O nome da rosaNada de sorte ou intuição eis que não acredito nessas coisas.

Sou o que chamam cético, um descrente.

Sobre sorte, existem as leis das probabilidades a desafia-la: para tudo que acontece com qualquer um, existiria uma possibilidade que acontecesse com alguém.

Se você joga na megasena passa a ser um número estatístico. Então, está sujeito a ganhar. Apenas isso.

Assim como pode cair-lhe um piano na cabeça, oras. Dizem então ser isso boa sorte ou má sorte, os tolos.

Por essa corrente de pensamento, digo então, que sou materialista. As coisas acontecem porque, cientificamente, poderiam acontecer.

Sobre intuição, não existem anjos, gnomos, fadas, elfos ou quetais a assoprar-lhe coisas noRosaouvido.

Isso é a crendice do homem que pensa poder comandar a natureza a seu bel prazer, do homem julgado “bruxo” e mais próximo do Criador.

Menos ainda, eu acredito na existência de intuições premonitórias, aquela que adverte, que se deve tomar como um aviso.

Se você toma uma ação antecipadora a um fato, certamente que em seu banco de dados cerebral foi acessado alguma situação similar ali arquivada. Complexo assim.

Essa informação está ali arquivada porque foi, anteriormente, captada por algum de seus cinco sentidos carnais.

E, tudo isso, para contar que eu tinha as duas fotos acima em meu celular. As fiz, faz já algumas semanas, pensando numa postagem para o blogue. Eu tenho um blogue, pois não?

Nada demais à primeira vista. Apenas um imóvel para residência e que fica na rua Primeiro de Março, a rua principal de minha cidade.

Nessa casa trabalhava como doméstica uma tia minha, a tia Fia, quando eu e meu irmão Meio Kilo (01) éramos engraxates.

Família burguesa, gente finíssima. Pelo lado direito da casa havia um corredor que levava aos fundos, um porão, eis que o terreno faz fundo com o Córrego Barra Bonita, e assim, em declive.

Mas não era um porão comum. Lá, meu irmão e eu podíamos ir sempre que quiséssemos e a tia Fia podia nos alimentar o quanto pudéssemos comer. Boa comida, frutas e doces.

E sempre com um sorriso afetuoso da patroa, a dona da casa. E uma menina que (acho, não me lembro…) era sua sobrinha. Rosália, o seu nome. Consegue imaginar uma menina burguesinha dos anos sessenta?

Pois era ela, com seus cabelos bem cuidados, saias de pregas (plissé) azul e meias brancas 3/4, aquelas, até a altura dos joelhos.

Burguesa, pelos padrões sociais de educação. No comportamento, era reflexo da tia: afável, muita doçura, humildade e amizade.

Era tanta a doçura aquela menina que nós nunca nem “fantasiamos” nada com ela. E estando naquele porão quase todo dia juntos por horas, vejam vocês…

Quando chovia e não tínhamos fregueses para engraxar sapatos, corríamos para lá comer alguma coisa que a tia sempre nos dava. E brincar com a Rosália. Mas nem me lembro do que brincávamos. O que lembro, é que era seguro e divertido por ali.

Reformulando: o Meio Kilo brincava e conversava muito com a Rosália. Eu, gente, eu… aquele porão… era uma biblioteca!

Uma biblioteca com móveis e estantes (com vidro) de madeira escura. É verdade que estava mais para um depósito de livros que propriamente uma biblioteca.

Talvez, mais embelezadora que utilitária. Já leu minha postagem o homem que vendeu livros por metro? Pois é… talvez nem tanto, mas quase.

E com muitos livros de gravuras e muitos, mas muitos mesmo, exemplares das Seleções de Readger’s Digest. Já em português, é claro, mas integralmente versando sobre assuntos dos gringos. Nadica de nada sobre coisas nacionais.

Obviamente, ficava eu a devorar todos os exemplares, ainda mais quando continham relatos e histórias (e estórias) das coisas que conhecia de gibis, como índios, mocinhos, cowboys, ferrovias no oeste, navios do Mississipi, etc…

O dono da casa, o “seo” Miguel, era um importante comerciante (dono da agência da Ford ou Chevrolet, e posto de gasolina) e vereador. Um homem importante na cidade.

Seus filhos homens, puxa, que moços decentes eles eram. Tinha o Miguelzinho, um loirinho mais novo de cabelos de milho, e o João Batista, “O bom”, como ficou apelidado na idade adulta.

Inclusive, em minha primeira comunhão usei uma camisa branca de mangas compridas que pertencera ao Miguelzinho. Minha tia Fia conseguira junto de sua mãe.

Num tou falando que eram gente decente demais? Adultos, nossas vidas nunca mais se cruzaram… Mas fiquei triste ao saber que o Miguelzinho vivia recluso por causa de um câncer, ainda bem jovem.

Acho que Miguelzinho faleceu com uns 25 anos de idade, quando muito…

E o João, ah, o João… Não teve melhor sorte. Sabem, ele foi buscar o pai em Jaú, que estava de saída do hospital depois de um enfarto (ou derrame). Na ida, o João sofreu um terrível acidente na estrada e não voltou vivo para casa. Foda né?

O “seo” Miguel, viveu um pouco mais. Ficaram apenas a matricarca e a nora, a viúva do João Batista.

Essas passagens de morte, sabem, estou contando mais ou menos. Afinal, não estou fazendo um boletim de ocorrência policial.

A Rosália? Ah, gente… Só sei dela o que contei de criança. Nunca mais soube nada daquele doce de menina.

Pepa ModasO fato é que aquela mulher, aquela senhora amorosa que sorria feliz quando via meu irmão e eu comendo de sua comida na biblioteca, perdera o marido e seus dois únicos filhos num curtíssimo espaço de tempo.

E, se ela era uma senhora voltada para obras sociais antes disso tudo, nisso continuou.

Diziam que tinha uma aura gigantesca, coisa de santa. Sabem aquele aparelho que dizem medir o tamanho da aura de uma pessoa, a fotografia Kirlian?

Pois é… Uma vez, disseram que fotograram a dela e era enorme o tamanho de sua aura. Nunca vi e nem sei disso mas, em se tratando da pessoa, até chego a acreditar nessa coisa.

E hoje, eu passando pelo local, tive uma sensação de perda definitiva de toda aquela boa gente. APepa Modascasa, não existe mais. Foi transformada para comércio. E assim ó: num zás-trás que nem percebi.

E passo por ali rotineiramente ô caramba!

O nome de fachada, Pepa, já existia noutro endereço. É uma loja, tradicional e conhecida na cidade, da viúva do João Batista.

E a casa, estava numa região estritamente comercial, já sem mais nenhuma construção destinada à residência.

E tenho certeza que a Dona Rosa aprovaria. Eu é que fiquei um tanto nostálgico.

(01) - Meio Kilo foi o José Luiz, irmão um ano mais novo que eu. Faleceu com dezoito anos, num acidente de carro onde morreram mais dois rapazes. Meio Kilo e os outros eram bancários e estavam voltando de Piracicaba, de um torneio de futebol inter-bancário. Isso, foi em 1976.

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