Meu pai, o profeta
Postado por Sergio em 23 Abr 2008 em 09:53 am | Em: Economia
Meu velho deu as caras nesse mundo em 1900, na virada do século XIX para o XX. Foi gerado a bordo de um navio vindo da Itália e nasceu em Itapira, interior de São Paulo. Sim, em alguma fazenda de café, exatamente como visto nas novelas.
Ainda na primeira década meu avô paterno cismou de bandear-se para a Argentina, província de Mendoza, aos pés da Cordilheira dos Andes. Lá, meu pai ficou até seus dezesseis anos onde completou o ensino médio.
Gostava de lá mas meu avô achou de voltar para o Brasil e novamente, para o interior de São Paulo.
Aos vinte anos meu pai era administrador de fazendas de café. Aprendeu o ofício graças ao tal “em terra de cego, que tem um olho é rei”: a Educação na Argentina era infinitamente superior a todas outras na América do Sul.
Contava-nos coisas da época, de arrepiar o pelo. Só não sei dizer se ele “apagou” gente. Isso, ele nunca nos contou. Mantinha limpo e lubrificado seu secular Smith & Wesson, 38 cano longo, niquelado e cabo de madrepérola até que precisou vendê-lo. Precisou fazer dinheiro para uma hospitalização de minha mãe. (01)
Falava fluentemente o italiano, o castelhano e o português, se bem que misturando um pouco os idiomas na escrita quando já idoso. Minha mãe era analfabeta e ele escrevia a lista de compras de coisas como feijon, macarrom, sabon… rs…
Esse imbróglio em torno da escassez de alimentos, acossando os biocombustíveis como culpados pela fome no mundo, me fez lembrar meu velho.
Qualquer tonto sabe que energia limpa se faz necessário para a sobrevivência do planeta. Os países da América Latina e da África têm extensão de terras para “plantar” biocombustíveis. E de sua riqueza, resvalar recursos para a produção de alimentos.
No entanto, o mundo rico mete os pés pelas mãos e tem subsidiado seus produtores rurais à produção (também) de biocombustíveis.
Interesses, interesses, interesses… egoísticos interesses localizados na Europa e nos Estados Unidos.
Meu pai, que passara pelas duas grandes guerras, dizia: “A América do Sul tem tudo o que precisa. Tudo. De energia a comida. Se for atrás (pautar-se) pela Europa e Estados Unidos, vai passar pela história o tempo todo se phodendo“.
Simplista o raciocínio do velho, eu sei. Mas lindo.
(01) - Esse revólver está com uma terceira geração de colecionadores. Por vezes, meu irmão mais velho o quis reaver mas não teve negócio. Meu pai foi lendário com esse revolver. Quando menino, me contavam que ele derrubava frutas (mangas) no tiro, sem apear da montaria.
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