Males da monocultura: ladra de Vida

Acerola

Estão vendo isso? Estão vendo duas acerolas cuidadosamente colhidas, juntas como estavam no pé e até com um folículo?

Pois é. Eu as colhi de um solitário pé que insiste em viver na calçada em frente a um bar numa das esquinas mais movimentadas da cidade.

Sabem aquelas arvoretas que ninguém cuida porque ninguém é dono, ninguém se responsabiliza por ela? Esse é o tal pé de acerola nascido próximo ao meio fio da calçada do Bar Yara, um dos mais antigos e tradicionais da cidade.

Em tempos das chuvas, é impressionante a carga de frutos que ele apresenta ao mundo. E, claro, colhidos avidamente por qualquer um que dele se acerque.

Esses que mostro estavam solitários em meio a ramagem, certamente porque nenhum outros olhos os havia visto antes.

Quando o porte da árvore era maior, acreditem, foram dali os maiores e mais adocicados frutos de acerola que jamais vi em outro lugar.

Agora, o Bar Yara antigo não existe mais. O local foi reformado e tem por ali um bar-café bem mais clean.

E gostei quando vi que o atual dono do bar preocupou-se com o pé de acerola. Ao invés de simplesmente cortá-lo, providenciou uma poda. E artística, sabem, aquelas que deixam a árvore em formato de bola.

Ele andou bem judiado, uns poucos galhos resistiram mas agora com as chuvas, o danado ganhou viço novamente.

Toda essa conversa para dizer para vocês que, em relação ao meu tempo vivido, faz pouco tempo que conheço a acerola. E estou no interior, numa cidadezinha de 40 mil almas, quando muito. Isso era coisa para se conhecer desde criança, oras.

E quantas outras árvores frutíferas devem existir que eu e a estrondosa maioria das pessoas de minha cidade não conhecem? (E nem vale grandes cidades, pois por ali, nem pensar. Tem criança que hoje se assustaria se visse uma vaca)

Acontece que desde que me conheço por gente isso aqui é monocultura da cana de açucar. Os sítios, as pequenas propriedades, foram gradualmente incorporados em latifúndios.

Onde eram casas e instalações de dezenas de pequenas propriedades, faz muito são campos abertos para o plantio de cana. Tudo que pudesse empatar o trânsito dos tratores, foi posto ao chão.

Olha… minha geração até que ainda conheceu alguns bosques de mata nativa, córregos de águas cristalinas e até pequenas cachoeiras na mata. Agora, é tudo plantation.

Recordo também de um ou outro sítio em que íamos de bicicleta – em comboio, uns dez, doze moleques – e pagar um pequeno dinheiro da época para poder desfrutar de pomares de tangerinas poncã. Pagava uns trocados para se esbaldar da fruta, sem precisar furta-las.

Mas só.

E descubro com isso, que aos cinquenta a gente não lamenta o dinheiro que perdeu ou a mulher que não comeu. Aos cinquenta, a gente volta para a meninice, lamenta a plenitude da Vida a que tinha direito e que alguém ou alguma coisa o impediu de viver.

E minha geração será a última a sentir isso. Vida para os moleques de hoje, é outra. É  restrita ao que o dinheiro possa trazer. Se não puder ter qualquer porcaria hoje, não sentirá nostalgia, não carregará uma carência irreparável no futuro.

Em seu futuro, quando ele puder cumprir com seus desejos, com seu dinheiro, serão as mesmas coisas do passado, apenas melhoradas. Se foi moleque e não pode ter o game Odissey, qual é o problema se hoje pode ter os mais possantes possíveis?

O que não tem como fazer com árvores, seus frutos, os córregos e suas cascatas na mata.

Uma merda.

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