O divisor de águas na música da Bahia
A vizinhança sabe que uso o blogue como conversa de boteco. Vou pensando no assunto que chamou-me à atenção e vou digitando.
Quase sempre a conversa ameaça mudar de rumo e depois, quando dá certo de espiar a danada na frente de blogue, vejo que ficaram lacunas.
No caso de minha afirmativa de ser Daniela Mercury um divisor de águas para cantoras baianas, eu digo isso com respeito à estética geral.
Vejam bem: alguém imagina o carnaval da Bahia com Gal, Bethânia ou Simone em cima de trios elétricos fazendo o que fazem hoje Daniela, Ivete Sangalo, Claudinha Leite ou a sumida Gilmelândia?
Eu creio que ninguém imagina isso. São outros os seus estilos.
Condições pré-existentes como o trabalho de Armandinho, Dodô e Osmar com o pau elétrico, o ritmo quente do frevo ao qual o instrumento se associou e a relevância de um político baiano no cenário nacional, fizeram o Carnaval da Bahia ser o que hoje é.
Você (eu também) pode não gostar do coronelismo que representou Antonio Carlos Magalhães, mas graças ao fato ser um político do “pão e circo” é que a Bahia cresceu no cenário musical com identidade própria.
De qualquer outro estado artistas precisam estar fisicamente no eixo Rio-São Paulo, e sozinhos, se quiserem o sucesso. Não têm essa certidão avalizadora que a Bahia dá aos seus.
ACM, quando esteve apertado no Senado Federal por conta de espionagem nos painéis de votação, contou com a maciça solidariedade dos artistas baianos. Ele renunciou ao mandato de senador para manter seus direitos políticos. Depois, voltou ao Senado.
Bem, voltando à formação dessa estética atual, lembro que os ritmos caribenhos entravam (e ainda acontece isso) por Belém e se amalgamavam na Bahia com o que ali já existia. E o reggae, carimbó e a lambada agruparam elementos nessa batida única que hoje chamam axé.
Daí, desandou. Se você conhece três ou quatro grupos baianos de sucesso, pode acreditar que existem dezenas de outros tentando.
Coisa de alguns anos estive em Salvador, e o que eu vi de cartazes espalhados pela cidade de Qualquer Coisa do Acordeón e Não Sei Quem dos Teclados, foi revelador: era muitos.
E porque esses grupos têm que ter uma gostosa como crooner? (Bem, se eu não explicar essa obviedade acho que não fico devendo pedaços na postagem, né?)
E, depois de muito tempo do romantismo das cantoras baianas voltadas para compositores como Chico, Caetano, Gil e Dorival, chegamos a Daniela apresentada como boa novidade, uma mulher bonita, sensual, muito balanço e voz forte para aquela música e carnaval que se formavam em Salvador.
Explodiu no país.
E a música baiana virou praga pelo interior do país, principalmente no carnaval, propiciando um mercado fabuloso para elas, as boas cantoras boas da Bahia.
E acaba não. Se a imagem de uma, um dia, chegar a cansar, lançam outra rapidinho. A indústria está feita. Basta suprir.
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