponto eu tenho o eterno presente. Deste ponto eu tenho uma visão panorâmica e atemporal do passado, e do futuro. Para este ponto apontam os vetores de todos os momentos dos intermináveis ciclos e dos infinitos recomeços da vida. Deste ponto eu posso apontar o obturador de minha câmara mental para congelar um momento de interesse para estudá-lo, aprofundar-me nele, entendê-lo mais a fundo, reprogramá-lo&#8230;<br />
Fiz uma parada em minha viagem no tempo, num ângulo qualquer de um quadrante qualquer da elipse formada pelos contornos do relógio do tempo (pois que esta é a forma dos contornos do nosso universo, na visão dos astrônomos atuais) para observar. Parei especificamente em frente a um colégio de primeiro grau da cidade, invisível a quantos por ali se movimentavam para descarregar de seus carros luxuosos, quase sempre parados em fila dupla sem se incomodarem por estarem atrapalhando o trânsito do local, seus filhos ainda pequenos, encaminhados para ali para iniciarem sua formação intelectual, seres estes que carregam em seu sangue o DNA de seus pais, artifício usado pela natureza no intuito de lhes perpetuar a estirpe. O que noto são muitas crianças vestindo-se como adultos, assumindo uma postura de adulto em miniatura, verdadeiras marionetes na mão dos pais&#8230; E vejo ainda adultos, pais e/ou mães, que insistem, hoje, em se vestirem e em se comportarem como crianças. Como terão sido suas infâncias? Será que elas, quando crianças, foram formatadas como estes seus filhos que hoje são conduzidos por elas? Deixo esta questão para que Freud explique. Desta observação deduzi que não se pode atropelar o tempo de um aprendizado, sob pena de perder o momento mágico de seu entendimento.<br />
Não quis avançar no futuro nesta minha viagem porque sei que o futuro é o espelho do presente. Já o conheço. Tudo na roda da vida, presente, passado e futuro, está aqui e agora. Somente pequenos detalhes é que poderiam ser desconhecidos ainda. Mas para que tirar a emoção de senti-los plenamente no momento certo? Preferi deixar que o futuro me conte em seu momento.</p>
<p>***</p>
<p align="justify"><img src="http://www.clubeletras.net/wp-content/capon.jpg" align="right" height="160" width="111" /><br />
<strong><img src="http://www.clubeletras.net/wp-content/rodolfo.jpg" align="left" height="137" width="118" />Rodolfo Lopes</strong>, de Lorena,  diz: “Quando lemos, viajamos como convidados do autor, partilhando de suas emoções. Ao escrever, convidamos o leitor a viajar conosco, somos cicerones, tutores de seus sentimentos, condutores de suas emoções. E o cativamos com talento e carinho no ato de escrever. É gratificante conseguir isto!”. O autor mantém um site na internet, o www.rodolfolopes.net</p>
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		<title>Por conta e risco</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Aug 2007 00:22:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Clube</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Antologias]]></category>

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		<description><![CDATA[    O pensamento pediu licença às tarefas sérias que eu lhe havia exigido e, por sua conta e risco, tirou folga. Rodopiou comigo, abriu um buraco e me lançou no túnel do tempo. Súbito, ainda atordoada pela inesperada viagem, eu me vejo criança, debruçada sobre a mesa da copa da casa da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">    O pensamento pediu licença às tarefas sérias que eu lhe havia exigido e, por sua conta e risco, tirou folga. Rodopiou comigo, abriu um buraco e me lançou no túnel do tempo. Súbito, ainda atordoada pela inesperada viagem, eu me vejo criança, debruçada sobre a mesa da copa da casa da minha infância.<br />
Observo minha mãe. Em pé, ela bate manualmente o merengue para confeitar o Bolo Alice. No avental, amarrado à cintura, noto as três margaridas com os miolos amarelos, os caules entrelaçados saindo do bolso central. Meus irmãos circulam por ali; cada um que passa pede para ficar com a raspa do merengue na tigela de inox. Distraída, mamãe concede a regalia a todos. Tranqüilizados pela promessa obtida, eles vão tratar dos seus assuntos, certos de terem obtido a prioridade. Aprontado o merengue e confeitado o bolo, como se um reloginho interno as avisasse de que era chegada a hora, aparecem as crianças, exigindo o quinhão prometido. Começa a balbúrdia, reclamações e lamentações em alto e bom som. Desconsertada, mamãe entrega o batedor de arame para o primeiro lamber; para outro, uma rápida passada da colher no fundo da tigela e a própria para o terceiro. Mas ainda sobram quatro descontentes a reclamar, brigando entre si e com ela, que se considera injustiçada. Com promessas de regalias futuras e outras cartas tiradas da manga, ela resolve o impasse, com a desenvoltura de quem houvesse freqüentado algum curso de gestão política.<br />
Observando a cena, agora na cômoda condição de espectadora, livre do receio de perder eu também a sobra do merengue, acho graça na brincadeira e dou asas à imaginação, tentando resgatar outras lembranças. O esforço intenso faz com que rodopie novamente, reentrando na espiral.<span id="more-122"></span><br />
É o momento de combinar os preparativos para o aniversário de papai. Para surpresa geral, o aniversariante, desejando evitar maiores gastos, argumenta não querer comemoração. Pressionado, acuado, completa a justificativa: “Não gosto de festa, mesmo. Aniversário, isso só tinha graça nos tempos do Uruguai”! Para que foi dizer isso? Ele não imaginava a crise que iria desencadear. Agora mamãe, desfeita em lágrimas, retruca, revoltada:<br />
— E ainda tens coragem, após tantos anos em que te festejei o aniversário, com tanto trabalho, de dizer uma barbaridade dessas? E logo nos tempos do Uruguai! Decerto na casa daquela namorada que nem banho tomava, completa, cruel, ela que sempre fora tão generosa. Pois, num momento de confidências, ele teve a infeliz idéia de lhe contar que, na casa da ex-namorada, numa antiga fazenda, no interior uruguaio, em certo dia, ao entrar no quarto de banho, observara uma galinha chocando os seus ovos dentro da banheira. Como era a única forma de tomar banho, naquela casa, e a galinha leva vinte e um dias para chocar, ele chegara à óbvia conclusão. E o fato se tornara uma piada na família.<br />
Agora, atrapalhado, ele tenta se explicar, com justificativas canhestras, no fundo lisonjeado com a manifestação de ciúmes. Deliciados com o inusitado da situação, nós acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos, contribuindo com observações nada conciliadoras, na maldade inconseqüente com que mesmo os filhos amorosos tratam os velhos pais.<br />
A cena seguinte comprova que, mais uma vez, papai foi vencido pelas lágrimas femininas. Com a ajuda do sobrinho, ele prepara o fogo de chão para o churrasco, no primeiro aniversário que passará na cidade. Antes, outros tantos foram festejados na estância Santa Cecília. Conformado, ele ri da agitação das mulheres da família, trazendo travessas com saladas diversas, comentando as sobremesas requintadas, feitas pelas noras, enquanto os netos correm de um lado para o outro, enredando-se nas saias das mães. No carrinho, o caçula adormeceu, abraçado com o boneco Falcon.<br />
Depois, sob a parreira carregada de uvas maduras, a família se reúne, filhos e netos distribuídos à volta da comprida mesa de madeira. A conversa corre solta, com a presença implícita da namorada, aquela dos tempos do Uruguai, nos comentários irônicos de mamãe e no sorriso orgulhoso de papai.<br />
Reconfortado, o pensamento resolve me dar uma trégua. Lentamente, ele me faz rodopiar uma vez mais. Através da janela, além da grama recém cortada, da árvore frondosa, do banco de madeira, vislumbro crianças brincando de pega-ladrão em pátios de velhas casas, jovens galopando por campos verdes, em alegres perseguições. Ouço ainda um resto de conversa e risos, sinto o leve perfume de um outro jardim. Na boca, o gosto das uvas pretas.</p>
<p>***<img src="http://www.clubeletras.net/wp-content/capon.jpg" align="right" height="160" width="111" /></p>
<p align="justify"><strong><img src="http://www.clubeletras.net/wp-content/marta.jpg" align="left" />Marta Fernandes de Sousa Costa</strong>, Pelotas - RS,  é escritora e editou os livros solo “Tempo de soltar as amarras” (2003) e “Cá entre nós” (2005). Colabora com cerca de cinquenta jornais em vários Estados e ainda, sites e revistas. Lê Érico Veríssimo, Gabriel García Márquez, Isabel Allende, Moacyr Scliar e outros. A autora mantém na internet o sítio www.martasousacosta.com</p>
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		<title>Cafajeste!</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Aug 2007 00:15:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Clube</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[&#160;
&#8220;Mulher abre a guarda muito facilmente”
(Rubens Paçoca, tatuador de praia e vendedor de amendoins)
 Fomos separados no berço, eu e minhas gêmeas virtudes. Vai daí que praticamente nasci o cafajeste que hoje sou. E é premissa do cafajeste nem sofrer por sê-lo, nem se sentir culpado por impor aos outros características suas.
Fazer sofrer uma mulher? [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="center"><strong>&#8220;Mulher abre a guarda muito facilmente”</strong><br />
<em>(Rubens Paçoca, tatuador de praia e vendedor de amendoins)</em></p>
<p align="justify"> Fomos separados no berço, eu e minhas gêmeas virtudes. Vai daí que praticamente nasci o cafajeste que hoje sou. E é premissa do cafajeste nem sofrer por sê-lo, nem se sentir culpado por impor aos outros características suas.<br />
Fazer sofrer uma mulher? Ah! Isso é tão pouco perto do que posso fazer&#8230; Não me culpo, não! Nem estranho minha vil natureza, pois me sinto tão à vontade nela&#8230; O que seria da insensatez e da insensibilidade se eu – muito primorosamente – não levasse seus estandartes?<br />
Acho que exalo essa masculinidade sutil, disfarçada em atitudes reprováveis. Será? Bem, que seja&#8230; Mas a quem possa pensar que não sinto quase nada ou que não dou valor a uma ardente lágrima que provoco involuntariamente, informo: como se enganam! Também eu posso sentir a força de um desejo arrasador na sua mais pura forma: a de um olhar nos olhos da vítima que vou abater. E é aí que tudo começa&#8230;<br />
Quando faço um contato visual trato de fazer com que pareça casual, mas eu já dei uma geral no ambiente, verifiquei as possibilidades e, como diz um colega meu, considerei as “avaliáveis” (colega este que não posso afirmar que pertence à categoria, mas não afasto a possibilidade&#8230;). Eleita a minha presa, ataco sem dó nem piedade, e que tudo seja por prazer&#8230;<span id="more-121"></span><br />
O principal é usar o próprio arsenal feminino contra ela. Sim, porque mulher acha que é esperta e se eu a faço crer que também acredito nisso, estarei muito próximo de meu objetivo. Objetivo que terei conseguido em vinte, trinta minutos, no máximo. Acha pouco? Pois é o suficiente! Ao término desta fração de hora já saberei se minha investida vai virar o que espero ou não. Bem, pra falar a verdade, quando não vai virar nada dá pra saber bem antes disso&#8230;<br />
E o que espero que vire? Pode ser sexo ou romance, sei lá. Exceto amor, porque amor é uma outra coisa, é eterno e traz o sexo no pacote. Já o romance é vivido por duas pessoas, compartilhado. É um envolvimento que passa felicidade a ambos, mas por pequenos períodos. O sexo, no romance, é importante, porém pode existir romance sem sexo nem amor. Agora convenhamos: Só o sexo é melhor! Sim, porque o sexo não traz culpa, o romance sim. Não culpa propriamente dita, um mal-estar passageiro, mesmo assim desagradável.<br />
Voltando à questão do tempo necessário para se fisgar uma presa: na primeira metade dele, se não estiver surtindo efeito a investida apesar de toda a técnica duramente aprendida nos bares e noites da vida, o negócio é passar de agressor à vítima, aí é batata! A mulher abre a guarda muito facilmente. A gente sempre sabe no que vai dar, porque o bom cafajeste é como a cascavel, só dá o bote onde a boca alcança.<br />
Há algumas coisas que devem ser seguidas à risca, para o bom desempenho da função de cafajeste, por exemplo: seduzir sem ser seduzido; sair pela tangente sempre; não se envolver completamente; simular situações que não existem, tudo em nome da conquista efêmera e indolor. Fácil demais&#8230;<br />
Mas nem tudo são defeitos naqueles que são da minha natureza, temos também algumas virtudes e a maior delas é a Paciência. Somos pacientes ao extremo. Pode não ser hoje, nem amanhã, mas vai ser um dia&#8230; Se naqueles vinte, trinta minutos rolou o clima, depois disso a gente espera o tempo que for necessário, faz qualquer joguinho que ela queira, promete o mundo e não entrega sequer o coração.<br />
E tem mais: mulher adora um cafajeste! Não acredita? Pois volto a afirmar: mulher a-do-ra cafajeste! E aquele, dos bons mesmo, já nasce feito. Como eu, separado das minhas gêmeas virtudes ainda no berço&#8230;</p>
<p align="justify">&nbsp;</p>
<p align="justify">***<img src="http://www.clubeletras.net/wp-content/capon.jpg" align="right" height="160" width="111" /></p>
<p align="justify"><strong><img src="http://www.clubeletras.net/wp-content/rose.jpg" align="left" />Rosemary de Oliveira</strong>, de Caraguatatuba - SP,  escreve desde sua adolescência. Venceu um evento literário e como Amiga de Letras busca somar-se a outros e partilhar suas obras. Aprecia viajar para o interior de um personagem bem construído, ao redor de uma paisagem bem descrita ou numa trama bem enredada. Gosta de Jorge Amado, Machado de Assis, Amyr Klink, Luís Fernando Veríssimo e Mário Prata.</p>
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