O papel amarelecido pelo tempo jazia na velha caixa de papelão. Já o sabia de cor. Assim mesmo, todo ele, os parágrafos, os pontos e vírgulas, as marcas das dobras e principalmente aquele borrão que nunca conseguiu identificar, mas poderia jurar que era uma lágrima. E esse era seu único consolo. Diante da loucura iminente, buscava naquele pedaço de papel, vislumbrar o líquido cálido deslizando pela face angelical e sucumbir sobre a palavra “sonhos”. E tudo então se abrandava. Sonhos borrados por uma lágrima tinham o poder de curar sua dor.
Fechou a caixa. Inspirou profundamente, prendendo a respiração por alguns segundos, punhos fechados, soltou o ar lentamente, suavizando a pressão das mãos. E a vida segue.
Gostava da boemia e de tudo o que ela significava. Os ditos boêmios de hoje em dia, são uns vagabundos sem rima! Não morrem mais de doenças no pulmão. Morrem de tédio! Mas ele não, se tivesse que morrer (era imortal, tinha certeza) seria batucando uma caixa de fósforos, ouvindo o Velho Luciano, com aquela cara de querubim, entoando um samba do Adoniran.
Não podia ser um boêmio vagabundo, pois além dos amigos do bar da esquina e da poesia, tinha uma casa, mulher, filhos, netos… e todas as coisas que acompanham essa tralha toda. É, Vinícius, mas não tem nada não, tenho meu violão, pensava. E graças a ele, o cavaquinho e o bandolim, a tralha toda aprendeu a gostar da boa música e acompanha esse boêmio no almoço de domingo num coral desafinado e cheio de emoção.
E a vida segue, às vezes sem sentido para quem não consegue enxergar poesia num sonho borrado de lágrimas.

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Ivone de Oliveira, de Caraguatatuba - SP, , nas palavras de sua irmã, a Amiga de Letras Rosemary, “sempre foi a alma da casa e espelho dos amigos”. De personalidade forte e leitora voraz, escreve por intuição, assim como faz quase tudo na vida. Seus escritos nunca antes foram conhecidos e vêm agora à luz graças à vontade demonstrada de fazer parte do Clube Amigos das Letras, trocar experiências e, principalmente, compartilhar o dom da criação literária.