Amigos de primeira infância
Assim chamo àqueles com quem brincamos ainda na idade pré-escolar, em tempos que não existia a tal pré-escola.
E nem os pais tinham cultura para matricular filhos em “escolinhas” e os nossos, nem teriam o dinheiro para as mensalidades: eram particulares.
Amigos de brincadeiras sem brinquedos pelo quintal da casa. Quando muito, um caminhãozinho de tosco toco de madeira e lata de óleo.
Amigos, quando a mãe chamava para almoçar, íamos junto e partilhávamos a mesa. (Mesa… o prato de alumínio entre as pernas, no chão de qualquer lugar da casa…)
As mães, amigas ou vizinhas, tacitamente cúmplices entre si para não deixar o pimpolho visitante de barriga vazia: “Se não comer, você não vem mais brincar aqui em casa. Deus me livre você ficar aqui a tarde inteira e depois, na sua casa, pedir comida para sua mãe”.
Famosos, eram os pães feitos pela mãe do Tigum. (De uma onomatopéia, o barulho de uma enorme pedra que um dia fizemos rolar para as águas do Tietê. “Como foi o barulho, Antônio?” “Patigum!“) Hoje, empresário de sucesso e ainda, para toda a cidade, apenas Tigum.
Para quem mora e nunca saiu de uma cidade do interior, é relativamente corriqueira a existência de amigos de primeira infância em nosso cotidiano. Mesmo quando se atinge meio século de existência e além de mudanças de famílias, de mudanças pessoais por oportunidades profissionais e… morte. É, morremos.
Um deles (ah, os meus, são lá uns dois ou três os que restam pelo cotidiano…) sempre me recebe com um beijo no rosto, o mais puro amor fraterno, o prazer de encontro. Tico, um apelido familiar infantil que, dizem suas irmãs, só restou eu a usar. Nem as irmãs, usam mais. Herdou como nome público, o sobrenome: Buzzon. Até as irmãs e a ainda viva mãe, assim o chamam. Menos eu.
Encontrei-o com a esposa, numa dessas mesas ao ar livre de bar, numa noite dessas. E ela: “Sérgio, sabia que o Buzão enfartou?”
“Ah, para… qué isso, Tico? Me conta…”, assustei.
“Pois é. Tudo de enfarto. Fiquei dez dias enfartado sem saber”.
O Buzzon sempre foi forte, um zagueiro-central que nunca abandonou os gramados. Stress nos negócios e comidas mal comidas, às pressas e nunca, quase nunca, mastigadas. Tinha que resultar em algo de temerário.
Resistiu, porque é forte feito um touro. Pescoço de Mike Tyson. Mas brincou com a sorte (morte?) engordando muito e aceitando o stress. E me disse que aprendeu: “O homem é o que come”. Agora, depois de um período no SPA, levado na chincha pela esposa.
Uns dias antes, eu já tinha encontrado o Sílvio. O Sílvio, eu é que o beijo. Silvio é preto e não podia ir conosco em clubes, quando estávamos já crescidinhos. Nossos pais trabalhavam juntos, nossas mães eram amigas mas não podíamos ir juntos à alguns lugares.
Ele estava tão limpo, arrumado e com os trocados no bolso quanto os outros, mas não o deixavam entrar nas matinés do carnaval. Não entravamos todos então e não era por solidariedade implícita ou protesto silencioso. Nem podia, nada sabíamos de racismo. Apenas, que o importante era estarmos juntos, não importando o lugar.
Que bom que são vivos. É bom ver o jeito do Tigum dizer que me ama, ao nada cobrar em suas lojas e oficinas por consertos em carros que eventualmente tenho (ofensa mortal, uma minha insistência em pedir a conta…), o Buzão a me beijar e eu, beijar o rosto preto do Sílvio, de sorriso sempre largo e alvo.
Quando tudo oprime e sufoca, quão válida é a existência desses primeiros amigos de infância. São eles a nos dar a certeza que um dia, fomos mesmo felizes. Talvez, a única felicidade real: a felicidade da inocência.
abril 4th, 2008 at 18:50
Essa postagem deu me até uma dor no peito de tanta sudade. Que saudade! . Do interior, do passado, da infância, da fazenda onde nasci.
Eu Já disse que éramos melhores, mais solidários, mais nobres, mais… tudo de melhor…
Célia
abril 4th, 2008 at 23:09
Obrigado por seus comentários no Trivial.
Beijão e obrigado por sua companhia, cá no blogue.
Sérgio
abril 5th, 2008 at 1:57
Estou em lágrimas depois de ler a postagem de hoje; a saudade me invadiu, que nem sei como dizer, um simples,
parabéns!!!
Vc me fez reviver em poucos minutos o meu tempo de criança.
Que hoje sei, ou melhor tenho certesa que ali eu realmente era muito feliz.
com tão pouco e ao mesmo tempo com tudo que eu precisava pra viver… “o amor”.
abril 5th, 2008 at 4:37
Obrigado por sua constante companhia cá nos comentários do Trivial.
É legal mesmo, as vezes, nos deixarmos levar por uma lembrança ou outra assim… em devaneios.
Sérgio
junho 17th, 2008 at 8:45
março 20th, 2010 at 7:25