Caixa de ressonância

- Mateus!

(…)

- Mateus!

(…)

- Mateus!

Depois do terceiro chamado uma idosa senhora abre a porta do casebre. Amparando seus titubeantes passos, uma bengala de cabo de vassoura.

Lenço na cabeça, chinelo nos pés vestidos com meias e colo do vestido sujo de comida, dava a qualquer um perceber que pouco longe saia da cama ou do sofá da sala.

Do alpendre do casebre situado nos fundos do terreno, colocou a mão em pala sobre os olhos, buscando enxergar quem fazia o chamamento.

Num terreno em declive e sem muros, quem do casebre estivesse mal conseguia ver a rua. Quando muito, a metade posterior de algum carro passando.

E ela viu alguém de boné, sobre a parte posterior de uma bicicleta. E que disse:

- O Mateus tá ai?

Voz ainda vigorosa, negando a idade e o corpo judiado pelo tempo, ela respondeu:

- O Mateus não está. O Mateus morreu.

O menino ficou estático por uns segundos, reordenando seu cérebro para processar a informação. Empertigou-se no selim, movimentou os pedais da bicicleta e reagiu:

- Hã? Ah, tá… morreu… Quando?!

A velha, conservando a mão em pala sobre os olhos, respondeu:

- Semana passada… foi na semana passada.

Ela esperou uns poucos segundos ainda e, como não sobreveio pergunta, lentamente girou o corpo em seu eixo para adentrar à casa.

E o menino, saiu a pedalar. Também devagar.

Tudo isso, em longos três minutos, no máximo. Vi e ouvi porque estava na cozinha enquanto passava um café.

Ao lado, nos fundos de um terreno vazio, um garoto chamado Mateus morreu na semana passada.

Não sei quem era ele. Não sei quem era o menino que viera de bicicleta, não imagino como ele estava sem saber da morte do amiguinho nem o que poderia querer.

Não sei quem é a senhora idosa.

Senti pena de mim.

One Response to “Caixa de ressonância”

  1. Franklin Thadeu Says:
    Caraca Sérgio que situação cara. Tu já parou pra pensar como o garoto deve ter ficado. Não faço a minima ideia do que ele queria, mas pelo menos tinha alguma consideração pelo tal Mateus.

    São coisas tristes e lamentáveis que temos que passar pela vida e que pouquissimos conseguem suportar.

    Um grande abraço