1988, Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Estava eu saindo de um alcoolismo ativo que já durava uma década de estragos.

Nessas, um companheiro de Alcoólicos Anônimos conseguiu-me um emprego: deveria lecionar contabilidade de custos e análises de balanços numa escola de ensino médio, particular.

Muito bem. Professor nunca ganhou muita coisa mas já dava para pagar o quarto de pensão. O mês anterior tinha sido pago com uma máquina fotográfica, uma Olimpus Trip, meu último bem. Eu já estava de “língua preta”. (01)

Como o curso era noturno consegui vaga de redator de porcarias num jornaleco (meio período, pela tarde). Sim, porcarias. Queriam encorpar o jornal e deixaram-me criando coisas.

Inclusive, até um horoscopista (eu!), o Dr. Shesmann, que redigia previsões para os signos e até, mapa astral. Uma vez, inventei de colocar no rodapé da coluna: “Encomende seu mapa astral feito pelo Dr. Shesmann. Cartas para a redação”.

Sim, chegaram cartas mas em nenhuma das vezes fiz isso, um “mapa astral” Aí, já seria demais. A bagaça já estava de bom tamanho para a brincadeira.

Bem, mas de vez em quando, eu auxiliava como repórter. Numa dessas, fui com o dono do jornal entrevistar o senador sul-matrogrossense Saldanha Derzi, então líder do governo Sarney no Senado Federal.

O velho senador nos recebeu num pequeno jardim de inverno de sua casa e, entre um e outro cafezinho de praxe, meu parceiro fez a entrevista e eu, algumas fotos. Eu estava ainda tão entorpecido que nem me dei conta da importância da figura pública que ali estava. Queria ir logo embora, para fumar.

Bem, da conversa que meu parceiro tramou com o senador, ficou em minha memória apenas um seu comentário elogioso aos “nossos meninos, engenheiros brasileiros”, que tinham descoberto uma gigantesco campo de petróleo em solo amazônico.

Isso, foi mesmo notícia forte na época.

Cheguei até aqui nessa narrativa para comentar uma notícia de hoje do UOL. Veja só seu primeiro conteúdo, o que fala das valorizações das ações da Petrobrás até a descoberta de um outro gigantesco poço de petróleo na plataforma marítima, o Carioca.

Sim, por aquela época e por todas as outras subseqüentes, o fenômeno se repete: anúncio de descoberta de poços ou campos de petróleo é igual a valorização das ações das Petrobrás. Uma conseqüência natural, óbvia, no mercado de ações.

Por outro lado, temos a luta pela utilização dos biocombustíveis como forma de minorar o aquecimento global provocado pela poluição que combustíveis fósseis trazem.

Com tudo isso, só quero dizer como é interessante o jogo do dinheiro. Se descobrirmos montanhas de petróleo e não o precisarmos usar, então, nem será extraido. E como valoriza-se algo que nem será vendido, não resultará em riquezas?

Evidente que a coisa não é assim, simplista. O entorno é complexo, um emaranhado de relações de mercado que não é aqui lugar para esmiuçar. Só quis salientar o paroxismo na notícia.

Mas olha… consegue imaginar o quanto não ganham os que têm o privilégio sobre essas informações? Ou então, o quanto não ganha de gáz político um governo com notícias como essas?

Culturalmente, somos muitos sensíveis a elas. Uma herança deixada pelo movimento “O petróleo é nosso“, como já falei sobre valores transmitidos de forma não-biológica.

Se parar para pensar que nos anos 70/80 a conta petróleo em nossas importações consumiam os esforços para o equilíbrio na balança comercial, só por isso, dá para quantificar o quanto isso “mexe” com o brasileiro.

(01) - Língua preta? A língua dos enforcados, oras. Depois, até liderei um bloco carnavalesco com esse nome. Mas isso, é outra história.

UPDATE - Quando é incompetência ou escusas intenções? Eu não arrisco nada.

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