Bicho feio

Di CavalcantiApaga ele. Deixa comigo a correria depois. Antes ele que você!

Zantonio estava saturado dos reclamos do irmão Zé quando passou esta orientação pelo telefone. “Correria” era gíria corrente, para dizer que podia contar com toda ajuda depois.

Zé era o mais velho de uma família nordestina radicada numa zona canavieira de São Paulo. Zantonio, o caçula quase duas décadas mais novo. Exercia esta liderança pelo acesso que tivera aos estudos.

Com a morte dos pais, dispersaram-se os irmãos. As moças, umas casadas e outras largadas. Os homens, cada qual em seu canto com família formada. Lembro-me de todos: Rosa, Maria, Zé, Davi, João, Cida, Arnaldo, Agnaldo, Zantonio e Neusa.

Zé estava amasiado com uma negra, Anísia, e morando num sítio como caseiro. Anísia tinha um filho que fez-se por muito tempo de folgado na tapera do Zé. Metido com drogas, era dado a enfrentar até a polícia, fazendo prevalecer um porte de quase dois metros. E ignorante que só:

— Você tem que me sustentar Zé. Você não casou com minha mãe? Se dane então, cara. Vou comer, beber e dormir aqui.

Boa alma, Zé nem iria se incomodar se fosse apenas isto. Anisia também fazia seu dinheiro – macumbeira, tinha clientela fixa até – e fosse então apenas comer e beber, não faltaria nas panelas.

Mas os arroubos de valentia e demonstrações de força do enteado, quando estava drogado, é que assustava. Por duas vezes Zé tivera a palma da mão cortada por segurar na lâmina de uma faca que ele lhe aprumara na garganta, como se fosse degolá-lo.

Zé tinha medo de dar parte na polícia e nada ser resolvido. Poderia piorar até, pois o valentão não seria preso e ficaria mais enfezado ainda.

Na cabeça de Zé, como um triunfo, o apoio do irmão: Apaga ele… deixa comigo a correria…

Mais ainda. O irmão Davi e o cunhado Ciro, marido da irmã Cida, ficaram de planejar um jeito de sumir com o enteado folgado. O tio, fazendeiro em Sergipe, deixara claro a Zantonio: “Se tiver alguém incomodando, me avisa que pego um avião e vou bater ai. E levo quem faça o serviço”.

“Serviço”, o ato de vitimar de morte, é gíria de matador de aluguel.

Mas nem precisou. Passaram-se os dias e Zé ligou para Zantonio:

— Pronto. Fiz o “serviço”. E agora, o que faço?

Contou que tinha chegado no limite da paciência. Como sempre acontecia, ouvindo insultos, trancou-se no cômodo que servia de quarto do casal na tapera e armou a espingarda, uma 12.

E o enteado, comendo na cozinha:

— Vem cá, Zé, vem. Hoje você não escapa. Vou comer este prato e depois vou acabar com sua raça. Hoje você não escapa.

Zé saiu do quarto com a espingarda apontada para a cara do infeliz.

— Não pode ficar falando que vai matar um homem. Tem que fazer. Assim ó.

E o ribombar de um tiro no barraco fez-se de conclusão para sua frase.

Bem na cabeça.

Zantonio conta que tinha pedaços dos “miolos” grudados pela parede e espalhados pelo chão. Outros irmãos acorreram.

O irmão Arnaldo, que era “fraco da idéia”, pisava no chão ensangüentado. Apenas ria e achava engraçado aqueles pedaços de carne porosa que apanhava pelo chão.

Zantonio, Davi e o cunhado Ciro levaram Zé para uma cidade vizinha. Deixaram-no escondido na casa de um amigo, para sair do flagrante. Zantonio procurou advogado. O tio do Sergipe mandou dinheiro para as despesas.

Zé responde processo em liberdade. Anísia ficou ressentida por uns tempos.

Agora, novamente juntos.

Baseado em fatos a mim contado por Luiz Antonio, o Zantonio, que conheço desde menino. Encontrei-o depois de muito tempo e, ao dar-me notícias de seus irmãos, disse-me dessa do Zé.

O quadro que ilustra essa crônica é um Di Cavalcanti.

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