Moro numa cidade do interior de São Paulo. Pequena, com algumas indústrias de porte internacional e por conta de sua privilegiada topografia, investe no turismo já há algumas décadas.

Por acaso, Larry Page e Sergei Brin, os donos do Google, estiveram em minha cidade por conta de seu interesse em investir na agro-indústria alcooleira.

E Larry Page e Sergei Brin podem ter passado por uma estreita rua que faz ligação do centro com a zona industrial e os bairros populares, nos altos da cidade. Sim, porque ainda dado a topografia, apenas uma única via faz essa ligação.

E, em determinado trecho dessa via, uma ex-funcionária de lanchonete arrendou um boteco dos mais detonados, mal situado e paupérrimo em qualquer quesito: paredes descascadas, sanitário precário, piso desgastado, os poucos móveis de lata deteriorados e um balcão que serviriam para locações em favelas no Tropa de Elite. Sério, tudo horroroso mesmo.

Pois essa moça melhorou o que pode na questão de higiene e passou a servir hamburgueres a R$ 1,00. E ótimos hamburgueres, para não dizer, excelentes. E isso foi sendo descoberto aos poucos pela cidade ao ponto de, impressionem-se, filas de quase uma hora para ser atendido provocando congestionamento de tráfego naquele trecho.

Como eu disse, a rua é caminho de ligação entre o centro e os bairros populares dos altos da cidade. Todo e qualquer R$ 1,00 que restasse no bolso das pessoas em fins de noite, começo de madrugada, ficava por ali em troca de hamburgeres, refrigerantes e cervejas.

E moto-táxis, muitos deles, com encomenda de dúzias de hamburgeres para residências ou locais de trabalho em plantão.

O atrativo foi tamanho, que até melhorou a freqüência de uma igreja evangélica defronte, acreditem. Lógico, com um lanche assim barato, os fiéis podiam eliminar a tarefa do jantar em suas tardes/noites na volta ao trabalho. Então, mais tempo para arrumar-se e às crianças, para ir ao culto.

Era curioso ver caminhões de entrega descarregando ali, o que não faziam em muitos supermercados.

Bem, a moça empreendedora fez muito dinheiro, comprou uma casa ao lado e transformou-a numa lanchonete melhor aparelhada: mais espaço, uma cozinha apropriada, todas a paredes revestidas, móveis e freezers novos, sanitarios novos, funcionários uniformizados…

Outra cara para o local mas fazendo o mesmo saboroso e bem cuidado lanche.

Mas não foi uma boa idéia. Mudou-se para apenas dois metros de distância, mas tudo mudou. Sua melhor localização, o seu melhor tempero e seu melhor preço mostraram-se valores secundários.

Seu maior valor, era a poesia contida na vontade de vencer, de acreditar, de quebrar paradigmas. Aquela moça que não tinha dia nem hora para trabalhar, despertou algum sentimento de solidadariedade nas pessoas. Solidariedade oculta e/ou camuflada sob as mais variadas formas.

No meu caso, por exemplo, eram momentos únicos quando levava gente de minha turma de poetas e escritores, meio intelectual, meio de esquerda, para comer o melhor gorduroso da cidade “feito por uma ex-garconete que modificou a cara de uma rua com uma espelunca”.

E o movimento, lentamente decaiu até quase o desencanto. Continua uma boa lanchonete, mas não causa mais engarrafamentos e não tem mais, filas de espera. Sorte dela que, antes da mudança, já tinha conquistado estabilidade com um prédio próprio, casa e carro novos e alguma reserva.

Outro dia estive com a Cynara no MSN, falando do jeito diferente de um poeta ver as coisas. Não há porque confundir isso com cassandrisse. Apenas que, para o poeta, não há como ser diferente em dizer as coisas.

Um velho advogado amigo meu veio-me com essa frase: “Ah, os poetas… Por onde passou ou passará qualquer cientista, muito antes já passou o poeta” (1).

Eu digo que a blogosfera brasileira vive seu momento de poesia, bem mais que uma expressividade frente ao todo da internet. E essa poesia não pode escapar pelo vão dos dedos dos empreendedores.

Ela não é apenas diferencial. É tudo. Encontrá-la, será vencer.

(1) - Parece que só tenho amigos advogados né? Não todos, mas muitos. É questão de tribo. Qual eles, nunca trabalhei em corporações e minha tribo é essa dos profissionais liberais que incluem médicos, dentistas, advogados, contadores, comerciantes, políticos etc…

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