Os jogos olímpicos têm sido usado para fins políticos, desde sua reintrodução na humanidade pelo aristocrata francês Pierre de Fredi, o Barão de Coubertin, em 1896.

Desde então chamados Jogos Olímpicos da Era Moderna, as olimpíadas seriam o que foi na antiguidade grega: o congraçamento dos povos pelo esporte. E isso de maneira geral tem sido conseguido, exceto nas interrupções provocadas pelas duas grandes guerras mundiais.

Os períodos mais dramáticos nessa nova trajetória ocorreram em fases de tensão na humanidade. Os mais convulsivos foram os jogos de Berlim em 1936 (com Hitler e sua doutrina de pretensa superioridade ariana);

Da Cidade do México, em 1968, o protesto subiu o pódio por intermédio dos velocistas americanos Tommie Smith e John Carlos. Ouro e bronze nos 200 metros, a dupla ergueu o punho na saudação típica dos Panteras Negras. “Esta é uma vitória dos povos negros de todos os lugares da Terra”, disse Smith.

De Moscou em 1980, boicotado pelos USA, Canadá, Alemanha Ocidental e Japão por causa da invasão sovietica no Afeganistão;

De Los Angeles em 1984, agora boicotado pelos soviéticos, Cuba, Alemanha Oriental e demais países do Leste Europeu tidos como satélites da União Soviética, em represália ao boicote norte-americano na Olimpíada anterior.

E, o mais terrível de todos, de Munique, em 1972, quando nove atletas da delegação de Israel ficou refém de militantes do grupo árabe Setembro Negro. Depois de um breve período de expectativa mundial com a sorte dos reféns, todos foram mortos pelos sequestradores. Comoção mundial.

Agora, Pequim em 2008, os ventos políticos não se mostram alvissareiros para os chineses com o recrudescimento de manifestações no Tibet e de tibetanos pelo mundo, contrariados com a anexação de seu país por Mao Tsé Tung.

A China investiu muito dinheiro na organização dos jogos com o intuito comum a todos que já os sediaram: mostrar-se ao mundo e, no caso, uma vitrine muito especial. A China está se consolidando como uma das economias dominantes do planeta e “vender-se” bem ao mundo faz parte de sua estratégia de relacionamento.

O Tibet é um vizinho país montanhoso e jamais se conformou com a anexação. Seu lider espiritual, o Dalai Lama, vive exilado na Índia sem nunca ter abandonado a pregação pela volta da autonomia de seu país.

Mesmo sendo um sucesso capitalista, a China preserva sua política de partido único, sem abertura política para opositores. Assim, não fosse o período especial que vive esse ano, essa “lua de mel” da China com o mundo, os tibetanos nem teriam ânimo para a atual ostensividade, na certeza de serem esmagados.

Com a aproximação dos jogos olímpicos a poderosa China tem pouco tempo para equacionar isso, o que não parece fácil.

Podemos imaginar desde uma manifestação monstro em Lhasa, a capital do Tibet, o que já vem acontecendo localizadas e as mortes se acumulando, até uns tantos monges tibetanos ateando fogo às suas vestes em Londres, París ou New York, o que não é uma idéia distante de sua realidade.

Minha torcida, é pelo dito popular “escrita certa em linhas tortas”. Ou seja, que a China negocie com Lhasa um estatuto similar ao inverso do ocorrido com Hong Kong. Hong Kong foi possessão britânica que voltou para a China mas sem interferência imediata em seu viver habitual. Sem traumas culturais.

Quem sabe, a China possa devolver o Tibet aos tibetanos por um caminho inverso àquele.

Eu vivi os acontecimentos ocorridos a partir de 1968, na Cidade do México, e lembro bem o quanto foram dramáticos para a beleza dos jogos e para a humanidade como um todo.

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