Chaves e Chapolin Colorado (4)

O sucesso da série com Chaves e Chapolin Colorado por seguidas gerações tem produzido artigos e o filão parece inesgotável.

Roberto Bolaños, além de personificar as personagens que criou, foi também mentor das demais personagens e redator dos episódios apresentados, no Brasil, pelo SBT.

Elevo Roberto Bolaños num mesmo patamar de genialidade que Charles Chaplin. Se Chaplin teve o cinema e Bolaños a televisão, cada qual a seu tempo com as limitações do meio para as distintas épocas, apenas essas limitações impuseram limites à superfície visível desses gênios.

Chaves e sua turmaCom Chaves, Bolaños reproduz o mundo infantil entronizando o lirismo na vida de um menino órfão e morador de rua. Ou quase rua, eis que permanece íntimo a todos os moradores de um cortiço onde o espírito de comunidade retira do ar os fantasmas da solidão.

Alias, episódios que ressaltam uma solidão de Chaves, são poucos. A mim, isso mostra a preocupação de Bolaños com o imenso fã clube da personagem, que sofreria junto.

Sua barrica de madeira como “casa”, materializa no imaginário de meninos da cidade o espírito de liberdade e da aventura. E confesso: aquela barrica é uma cabana no alto da árvore ou uma tenda em plena mata.

Se você viu Huguinho, Zezinho e Luizinho em cabanas de árvores e em tendas de escoteiros, irá entender.

E tudo no “mundo de Chaves” é lúdico, representativo da infância como os conflitos de gerações, os folguedos com bolas, os trocados para comprar pirulitos e as inocentes artes infantis que culminam nas engraçadas e criativas “gags”.

É notável como os desfechos das “gags” permitem aos personagens fazer uso de seus “bordões”(1) com naturalidade, sem forçar sua inserção. Retratam a vida num cortiço, com pais viúvos com filhos, uma senhora idosa sem parentes ou amigos e a opressão de um senhorio.

Mas, um senhor Barriga nem tão opressivo assim.

É um cenário até por demais próximo da vida da criança de verdade, daí sua identificação e o sucesso por décadas. Chaves é sucesso porque é a arte imitando a realidade de vida de milhões de crianças latino-americanas de mesma sorte nos cortiços, nas favelas e nas periferias.

Como aparelho de televisão está para residências de baixa renda assim como o Windows está para o cumputador pessoal, Bolaños “conversou” com a totalidade dos chaves, quicos e chiquinhas da América Latina.

Comparações de Eduardo Mineo de Bolaños com Charles Dickens (Oliver Twist e David Copperfield) para situar parâmetros de genialidade no enfoque do mundo pelos olhos de crianças, ganha reforço quando disposto num mesmo plano para observação: a tela do cinema ou da televisão. E David Copperfield foi reproduzido pelo diretor W.C.Fields (2).

No Brasil, Renato Aragão poderia ter “pego a mão” desse lirismo no humor quando criou o personagem Didi Mocó. Esquecido que já está nas origens, parece ter sido inspirado em Carlitos e Cantinflas, como o sujeito com dificuldade em se ajustar a uma vida regrada.

Carlitos viveu na Grande Depressão, o que é errado querer ele como vagabundo, mesmo que adjetivado de adorável. Se Renato Aragão entendeu isso para Didi Mocó, entendeu errado e deu no que deu: em nada. (3)

Talvez em seu íntimo não tivesse despertado o amor pela personagem, não o bastante para investir em redatores e roteiristas.

Uma pena.

(1) – O bordão está para personagens de humor assim como o refrão está para música popular. Sem eles, não “pegam”.

2) – W.C.Fields, guarde esse nome.
Quando começaram a surgir locadoras no rastro dos videocassetes, eu ficava perdido entre a montanha de filmes disposto nas prateleiras.

Um amigo aconselhou: “Não se ligue nas fotos nem nos releases dos filmes. Escolha pelo diretor ou pelos atores: diretor bom quando erra da mão, ainda é bom. E ator bom, não entra em roteiro ruim”.

Quando surgir um W.C.Fields para você, pode pegar. Não tem erro.

(3) Renato Aragão pode ter perdido uma personagem. Mas ganhou muito dinheiro com a mediocridade, tendo que atender a outros públicos com “gostosonas”.

(4) Lembra de “bordões” do Chapolin Colorado, do Chaves e sua turma? Também sei, mas não citei nenhum para deixar para você.

One Response to “Chaves e Chapolin Colorado (4)”

  1. Gabiru Says:
    Sérgio,

    bem bonito o texto sobre o autor – e sua principal criação – que é tantas vezes ignorado pelos críticos. O Bolaños é o Chespirito nos México pois é como se fosse o pequeno Shakespeare, dada a copiosidade e a qualidade das obras. O seriado, de uma maneira geral, acaba por estabelecer alguns padrões na teledramaturgia que não havia até então – e isso é bastante representativo da virada dos 1960 para os 1970 -, como personagens pobres protagonizando a ação e as mulheres como as inteligentes da trama; no caso das crianças, em especial, é sempre a Chilindrina, nossa Chiquinha, quem tem as soluções inteligentes, enquanto o Chaves e o Quico são mais paspalhões mesmo.

    É interessante notar também a figura da família de classe média que escorrega ladeira abaixo sem perder a pose, tentando se diferenciar da gentalha na porrada. Ou na roupa de marinheiro.

    Cada personagem, a bem da verdade, mereceria um post longo, já que são todos eles bastante característicos de uma época que já se foi, à medida em que se mantiveram as representações de cada um. O encanto pelo cavalinho de pau foi substituído pelo desejo por um vídeo-game (ou o que quer que o valha), mas a ingenuidade infantil na busca por um pouco de imaginação se mantém.

    E da uma baita saudades do Seu Madruga, isso sim!

    Obrigado pelo post!

    Abração,
    Gabiru
    PS: dá uma corrigida no primeiro parágrafo do texto, que tá dando pau com o bloco do Adsense.