Entenda o sucesso de Paulo Coelho
Postado por Sergio em 16 Set 2007 em 01:34 am | Em: Topetem
Numa postagem anterior eu falei algo sobre identificação e comunicação e que pode servir como base inicial para o presente artigo.
Atentei uma vez para a história da astronomia e notei que ela não conta entre seus nomes, aquele que fez uma revolução em determinado ponto. Antes, são complementares em contínua seqüência histórica.
Mas, descontínua em profundidade.
Entre nomes como Kepler, Newton, Copérnico, Thycho, Einsten, Galileo e Ptolomeu (assim mesmo, em desordem na cronologia histórica), não dá para dizer quem foi o maior, onde um termina e onde outro começa em genialidade.
“Grosso modo”, o que Quentin Tarantino fez em “Pulp Fiction”. Se você não gosta de astronomia, veja o filme.
A identificação do homem ocidental com uma referência para “saber-se”, também evoluiu.
Mesmo que ciente das mudanças dessas referências, eu não tinha um volume de informações bastante para situá-las por grupo. Ajudou muito o que encontrei no livro “Profecias Celestinas”, de James Redfield, por acaso caido em minhas mãos.
O livro é do estilo metafísico/esotérico ambientado numa aventura “indiana jones” e, dele, o que se aproveita são umas poucas linhas que condensam as mutações de identidade cósmica do homem ocidental.
E nem tudo, apenas parte do texto.
Para entender o que seja um referência, veja o que significa a carência táctil de um ser quando atirado numa “moderna” penitenciária. Compute-se como perdas as ausências afetivas e como acréscimo, a face bruta do medo que banaliza valores como a própria vida.
Perde-se uma referência e absorve-se outra, certo? Quanto de nós já não ouvimos horrores dos “animais” que estão em penitenciárias?
O “saber-se” do homem até a Renascença, era a deidade como referência: Deus é tudo, eu sou nada. Os dogmas de uma igreja que se impôs politicamente, eram voltados para a manutenção desse status quo como forma de assegurar poder.
E o conforto de ser o nada mais próximo do tudo.
Reis e imperadores eram absolutistas e designados a governar por vontade divina, conforme se auto-proclamavam.
Se nem esses tinham consciência para “sentir-se”, imagine então, o homem comum e os servos, dos quais um soberano podia dispor até de suas vidas?
O homem dizia de si então: “Deus é tudo. Eu sou nada”.
O Iluminismo (Montesquieu, pai do estado moderno, Voltaire, Rousseau, etc… “bêbados” de Descartes), enterrou o absolutismo monárquico e resgatou pela “razão” o homem que viria fazer a Revolução Industrial.
Nela, consolidou-se notável processo de mudança de referência, de identificação. Com o poder transformador possibilitado pelas máquinas, uma cultura industrial se formava. A mulher, caminhava para a emancipação, livrando-se do “senhor meu marido”.
Estava dado ao homem, o auto-reconhecimento de um ser com “poderes”. O homem passou a “sentir-se”, a galgar um degrau acima no reconhecimento de sua própria essência.
E o homem já dizia então: “Deus é tudo mas não sou tão nada assim”
Essa identificação acompanhou o homem e pouco evoluiu até as ebulições sociais que se iniciaram pós Segunda Guerra Mundial. Uma juventude sedenta de liberdade formou a geração beat e em seu bojo, guerras como da Coréia e depois do Vietnã mantiveram o inconformismo na juventude.
Dali para o movimento hippie e uma libertação do homem das ortodoxias mundanas, foi um passo.
Adicione drogas a esse cadinho social, mais a popularização de filosofias orientais no ocidente, e teremos o homem novamente em mutação. Não sei se John Lennon conheceu Schopenhauer, mas sei que esse filósofo “bebeu” antes da filosofia oriental. Como é de muito antes, não seria o filósofo o fator determinante, pois não é uma figura popular.
Mas John Lennon e os Beatles eram.
Então, de “desajustados”, as pessoas com esse modo de vida diferente passaram a ser conhecidos como “alternativos”.
Quando se fica muito tempo sem acreditar em nada, fica-se predisposto a acreditar em qualquer coisa. E esse “qualquer coisa” foi trazido pelos ventos orientais, no LSD usado por tantos e bafejado para todos que o homem poderia comandar os elementos.
O homem passou a dizer: “Eu posso ser dono de seu destino”.
E nesse contexto histórico que Paulo Coelho escreve seu primeiro livro. Podia ser qualquer um outro, mas a fortuna reservou para ele esse lugar. Estórias de caminhos do homem paralelos ao de seu Criador, o homem como detentor das chaves de sua alma, de seu futuro, de seu destino.
Uma humanidade em crise de identidade (sem acreditar em nada, predisposta a acreditar em qualquer coisa) arremeteu-se sôfrega sobre os poucos exemplares impressos. Obedientes à lei da oferta e procura, os editores não se fizeram de rogados e fartaram as prateleiras de bancas e livrarias.
Sobre o fenômeno, ele encontra paralelo em Joaquim Manoel de Macedo, que depois da aceitação de “A moreninha”, escreveu outros tantos romances água-com-açúcar com enredos simples e românticos, bem ao gosto da época.
Claro que observadas as devidas proporções, mas Paulo Coelho não faz mais que também repetir (e a exaustão) o mesmo fundamento psicológico em seus livros: alguém que procura, alguém que auxilia e a recompensa final, quer seja ela material ou espiritual.
Paulo Coelho não produziu livros. A humanidade é que produziu paulos coelhos.
As mais recentes:
Mas é o nosso filho da puta
O funeral de Michael Jackson derruba eBay
Mais detalhes em instantes
Separados no nascimento
E concordo plenamente: Paulo Coelho é fruto do meio, alguém quem deu sorte.
Responder
Obrigado por comentar no Trivial.
E que sorte hem? Nem uma meia dúzia de mega-senas acumulada seria tão sorte assim.
Abraços!
Responder