DepoimentoPronta para sair e a dama de companhia que contratara para ficar com a mãe naquele dia, nunca que chegava. Agitada, eu só ouvia o pipocar dos saltos de suas sandálias na sala.

Tinha ainda, que ajudar a filha recém casada com as compras no supermercado. E fazer compras para seu próprio negócio, uma lanchonete.

A velha mãe, recostada no sofá, acompanhava com os olhos a agitação da filha. Que durou até a contratada chegar.

Uma corrida até o supermercado e filha já lá, esperando. Junto, a netinha de três anos. Percorriam as gôndolas quando a menina, teimosa, quis subir nuns engradados de bebidas que por ali estavam.

Ela alertou: - Estão vazias. Se você for subir, elas vão virar prá cima de você.

E a filha: - Mãe, quanto eu compro de carne?

E ela para a netinha: - Não suba nessas caixas, tou avisando…

E a filha desistiu da resposta e foi para a área do açougue. E a menina subiu mesmo nas caixas e elas viraram sobre ela. Berreiro se formou.

A filha que volta com um pacote de uns dois quilos na mão, grita:

- Mãe! Você não olhou ela!, e acode a filha.

Ela, vê o enorme pacote e pergunta: - O que é isso?

- Carne, oras - responde a filha, com cara de sonsa.

- Um pacote desses de carne, só para você? (O genro, é vegetariano…)

- Então, quanto?, impacientou-se a filha.

Ela toma o pacote de carne da mão da filha, com a neta ainda chorando no colo, e as arrasta para o açougue:

- Moço, ela pegou errado. Troque para mim?

- Ai, mãe! Que vergonha! Como errado?

- Saco. Só você come carne em sua casa. Um monte assim vai estragar, sua…. Ah,meu Deus!, ergue os olhos para o alto (Que anta!)

- Pega duas bistecas, dois bifes, dois bife a rolé… Assim, entendeu? (Anta, anta, anta!, pensou…)

A filha fez um muxoxo e ficou “de bico”.

No caixa, a neta refeita do susto com as caixas e garrafas caindo por cima de si, intenta com o dilplay de revistas.

Mãe e avó nem viram. E uma das caixas de arame prendeu a mão da menina. E outro berreiro.

Ela, já passando de stressada.

Por fim, tudo e todas acomodadas no automóvel da filha. A primeira parada, sua lanchonete, para deixar suas compras para a sócia trabalhar. Final de semana o movimento dobrava e muito trabalho viria.

Quis parar o mais próximo possível. E avisou: - Pare ali, pare ali!

Mal a filha parou o carro, um celular tocou. Colocou a neta no colo da filha e atendeu. Era o namorado, querendo “discutir a relação”.

Ela, saindo do carro com o telefone no ouvido, acenando para um funcionário da lanchonete vir descarregar sua carga, quando se acercam uns parentes que passeavam por ali.

Entre eles, uma menina, amiguinha da netinha traquinas.

A filha, no volante do carro, observa um policial de trânsito fazendo sinais para elas.

- Ai, mãe! Você me fez parar em lugar proibido! Meu marido vai me matar!

O policial não estava multando, ele era um amigo e fazia gestos dizendo que logo iria avistar-se com ela.

Mostrava as roupas em sinal que estava em serviço mas depois, a paisana, iria para sua lanchonete. E fazia o gesto típico com o vai-e-vem do dedo indicador nos lábios. Ele, entendeu que era apenas um “vamos conversar depois”.

A filha, entendendo “Eu já falei que não pode estacionar ai”.

Os parentes a querendo abraçar, o namorado no telefone querendo conversar, a amiguinha da netinha querendo entrar no carro por cima da filha ainda ao volante, a netinha querendo sair do carro, o funcionário querendo se acercar para descarregar, a filha se descabelando ao volante imaginando-se multada…

Naquele dia, chegou tarde em casa. No dia seguinte, depois que me contou, entendi a razão da embriaguez.

Minha amiga, meio que Radical Chic, meio que Rê Bordosa. (1)

(1) - A imagem da ilustração é a Radical Chic, personagem de Miguel Paiva. Rê Bordosa, é personagem de Angeli.

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