“Mulher abre a guarda muito facilmente”
(Rubens Paçoca, tatuador de praia e vendedor de amendoins)

Fomos separados no berço, eu e minhas gêmeas virtudes. Vai daí que praticamente nasci o cafajeste que hoje sou. E é premissa do cafajeste nem sofrer por sê-lo, nem se sentir culpado por impor aos outros características suas.
Fazer sofrer uma mulher? Ah! Isso é tão pouco perto do que posso fazer… Não me culpo, não! Nem estranho minha vil natureza, pois me sinto tão à vontade nela… O que seria da insensatez e da insensibilidade se eu – muito primorosamente – não levasse seus estandartes?
Acho que exalo essa masculinidade sutil, disfarçada em atitudes reprováveis. Será? Bem, que seja… Mas a quem possa pensar que não sinto quase nada ou que não dou valor a uma ardente lágrima que provoco involuntariamente, informo: como se enganam! Também eu posso sentir a força de um desejo arrasador na sua mais pura forma: a de um olhar nos olhos da vítima que vou abater. E é aí que tudo começa…
Quando faço um contato visual trato de fazer com que pareça casual, mas eu já dei uma geral no ambiente, verifiquei as possibilidades e, como diz um colega meu, considerei as “avaliáveis” (colega este que não posso afirmar que pertence à categoria, mas não afasto a possibilidade…). Eleita a minha presa, ataco sem dó nem piedade, e que tudo seja por prazer…
O principal é usar o próprio arsenal feminino contra ela. Sim, porque mulher acha que é esperta e se eu a faço crer que também acredito nisso, estarei muito próximo de meu objetivo. Objetivo que terei conseguido em vinte, trinta minutos, no máximo. Acha pouco? Pois é o suficiente! Ao término desta fração de hora já saberei se minha investida vai virar o que espero ou não. Bem, pra falar a verdade, quando não vai virar nada dá pra saber bem antes disso…
E o que espero que vire? Pode ser sexo ou romance, sei lá. Exceto amor, porque amor é uma outra coisa, é eterno e traz o sexo no pacote. Já o romance é vivido por duas pessoas, compartilhado. É um envolvimento que passa felicidade a ambos, mas por pequenos períodos. O sexo, no romance, é importante, porém pode existir romance sem sexo nem amor. Agora convenhamos: Só o sexo é melhor! Sim, porque o sexo não traz culpa, o romance sim. Não culpa propriamente dita, um mal-estar passageiro, mesmo assim desagradável.
Voltando à questão do tempo necessário para se fisgar uma presa: na primeira metade dele, se não estiver surtindo efeito a investida apesar de toda a técnica duramente aprendida nos bares e noites da vida, o negócio é passar de agressor à vítima, aí é batata! A mulher abre a guarda muito facilmente. A gente sempre sabe no que vai dar, porque o bom cafajeste é como a cascavel, só dá o bote onde a boca alcança.
Há algumas coisas que devem ser seguidas à risca, para o bom desempenho da função de cafajeste, por exemplo: seduzir sem ser seduzido; sair pela tangente sempre; não se envolver completamente; simular situações que não existem, tudo em nome da conquista efêmera e indolor. Fácil demais…
Mas nem tudo são defeitos naqueles que são da minha natureza, temos também algumas virtudes e a maior delas é a Paciência. Somos pacientes ao extremo. Pode não ser hoje, nem amanhã, mas vai ser um dia… Se naqueles vinte, trinta minutos rolou o clima, depois disso a gente espera o tempo que for necessário, faz qualquer joguinho que ela queira, promete o mundo e não entrega sequer o coração.
E tem mais: mulher adora um cafajeste! Não acredita? Pois volto a afirmar: mulher a-do-ra cafajeste! E aquele, dos bons mesmo, já nasce feito. Como eu, separado das minhas gêmeas virtudes ainda no berço…

 

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Rosemary de Oliveira, de Caraguatatuba - SP, escreve desde sua adolescência. Venceu um evento literário e como Amiga de Letras busca somar-se a outros e partilhar suas obras. Aprecia viajar para o interior de um personagem bem construído, ao redor de uma paisagem bem descrita ou numa trama bem enredada. Gosta de Jorge Amado, Machado de Assis, Amyr Klink, Luís Fernando Veríssimo e Mário Prata.