Vaquejada“Já te contei que fiz parte do MST?”

“Não contou…”, sorri divertido imaginando o Adalto, sujeito calmo e de pouca conversa, como membro do discutido Movimento dos Sem Terras.

Conheci o Adalto num curso de gnose, que só fui porque era grátis e próximo de casa. Por aquela época não existiam ainda computadores pessoais e menos então, a internet. Acho que estávamos na primeira metade dos anos oitenta e eu, desempregado, matriculei-me no curso para ocupar o tempo.

Abandonei o curso logo no início, mas o Adalto continuou firme. Tanto, que passado alguns anos eu me atrevi a perguntar sobre viagens astrais, se existiam mesmo. E ele: “Sérgio, você cansou muito rápido do curso… E você acha que se nada existisse, eu teria continuado?”

Por anos o Adalto levou sua vida como micro-empresário, vendendo coisas do sul de Minas Gerais até o norte do Paraná com seu Passat, preto, quatro portas. Ficamos amigos e aos fins de tarde quando ele estava pela cidade, eu gostava de ir até sua casa para jogarmos conversa fora.

Eu, café e cigarros e ele, chimarrão.

Não raro, aparecia alguém que estranhasse seu chimarrão, até perguntando do que se tratava aquilo. Depois, com as muitas novelas e mini-séries gauchescas na televisão, as pessoas deixaram de estranhar o ritual da cuia, bomba e chaleira de meu amigo.

“Essa cuia e bomba eu ganhei num acampamento dos Sem Terras. E esse Passat, eu já tinha ele”.

“Sabe - continuou - eu cheguei no acampamento por acaso. Estava perdido numa estrada e só parei para perguntar para aquele povo, que rumo deveria seguir”.

Mas não seguiu rumo nenhum. Disse que um primeiro préstimo o segurou por ali: levar uma criança com febre para o hospital. Depois, foi convidado para o jantar coletivo e dormir numa das barracas até a manhã seguinte, quando retomaria viagem.

Mas não viajou no dia seguinte. Nem no outro e nos próximos. Foi se aproximando daquela gente ali acampada na beira da estrada, vendo sua determinação em ali permanecer. Muitos, sabiam apenas o que diziam os líderes: que estavam ali por terras para morar e plantar.

E, os líderes, células de um corpo invisível que parecia tê-los deixado à própria sorte, viam-se às voltas com as dificuldades em manter o acampamento. Acabava o de comer e nenhuma luz se mostrava no horizonte.

Nenhuma, até que circulou rumores sobre umas reses que costumavam desgarrar-se do rebanho da fazenda vizinha e vir pastar mais próximas da estrada.

Ninguém tinha pensado isso ainda, ninguém tinha visto nada similar do movimento em noticiários da televisão, não veio nenhuma ordem superior para tomarem das reses. Foi a fome mesmo.

Adalto, que tinha sido vaqueiro com o pai, foi guindado a líder da empreitada. A liderança veio naturalmente, por suas dicas e orientações sobre montaria, laço e abate.

Decidido, juntou mais três homens em seu Passat e foram para envernada. Primeiro, cuidaram de tomar de uns cavalos e improvisar seu encilhamento com cordas. E um encilhamento tosco, sem selas, para o qual apenas um dos homens levados se prestou.

Mandados que ficassem próximos ao carro em meio ao pasto os dois inaptos, Adalto e um outro homem foram atrás das reses. Depois de alguma procura, na esperteza e no negaceio, conseguiram laçar uma delas. Manietada, a bicha ficou a mugir sob o breu da noite.

Só depois dessa busca e luta é que lembraram estarem muito longe do carro, onde estavam as facas de abate especialmente preparadas para a ocasião.

E agora?

Qualquer ação que não fosse rápida, colocaria tudo a perder. Os vaqueiros da fazenda poderiam aparecer e, mesmo que tivessem abatido a rês, não a levariam. Vitória inglória, então.

Adalto só tinha consigo um canivete. Desses grandes, é certo, mas grande apenas para esfolar um coelho, jamais uma rês. Lembrou-se daquelas mulheres e crianças do acampamento que por mais um dia, não teriam o que comer.

Forte, um tipo atarracado o meu amigo, viu que o serviço teria que ser feito, fosse como fosse. Descansou a lâmina e cansou o braço na jugular da bezerra durante a hora seguinte, levando o bicho a esvair-se em sangue.

A carcaça viajou arrastada até o Passat. Alí, foi grotescamente esquartejada e levada ao acampamento.

Feito herói e lider, contou que não quis mais ficar, mesmo seu feito tendo sido levado à liderança nacional do movimento.

“Matei a bezerra daquele jeito pensando na fome daquele povo. Mas ainda hoje lembro dos olhos da bichinha sofrendo. Parecia gente”.

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