A poesia concreta pode não ser uma das formas de expressões mais apreciadas mas o que poucos sabem, é que mesmo sem consciência, raramente alguém (você?) não venha um dia a construir um poema concreto. Ou até, já o tenha construído.

Eu próprio, construí vários. Mas todos na era pré informática e eles ficaram perdidos por anotações e bordas de cadernos. Com exceção de um:

Carro nosso

Carroça

Carro russo

Carroça

Carro nosso

Encontrei hoje, por acaso, fuçando num HD que estava no PC anterior a esse. Nem é muito criativo mas é representativo para a época. O que, alias, para ser entendido, só mesmo explicando qual fato da época o inspirou.

Existiu por longos e tristes anos do Brasil uma tal reserva de mercado para alguns produtos nacionais. Essa proteção impedia a concorrência de similares importados em nosso mercado, o que atrasou sobremaneira o desenvolvimento da indústria automobilística e de informática, as mais notáveis.

Fernando Collor de Mello, ainda candidato à presidência da República, declarara que “os carros nacionais eram carroças” e nós bem sabemos o que significa esse dizer. Eleito, uma das suas poucas ações positivas foi abrir o mercado nacional para a informática e indústria automobilística estrangeira.

Na área de informática, o que se fazia no Brasil é o que pode ser visto no museu. Na automobilística, tínhamos no país apenas as montadoras da Ford, GM, Volkswagen e Fiat em atividade. E seus poucos modelos de autos à escolha do consumidor.

Importar carros americanos e europeus com o dólar caro da época, nem pensar. Sem contar que carros americanos, tradicionalmente, são potentes e beberrões de gasolina. O europeus, se mais econômicos no consumo, eram também fora dos padrões para a bolsa nacional. Japoneses, idem a esses últimos.

E os “tigres asiáticos” (Coréia do Sul, principalmente) não eram ainda a potência automobilística que se revelou um pouco depois, ainda nos anos noventa.

Restavam os russos de uma União Soviética que se fragmentava e precisando “fazer dólares” para sua balança comercial desequilibrada por ávidas importações, as necessárias para sua adequação ao mundo da livre iniciativa. Como sabemos, multi-milionários e máfias locais surgiram desse período.

Bem, vai daí que a primeira “leva” de importados eram os russos da fábrica Lada: carros Laika e Samara, e jipes Niva, tecnológicamente tão antiquados quanto nossas “carroças” nacionais. Mais “carroças” então. Releia agora, o poema.

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