Antologias
Arquivo onde você agora está.
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Postado por Clube on 08 Aug 2007 | Em: Antologias
Tal qual uma flor drummondeana: foi assim que você veio ao mundo.
Suas pétalas estavam guardadas num botão tímido, mas seu perfume já exalava desde que a semente fecundara o solo em que caiu. Caiu, não – porque você não foi parar lá por acaso ou acidente. Melhor seria dizer que pousou. Pouso certeiro, exatamente no vãozinho de terra que havia no sólido e ameaçador pavimento.
Ali cresceu, desafiando as leis da probabilidade. Abria as folhas uma a uma, como se abrisse os dedos de uma mão com tendência a permanecer fechada. Mexia-se incessantemente, a mostrar com insistência que havia vida dentro de si.
Um dia, viu a luz e deu-se a ela de presente. Sua cor não se percebia. Seu nome não estava nos livros. Mas era, realmente, uma flor! Os anjos avisaram-me: eis uma rosa nascida no asfalto! Então descobri quão forte você era: furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. Mandei passar de longe os bondes, ônibus, rio de aço do tráfego e anunciei ao mundo que uma rosa nascera.
Pouco viveria uma flor em ambiente tão hostil. Para protegê-la, envolveram-na em uma estufa. E naquele apertado vão de terra encravado no concreto, você lutou por continuar existindo. No solo rígido que não deixava espaço para que se firmassem suas raízes, no tempo mais inóspito, você teimou! Seguiu até o enjôo! A vida jorrava num potente chafariz preso num corpo tão frágil de giz. E o giz se partiu…
Mimosa rosa do asfalto, queria eu tê-la transplantado para um bonito jardim, e ter-lhe mostrado as coisas belas: o sol, o mar, as estrelas, os cachorros, a música, a poesia e as bolhas de sabão! Mas na estufa em que permaneceu, conheceu apenas seus próprios espinhos…
Jamais pude passar a mão em sua forma insegura: você murchou antes que eu pudesse tocá-la… Só então pôde ser transplantada ao pequeno vaso de madeira onde a vi resplandecer: uma rosa entre crisântemos! E voltou para dentro da terra de onde surgiu. Mas agora a terra é ampla, sem asfalto! Finalmente, você pode descansar em paz.
Vá com Deus, pequena rosa! Quando brotarem suas sementes, regadas pelas lágrimas, decerto surgirá um roseiral!
***
Gabriela Andrade da Silva, de Campinas - SP, desde cedo escreve em prosa e verso. Estudou literatura e já classificou suas obras em vários eventos. Lê Machado de Assis, Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Mário Quintana, Augusto dos Anjos, Olavo Bilac e João Cabral de Melo Neto. Crê na literatura como meio de aprimoramento cultural de pessoas e nações.
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Postado por Clube on 08 Aug 2007 | Em: Antologias
Voltei no tempo, meus cinco, meus sete, meus onze, meus quinze, meus dezessete, meus vinte, meus vinte e sete anos… Tempo que já fez girar muitas vezes os ponteiros das horas, dos dias, dos meses, dos anos, naquele relógio chamado Experiência de Vida. Tempo que seguiu a linha da vida como o rio que segue rumo ao mar, calmo aqui, agitado ali, despencando das alturas e fazendo muito barulho acolá, contornando algum obstáculo que lhe tentasse obstruir o caminho mais além, ou até mesmo passando por cima dele quando necessário.
Voltei no tempo. Meus tempos de antes, tempos de aprender, de seguir em frente sem olhar para trás, tempo de apreciar e viver intensamente o momento, pois que só havia mesmo o presente. Para que remoer o passado? Para que pensar em futuro? Importante era o aqui e agora. Amanhã? Amanhã se pensava nele… Continue lendo»
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Postado por Clube on 08 Aug 2007 | Em: Antologias
O pensamento pediu licença às tarefas sérias que eu lhe havia exigido e, por sua conta e risco, tirou folga. Rodopiou comigo, abriu um buraco e me lançou no túnel do tempo. Súbito, ainda atordoada pela inesperada viagem, eu me vejo criança, debruçada sobre a mesa da copa da casa da minha infância.
Observo minha mãe. Em pé, ela bate manualmente o merengue para confeitar o Bolo Alice. No avental, amarrado à cintura, noto as três margaridas com os miolos amarelos, os caules entrelaçados saindo do bolso central. Meus irmãos circulam por ali; cada um que passa pede para ficar com a raspa do merengue na tigela de inox. Distraída, mamãe concede a regalia a todos. Tranqüilizados pela promessa obtida, eles vão tratar dos seus assuntos, certos de terem obtido a prioridade. Aprontado o merengue e confeitado o bolo, como se um reloginho interno as avisasse de que era chegada a hora, aparecem as crianças, exigindo o quinhão prometido. Começa a balbúrdia, reclamações e lamentações em alto e bom som. Desconsertada, mamãe entrega o batedor de arame para o primeiro lamber; para outro, uma rápida passada da colher no fundo da tigela e a própria para o terceiro. Mas ainda sobram quatro descontentes a reclamar, brigando entre si e com ela, que se considera injustiçada. Com promessas de regalias futuras e outras cartas tiradas da manga, ela resolve o impasse, com a desenvoltura de quem houvesse freqüentado algum curso de gestão política.
Observando a cena, agora na cômoda condição de espectadora, livre do receio de perder eu também a sobra do merengue, acho graça na brincadeira e dou asas à imaginação, tentando resgatar outras lembranças. O esforço intenso faz com que rodopie novamente, reentrando na espiral. Continue lendo»
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