Aos leitores do blogue Trivial:

A transposição das águas do Rio São Francisco, agora pelos argumentos do professor Paulo Andrade, da UFPE. Publicada como comentário na postagem original e, pela relevância, aqui replicado como postagem. Recomendo fortemente a leitura.

Sérgio,

Ciro (Gomes) defende a transposição e sempre desqualifica os opositores da idéia. Tudo bem, faz parte do jogo político. Mas quando se trata de esclarecer e entender a questão, o comportamento é inadequado. É preciso primeiro conhecer o projeto (e as alternativas).

Quando você diz que você e o público não conhecem o projeto e as alternativas, tem razão em parte, mas as informações estão parcialmente disponíveis na internet (do projeto de transposição, por incrível que pareça, só o RIMA, no site do Ministério da Integração).

Vamos tomar um ponto frequente usado pelo Ciro: a transposição vai atender a demanda de água para consumo humano. No início das suas apresentações, esta é a argumentação.

Mas logo aparece uma demanda de 1500 litros por dia para cada cidadão (do contingente de 11 milhões a serem atendidos), nas planilhas da obra. Por que este consumo tão alto?

Porque é o consumo social, e não apenas para água, banho, etc. Envolve também os usos indiretos, na indústria e no comércio. Tudo bem vá lá que seja.

Mas logo adiante aparecem canais para captar muito mais do que os 28 .000 litros por segundo necessários (com vasta sobra) para atender a população planejada. No limite os canais podem levar até 300.000 litros por segundo.

E porque este aumento de mais de dez vezes o planejado?

Aí o Ciro explica que, quando for possível vai se captar do rio este volume para a agricultura. Aí a coisa muda de figura: primeiro - a água, passando sobre a serra do Araripe e andando quase 1500 km, vai ser tão cara que nenhum agricultor poderá pagar.

Basta levantar a água 50 m de altura e ela já fica muito cara, todo agricultor sabe disso.

Primeiro - Se for subsidiada, está errado: há milhões de hectares na beira do próprio São Francisco que não são irrigadas porque o curto da água é proibitivo, a menos que se subsidie…

Segundo - A água vai servir para irrigar o quê, se os terrenos por onde passam os canais e rios aproveitados são na sua maioria rasos demais, com terras de pouquíssima aptidão agrícola?

Terceiro - de que adianta produzir, se fosse possível, naquelas paragens, se os grandes centros consumidores estão a muitas centenas de km de distância?

Quarto - Ciro diz que as águas só vão ser captadas em grande volume quando houver volume guardado em Sobradinho. Mas o reservatório só ultrapassa os 90% durante três ou quatro meses.

E fora disso, como o felizardo agricultor que vai receber água subsidiada se vira? O reservatório só vai permitir uma retirada significativa entre maio e agosto…

Enfim, se fosse só para uso humano, não precisava de canal, só de adutora.

Agora, a gente se pergunta: tem gente morrendo de sede no sertão de PE, PB, CE ou RN? Quando alguém precisa de água pega uma mula, anda kms e vai buscar. Volta sem água? Nunca.

O que ocorre é que, água, há. O que é péssima é sua distribuição, manipulada por políticos corruptos há séculos, que vão fazer o mesmo com as águas da transposição.

Por fim, colegas, a CPT (e mais meio mundo de gente) é contra a transposição muito mais por causa do custo absurdo desta água, da dificuldade (ou mesmo impossibilidade) de uma distribuição justa e da falácia de que ela vai resolver o problema do sertão, que não vai nem a pau.

Há alternativas em forma de projetos? Sim, a começar pelo programa de 1 milhão de cisternas, que já está em operação. Vai dar segurança hídrica ao morador isolado no Sertão.

Segundo, a construção das redes de distribuição das águas dos açudes e a construção d novos açudes, tudo projetado e com orçamento. Não se faz porque não se quer.
Cordialmente.

Paulo Andrade

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