Lula Antena
Quando, na época, li essa postagem do Rodrigo Ghedin, foi que fiquei sabendo do que se tratava aquelas imagens de favela na novela Duas Caras. E nela, o Antonio Fagundes com trejeitos xerifescos.
Depois disso, passei a dar alguma atenção para a novela por saber que renderia uma postagem cá no blogue.
A verossimilhança em Literatura de ficção sempre foi uma de minhas exigências e, embora novelas de televisão sejam algo menor, posso manter um rótulo literário dado um respeito pelos autores.
Sei que podem fazer superior a isso, mas têm que limitar-se ao folhetim, eis que é isso o público pede, é o que dá audiência.
E, nada mais verossímil num país onde a ausência do estado é sentida nos anseios sociais, que o surgimento de um líder comunitário empreendedor e de personalidade paternalista, um paternalismo ao estilo mitológico guevarista, do” endurecer sem perder a ternura”.
E o Juvenal Antena construiu e governa sua favela, como um pai cuida de seus filhos, por intermédio de uma associação de bairro. Mantém os artifícios comunitários típicos (inclusive, escola de samba) e outros, como segurança armada, esse, que só posso chamar de conjuntural para a trama e para a ambientação: os morros do Rio de Janeiro.
De outra forma, como fazer acreditar que exista algum poder comunitário capaz de ali impor regras de convívio social? A novela, assim como fez o filme Tropa de elite, mostram que o Rio de Janeiro não consegue com sua polícia prover segurança e o controle do tráfico de drogas nas favelas.
Personalista ao extremo, Juvenal Antena atende pessoalmente e diariamente a todos os
moradores que o procuram. É ele, de Salomão a Assistente Social, passando por Delegado de Polícia e Promotor Público.
E o povo, em diferentes níveis, ama-o, respeita-o e o teme, não necessariamente nessa ordem. E ainda, sustenta sua estrutura associativa com doações. Parece que toda atividade empreendedora na favela recolhe uma contribuição regular para os cofres de Juvenal Antena.
Até aqui, tudo bem, apenas um apanhado das coisas que acontecem no “núcleo favela” da novela Duas Caras.
No entanto, caros leitores, resolvi observar essa estrutura como recorrente a uma personalidade real: o nosso Presidente da República, assim afeito ao Juvenal Antena pela origem, perseverança, popularidade, paternalismo e exercício do poder.
O presidente Chávez, da Venezuela, abriu caminhos para as discussões em torno de um terceiro mandato para Lula, não foi? Algo que ninguém poderia imaginar nem nos mais delirantes sonhos absolutistas, galgou patamares: do imponderável, atualmente ocupa o patamar do discutível nas hostes governistas.
E, o que melhor para observar a aceitação popular de um líder obsolutista, que uma novela?
Justamente, (01) no Brasil, nada é melhor.
O fato de Juvenal Antena apresentar-se como um ditador que (felizmente, apenas figuradamente) até tenha mandado “eliminar” elementos contrários ao seu sistema de lei e ordem, não ofusca sua simpatia perante o público. Bandidos, são mesmo para ser sumariamente eliminados, não é mesmo? Afinal, estamos cheio de cadeias que nada resolvem.
Aqueles que estão por trás desse poderoso veículo chamado novela sabem para onde estão indo e até onde desejam chegar, não duvidem disso jamais. Não pensem que estamos falando de uma obra de ficção que segue rumos do acaso.
Até que segue, mas são influenciadas e dirigidas em ressonância com o público.
Novela, tanto é o público que a está fazendo, como ela que está “fazendo” o público. Uma personagem criada como secundária pode tornar-se principal e aquela nascida como principal, pode até ser “morta” no decurso, por ter sido desfavorecida pela trama ou não ter caído no gosto do público. Ressonância pura.
Na trama, começou-se a votação de um plebiscito para definir a construção ou não de instalações industriais nos arredores da favela, interrompida por uma invasão armada, repelida com armas por Juvenal Antena e seus seguranças.
Parece que a votação irá se repetir. Juvenal Antena é contrário às instalações, sob o argumento de, por tratar-se de uma fábrica de cimento, isso mais irá prejudicar a vida das pessoas na favela que trazer benefícios.
E existe uma oposição, favorável às instalações, pregando que os empregos trarão a liberdade aos favelados, ficarão livres do jugo de Juvenal Antena.
Se rolar o plebiscito, aposto que Juvenal Antena vencerá, pois essa será a vontade do público telespectador. Se isso acontecer, podem acender a luz amarela.
(01) Justamente é o bordão de Juvenal Antena
Nota final: Temos na novela, um deputado (personificado por Marcos Winter), sempre presente na favela.
Essa, só com o padre Quevedo: isso não ecsiste.
janeiro 12th, 2008 at 14:11
Lula Antena não é um ser híbrido. Lula e Juvenal Antena podem ser a mesma pessoa.
janeiro 12th, 2008 at 15:49
janeiro 12th, 2008 at 20:51
Quando você diz que “novela, tanto é o público que a está fazendo, como ela que está ‘fazendo’ o público”, está refletindo a pura realidade.
Não acompanho esta novela, mas, pelo que você escreveu sobre a personagem de Antonio Fagundes, trata-se de algo perigoso: isto pode causar uma dependência fatal àqueles que o cercam, se compreendi bem.
Abraços!
janeiro 13th, 2008 at 11:29
janeiro 17th, 2008 at 1:33