Transposição do Rio São Francisco
Postado por Sergio em 08 Dez 2007 em 07:37 pm | Em: Política
A nova greve de fome do bispo fransciscano Luiz Flávio Cappio, em protesto pelo transposição do rio São Francisco, já ganha os portais. Da primeira vez, o bispo avistou-se com um ministro do governo e colocou fim numa greve que já durava quase duas semanas.
Se você não tem acompanhado o que seja a transposição do rio São Francisco, seria a abertura de canais por onde teria escoado uma parte ínfima de sua vazão, beneficiando vários outros estados da região Nordeste.
O programa terá um custo de US$ 2 bilhões e foi amplamente discutido por setores ligados ao meio, pela imprensa (com direito a infográficos na Folha de São Paulo e FolhaOnLine) mostrando vantagens e desvantagens do programa.
Eu não sei, você não sabe e ninguém ficará sabendo se existem mesmo alternativas viáveis ao projeto. O que se ouve e vê, são ainda daquelas coisas de “Brasil, terra abençoada pelo Senhor”, com alusões a um enorme lençol freático cuja exploração seria economicamente mais viável. Eu não sei, você não sabe e ninguém ficará sabendo se existe mesmo água no subsolo nordestino.
Todos nós temos o Nordeste brasileiro como um sumidouro de verbas públicas para a indústria da seca. Isso é secular e tão fortemente entranhado que não é impossível acreditar que os “esquemas” para deitar e rolar nessa bolada já tenham sido montado (e politicamente negociados) há tempos e serem eles, o que agoram preponderam na decisão do governo em ignorar alternativas e até, a nova greve do fome do franciscano.
Caso seja invalidada a hipótese acima, e que seja essa obra a única viável para resgatar a dignidade de milhões de brasileiros nordestinos, então, o franciscano vai morrer de fome?
Ele, fica no discurso centenário do privilégio a poucos, mas só no discurso. E o governo, colocou o tema para ser debatido, por meses. Então, o governo tem argumentos. E argumentos vence discursos, nesse joquempô travado entre as partes.
O que temos então, senhores? De um lado, um presidente que quer passar para a história como aquele que resgatou o Nordeste de séculos de atraso em relação ao Sul/Sudeste (01) e de outro, um religioso que pode estar confundindo missão cristã com vaidade (02).
Que merda! Pelo lado do presidente, não tenho competência e nada ganho para descobrir se está com a razão. Pelo lado do religioso, se vai morrer de fome por um discurso vazio, também não há como saber.
Mas, antes morrer, porque o senhor bispo franciscano não elege sua ONG (ou funda a sua) de preferência, pede estudos detalhados, discute com a população ribeirinha, na imprensa, negocia com o governo ações desejadas no projeto, fiscaliza sua execução e etc… antes de apenas morrer por um discurso?
(01) - Estudos recentes mostram que tem diminuido bastante as diferenças socio-econômicas entre as regiões do Brasil. O aqueduto do São Francisco não seria uma a solução definitiva, mas aquela emblemática que passaria para a história.
(02) - Vaidade, sim. Chamar atenção do presidente, do mundo e até, do papa.
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Sérgio, ficava me perguntando se “fazer greve de fome” era a melhor forma de ajudar, chamar atenção para o assunto.
Talvez algumas pessoas ficaram somente preocupadas com a situação do bispo e não atentaram ao assunto da transposição.
O governo Lula pode ter lá seus defeitos, mas a vida do povão tem melhorado bastante, mas ainda precisa melhorar muito.
Abraço!
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Ciro defende a transposição e sempre desqualifica os opositores da idéia. Tudo bem, faz parte do jogo político. Mas quando se trata de esclarecer e entender a questão, o comportamento é inadequado. É preciso primeiro conhecer o projeto (e as alternativas). Quando você diz que você e o público não conhecem o projeto e as alternativas, tem razão em parte, mas as informações estão parcialmente disponíveis na internet (do projeto de transposição, por incrível que pareça, só o RIMA, no site do Ministério da Integração).
Vamos tomar um ponto frequente usado pelo Ciro: a transposição vai atender a demanda de água para consumo humano. No início das suas apresentações, esta é a argumentação. Mas logo aparece uma demanda de 1500 litros por dia para cada cidadão (do contingente de 11 milhões a serem atendidos), nas planilhas da obra. Por que este consumo tão alto? Porque é o consumo social, e não apenas para água, banho, etc. Envolve também os usos indiretos, na indústria e no comércio. Tudo bem vá lá que seja. Mas logo adiante aparecem canais para captar muito mais do que os 28 .000 litros por segundo necessários (com vasta sobra) para atender a população planejada. No limite os canais podem levar até 300.000 litros por segundo. E porque este aumento de mais de 10 X o planejado? Aí o Ciro explica que, quando for possível vai se captar do rio este volume para a agricultura. Aí a coisa muda de figura: primeiro - a água, passando sobre a serra do Araripe e andando quase 1500 km, vai ser tão cara que nenhum agricultor poderá pagar. Basta levantar a água 50 m de altura e ela já fica muito cara, todo agricultor sabe disso. Se for subsidiada, está errado: há milhões de hectares na beira do próprio São Francisco que não são irrigadas porque o curto da água é proibitivo, a menos que se subsidie… segundo - A água vai servir para irrigar o quê, se os terrenos por onde passam os canais e rios aproveitados são na sua maioria rasos demais, com terras de pouquíssima aptidão agrícola? terceiro - de que adianta produzir, se fosse possível, naquelas paragens, se os grandes centros consumidores estão a muitas centenas de km de distância? quarto - Ciro diz que as águas só vão ser captadas em grande volume quando houver volume guardado em Sobradinho. Mas o reservatório só ultrapassa os 90% durante três ou quatro meses. E fora disso, como o felizardo agricultor que vai receber água subsidiada se vira? O reservatório só vai permitir uma retirada significativa entre maio e agosto… Enfim, se fosse só para uso humano, não precisava de canal, só de adutora. Agora, a gente se pergunta: tem gente morrendo de sede no sertão de PE, PB, CE ou RN? Quando alguém precisa de água pega uma mula, anda kms e vai buscar. Volta sem água? Nunca. O que ocorre é que, água, há. O que é péssima é sua distribuição, manipulada por políticos corruptos há séculos, que vão fazer o mesmo com as águas da transposição.
Por fim, colegas, a CPT (e mais meio mundo de gente) é contra a transposição muito mais por causa do custo absurdo desta água, da dificuldade (ou mesmo impossibilidade) de uma distribuição justa e da falácia de que ela vai resolver o problema do sertão, que não vai nem a pau. Há alternativas em forma de projetos? Sim, a começar pelo programa de 1 milhão de cisternas, que já está em operação. Vai dar segurança hídrica ao morador isolado no Sertão. Segundo, a construção das redes de distribuição das águas dos açudes e a construção d novos açudes, tudo projetado e com orçamento. Não se faz porque não se quer.
Cordialmente.
Paulo Andrade
andrade@ufpe.br
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Obrigado por comentar essa postagem. Como o Trivial é um blog generalista, eu só coloco minhas impressões, sem um aprofundamento temático. A idéia de um blog é essa mesmo, que fique aberto ao debate.
Mas, se inevitável for a transposição do Rio São Francisco, espero que cumpra com as expectativas e não se torne a “transamazônica” do Lula.
Alías, aos contrários a disposição do governo pela obra faltou um slogan assim, que mobilizasse a sociedade sobre o tema jogando o governo para a defensiva.
Abraços!
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“Quando a razão se extingue, a loucura é o caminho.”
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Se o volume derivado minimo, e de 28.000 l/s,devemos ter presente que frente a os 2.800.000 l/s de vazão do rio no mar, a parcela è 1%!,ou seja,dez veces menos que as “para-transposições” efetuadas para os projetos de irrigação ja implementados, veneficiando aproximadamente, 50.000 pessoas. O curioso è que ninguem fez greve por este motivo.
Outro aparte, o rio esta morrendo, não porque sera retirada esa quantidade de agua,mais porque è praticamente “o coletor de esgotos” de MG,e certamente isso, tem que mudar, quem fara greve de fome?
Se consideramos que com esa agua estariamos, p.ex, atendendo a população de um pais como Chile,será que continuariamos sendo “contras”?
Questões vinculadas a melloria das miseraveis condições de vida do povo nordestino, estão ão alcace de todos, porque não furar poços,facer sisternas,azudes,etc?
qualquer uma sera bemvinda, mais com o potencial da “Transposição do Chico”,revitalizando as vacias naturais, nenhuma.
Quem noticiará, as greves de fome involuntarias, as que são submetidas as viuvas da seca e suas crias,e elas tem fome de todo!!.
Vamos a ficar alertas, monitorando as obras,solicitando informação,verificando açoes,porque argumentos para contrariar,requerem como minimo uma forte dosis de intereses proprios, muito pequenos.(egoismo?)
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Sergio reply on Setembro 3rd, 2008 20:20:
Fui no link indicado por você e li. Muito bom. Agora, com o governo fazendo festa em cima do petróleo do pré-sal, parece que a imprensa se esqueceu do São Francisco…
Assim é o Brasil.
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