Com licença, mestres
Postado por Clube Em 08 Aug 2007 at 08:09 pm | Em: Antologias
Ando com pensamentos estranhos a me tirar o sono. Fico a pensar como ficará nosso Canto depois da nossa partida. A propósito, nosso Canto é nosso pedacinho de terra, para onde vamos, religiosamente, todos finais de semana. E tem mais, nosso Canto é nosso filho, e é bom esclarecer: só temos este. E lá se vão vinte anos de dedicação e zelo, feito pais dedicados e amorosos, a defender a cria como convém. Agora, o protegemos, o temos em apreço e a ele nada falta. Está sempre perfeito.
Nosso Canto tem flores e também palmeiras onde canta o sabiá. Nosso Canto é nosso exílio! Por isso me ponho hoje a cismar como ficará isso depois, depois da nossa passagem para o lado de lá.
Como ficarão as flores? Elas necessitam de olhares constantes, regas diárias, podas em épocas certas. Precisam ser replantadas nas estações corretas, pois isso garante a florada esplendorosa e bela. O solo precisa ser fertilizado periodicamente e as ervas daninhas arrancadas. São trabalhos repetitivos, ano após ano, dia após dia, onde não se pode faltar, negar, falhar, sem herdar, por conta disso, o cenário da devastação e do abandono.
A grama dá trabalho, carece de ser aparada semana sim, semana não, nos meses de novembro a abril. E depois, em agosto, pede terra preta, derramada por cima, em camada bem fina, para crescer bonita na estação das flores.
A mata exige trabalho também. Árvores apodrecem, árvores secam. São as doenças, as pragas, e se não forem combatidas, atacarão árvores sadias, sejam de porte alto, baixo, não importa, cairão pelo chão. E os cipós? Estes estão sempre rondando e se deixarmos, eles enlaçarão as árvores e isso impedirá o crescimento normal e pode até levá-las à morte. Por isso precisam ser arrancados, mas atenção: tem jeito para ser feito, não pode ser a torto e a direito. E é assim, manejo constante. Sem trela. Sem descanso.
Sem os pais, como será? Não sei ainda, por isso sigo com a minha cisma, mas isso posso afirmar: a várzea do nosso Canto tem mais flores e lá nossas vidas têm mais amores.
Como ficará o rio com o leito cheio de coisas por tirar: galhos, troncos e tantos objetos, como plásticos e vidros carregados e depositados no remanso dos meandros? Se para limpá-lo é necessário adentrar-se, molhar-se até o peito, pisar o chão às cegas, sem medo e sem receio e ter forças para arrancar os trastes a cobrir o leito? Como ficará nosso rio vagaroso, de margens verdejantes e cheias de beijos floridos e jasmins cheirosos?
Não é diferente com o lago. Não mesmo! Plantas invasoras crescem e se proliferam rapidamente. Se não forem erradicadas, ganharão força, e isso não é bom, nem para os peixes, pois terão menos área para nadar, e nem para as aves, pois o local não fica bom para nidificar.
E há os peixes do lago e também as aves e os ratões do banhado. Todos precisam ser alimentados. E não fica de fora a horta e o pomar e a casa e as estradas e os caminhos pela mata.
Há também as pontes, feitas de madeira. Volta e meia precisam ser pintadas para se conservarem inteiras. O mesmo com a casa do mel e onde ficam as abelhas. Há de se fazer a limpeza, caso contrário, com o passar do tempo, nada sobrará.
É por conta de todo o relato acima a minha cisma. E posso dizer mais ainda, pois lá também o mata e as flores têm mais vida. E minha vida, mais encanto e mais cores.
Às voltas com esses pensamentos estranhos venho passando vários dias. Minha alma não tem sossego. Não sei como ficará nosso Canto, órfão de pai e mãe, sozinho e sem amparo, solitário e abandonado. E mesmo pondo os pensamentos desse jeito, com rimas entremeadas a ermo, a dar a este texto ar de gracejo, ainda assim não tenho sossego e volto a me indagar: e então, como será?
(Como será ainda não sei. Sei apenas isso: fiz como você mestre Ziraldo, ao redigir “Reminiscência” sem a letra “o”. E como sem essa letra não poderia escrever, pois a carrega no nome e reverenciá-lo precisava, escrevi sem o “u”, a vogal derradeira. Se não o fiz lindamente como você é por ter nascido Ângela e ser, ainda, aprendiz nessa seara das letras. E a você mestre Gonçalves Dias, direi mais: nosso Canto faz parte da terra verde e amarela. A nossa terra! E também peço para não morrer longe dela).
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“Para Antonio”
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Ângela Maria Godoy Theodorovicz, de São Paulo - SP, permeia seus escritos entre poemas e textos em prosa. Editou, em pequena tiragem, livro sobre o sítio Canto das Águas, onde entre fotos e poesias, cantou seus jardins, lago, rio e matas. Para ler, gosta de poemas, romances e biografias. Dentre seus preferidos estão Gonçalves Dias, Fernando Pessoa, Adélia Prado, Manuel Bandeira, Lílian Hellman, Carlos Heitor Cony e Érico Veríssimo.
