Crônicas
Arquivo no Assunto
Arquivo no Assunto
Postado por Sergio on 12 Jun 2008 | Em: Crônicas
Nada de sorte ou intuição eis que não acredito nessas coisas.
Sou o que chamam cético, um descrente.
Sobre sorte, existem as leis das probabilidades a desafia-la: para tudo que acontece com qualquer um, existiria uma possibilidade que acontecesse com alguém.
Se você joga na megasena passa a ser um número estatístico. Então, está sujeito a ganhar. Apenas isso.
Assim como pode cair-lhe um piano na cabeça, oras. Dizem então ser isso boa sorte ou má sorte, os tolos.
Por essa corrente de pensamento, digo então, que sou materialista. As coisas acontecem porque, cientificamente, poderiam acontecer.
Sobre intuição, não existem anjos, gnomos, fadas, elfos ou quetais a assoprar-lhe coisas no
ouvido.
Isso é a crendice do homem que pensa poder comandar a natureza a seu bel prazer, do homem julgado “bruxo” e mais próximo do Criador.
Menos ainda, eu acredito na existência de intuições premonitórias, aquela que adverte, que se deve tomar como um aviso.
Se você toma uma ação antecipadora a um fato, certamente que em seu banco de dados cerebral foi acessado alguma situação similar ali arquivada. Complexo assim.
Essa informação está ali arquivada porque foi, anteriormente, captada por algum de seus cinco sentidos carnais.
E, tudo isso, para contar que eu tinha as duas fotos acima em meu celular. As fiz, faz já algumas semanas, pensando numa postagem para o blogue. Eu tenho um blogue, pois não?
Postado por Sergio on 01 Mai 2008 | Em: Crônicas
E o editor do jornal, para o qual eu escrevia umas bobagens, veio ao meu encontro:
- Serjão, como está homem! Escreva para meu jornal uma crônica para o Dia das Mães, uma mensagem de amor. Pode ser?
- Ah, meu, sem chances. Só se for para não assinar. Bem sabe o que penso dessas datas “bebemorativas”. Sacanagem…
Onde já se viu, uma mãe precisar de um dia especial para receber uma mensagem, um presente? Dia das Mães é todo dia, oras.
Falei para ele dos dias das mães de um aldeia terena que conheci em Dourados, MS, onde, compadecido, eu vi mães enterrando seus jovens filhos, mortos por alcoolismo.
Por aquela época, do céu choviam bombas no Oriente Médio. Não estive lá, mas qualquer um pode imaginar dos dias das mães palestinas, árabes ou judias, que tinham seu filho pela manhã sem a certeza de vê-lo novamente à noite. Vivo ou morto. É uma tensão que continua nos dias atuais.
Já viram fotos da fome na África, crianças esquálidas amparadas por mães em situação não menos pior? Elas não têm presentes a receber. Mas têm seu dia de mãe, todo dia, por intermináveis dias e anos.
Ou no Nordeste brasileiro. Felizmente, melhorou. Lula pode ser taxado de tudo por seus detratores. Menos, que não tenha retirado milhões da fome.
No Brasil, são menores o número de mães a ter o seu dia a dia, apenas de angústia. Muitas ainda não o devem ter, é certo, mas compete à sociedade cobrar esse amparo.
São milhões de mães pelo mundo que vivem seu dia, dia após dia, ano após ano. Uma vida inteira. Mães que não precisam de mensagens ou presentes, mas de novas realidades.
Se você ainda tem sua mãe, seja apenas filho todos os dias do ano. No dia das mães, de-lhe de presente, você. Garanto que ela não espera mais que isso. Um presente embrulhado com laçarote, servirá apenas para levá-lo até ela.
Quanto a mim, oras… claro que não vou atender ao pedido de meu amigo. Definitivamente, mensagem para o Dia das Mães não é meu forte.
Postado por Sergio on 21 Abr 2008 | Em: Crônicas
- Ô Sérgio, você manja de receita de bacalhau?
- Eu não, mas o Vugá sabe tudo. Porque quer saber?
- Tou com um pacote aqui e pensei em ir até sua casa. (Mentiu!)
- Cara, pelo que eu sei, primeiro tem que deixar de molho para tirar o sal. Não tem jeito de você fazer num único dia. Receita de bacalhau é preparada de véspera.
E continuei…
- O que foi? Sobrou da Semana Santa é?
- Pior que isso. Esqueci essa coisa fedorenta na mala do carro. A muié quase me matou no dia, por ficar sem. Eu tinha tomado todas e esqueci. Agora, tenho que dar um jeito nisso. Preciso de uma receita. Sabe aquela famosa, a receita de bacalhau a Gomes da Sá? (01)
- Cacete! Você só quer a receita? Peraí…
(google, receita de bacalhau a Gomes de Sá…)
Vou lá amanhã, ajudar comer.
(01) - No inicio do século XX o filho de um comerciante de bacalhau foi trabalhar de cozinheiro para um restaurante no Porto.
O seu nome era José Luiz Gomes de Sá Júnior e foi no restaurante «O Lisbonense», que decidiu inovar deixando as lascas do bacalhau a marinar em leite aquecido de forma a ficarem mais macias.
O resultado foi o Bacalhau à Gomes de Sá hoje um dos mais famosos pratos da cozinha tradicional portuguesa. Diz-se que passou a receita a um seu amigo, um tal de João, com a seguinte nota: “João se alterar qualquer coisa já não fica capaz”
Postado por Sergio on 03 Abr 2008 | Em: Crônicas
Assim chamo àqueles com quem brincamos ainda na idade pré-escolar, em tempos que não existia a tal pré-escola.
E nem os pais tinham cultura para matricular filhos em “escolinhas” e os nossos, nem teriam o dinheiro para as mensalidades: eram particulares.
Amigos de brincadeiras sem brinquedos pelo quintal da casa. Quando muito, um caminhãozinho de tosco toco de madeira e lata de óleo.
Amigos, quando a mãe chamava para almoçar, íamos junto e partilhávamos a mesa. (Mesa… o prato de alumínio entre as pernas, no chão de qualquer lugar da casa…)
As mães, amigas ou vizinhas, tacitamente cúmplices entre si para não deixar o pimpolho visitante de barriga vazia: “Se não comer, você não vem mais brincar aqui em casa. Deus me livre você ficar aqui a tarde inteira e depois, na sua casa, pedir comida para sua mãe”.
Famosos, eram os pães feitos pela mãe do Tigum. (De uma onomatopéia, o barulho de uma enorme pedra que um dia fizemos rolar para as águas do Tietê. “Como foi o barulho, Antônio?” “Patigum!“) Hoje, empresário de sucesso e ainda, para toda a cidade, apenas Tigum.
Para quem mora e nunca saiu de uma cidade do interior, é relativamente corriqueira a existência de amigos de primeira infância em nosso cotidiano. Mesmo quando se atinge meio século de existência e além de mudanças de famílias, de mudanças pessoais por oportunidades profissionais e… morte. É, morremos.
Um deles (ah, os meus, são lá uns dois ou três os que restam pelo cotidiano…) sempre me recebe com um beijo no rosto, o mais puro amor fraterno, o prazer de encontro. Tico, um apelido familiar infantil que, dizem suas irmãs, só restou eu a usar. Nem as irmãs, usam mais. Herdou como nome público, o sobrenome: Buzzon. Até as irmãs e a ainda viva mãe, assim o chamam. Menos eu.
Encontrei-o com a esposa, numa dessas mesas ao ar livre de bar, numa noite dessas. E ela: “Sérgio, sabia que o Buzão enfartou?”
“Ah, para… qué isso, Tico? Me conta…”, assustei.
“Pois é. Tudo de enfarto. Fiquei dez dias enfartado sem saber”.
O Buzzon sempre foi forte, um zagueiro-central que nunca abandonou os gramados. Stress nos negócios e comidas mal comidas, às pressas e nunca, quase nunca, mastigadas. Tinha que resultar em algo de temerário.
Resistiu, porque é forte feito um touro. Pescoço de Mike Tyson. Mas brincou com a sorte (morte?) engordando muito e aceitando o stress. E me disse que aprendeu: “O homem é o que come”. Agora, depois de um período no SPA, levado na chincha pela esposa.
Uns dias antes, eu já tinha encontrado o Sílvio. O Sílvio, eu é que o beijo. Silvio é preto e não podia ir conosco em clubes, quando estávamos já crescidinhos. Nossos pais trabalhavam juntos, nossas mães eram amigas mas não podíamos ir juntos à alguns lugares.
Ele estava tão limpo, arrumado e com os trocados no bolso quanto os outros, mas não o deixavam entrar nas matinés do carnaval. Não entravamos todos então e não era por solidariedade implícita ou protesto silencioso. Nem podia, nada sabíamos de racismo. Apenas, que o importante era estarmos juntos, não importando o lugar.
Que bom que são vivos. É bom ver o jeito do Tigum dizer que me ama, ao nada cobrar em suas lojas e oficinas por consertos em carros que eventualmente tenho (ofensa mortal, uma minha insistência em pedir a conta…), o Buzão a me beijar e eu, beijar o rosto preto do Sílvio, de sorriso sempre largo e alvo.
Quando tudo oprime e sufoca, quão válida é a existência desses primeiros amigos de infância. São eles a nos dar a certeza que um dia, fomos mesmo felizes. Talvez, a única felicidade real: a felicidade da inocência.
Postado por Sergio on 02 Abr 2008 | Em: Crônicas
- Tem gente aqui…
- Tem vergonha, é?
- Sou sério.
- É? O bastante para ficar flertando comigo quando estou com meu marido, não né?
- Não foi flerte. Só gostei do…
- Meu decote?
- Você, hem? Eu notei que se exibia, mas não foi isso. Gostei de seu notebook. É o tal air, né?
- Se quiser, deixo você dar uma pegadinha nele. Nos dois.
- Você tem dois air?!?
- Tenho dois seios, bobinho.
- Pare com isso… Não sou mais o mesmo, mudei.
- Agora é gay?
- Precisa ser grosseira?
- Você não respondeu minha pergunta.
- Respondi sim, com outra. Se pergunto porque é grossa, logo nego.
- Tá. Me diz então, em que mudou.
- Estou sossegado. Acho que não estou mais disposto a correr riscos nem ganhar inimigos.
- Mas só quero um sexozinho com você… um tiquinho só… Não pode?
- Você não era assim, vagaba…
- Só por você. E então, teremos o meu sexozinho?
- Pelo telefone? Fique a vontade, oras.
Sexo por telefone. Essa foi boa. Sorri divertido de minha proposta e esperei sua reação mas…
(piiiiiii)
Fim de carga da bateria. Melhor. Noutros tempos, essa doida invadiu meu quarto e por ali ficou três dias. O poeta Jura Cervati foi o culpado, abriu-lhe a porta: “Sua namorada está ai”. Mas éramos gente dos trinta. Agora, aos cinqüenta, sem a bebida nem as drogas, é outro mundo que se apresenta.
Amores loucos, os vivi e não foram poucos. Como visto, drogas deixam seqüelas. Anos oitenta.
Hey! Anos 80!
Charrete que perdeu o condutor
Hey! Anos 80!
Melancolia e promessas de amor
Melancolia e promessas de amor…
Postado por Sergio on 02 Fev 2008 | Em: Crônicas
A pia da cozinha amanheceu entupida. Minha senhoria fez a descoberta disso logo cedo, quando eu terminava de limpar o fogão.
Sem querer saber a razão de seu mau humor, reclamei do descaso com o meu trabalho:
- Limpei o fogão e você nem reparou, né?
- Sérgio, que limpinho ficou o fogão que você mesmo suja!
Sacanagem pouca essa comigo, pois uma maior, foi quando percebemos a água da pia transbordar.
- Agora isso? O que você fez nessa pia?
A porcaria da pia sempre foi insistente em seus leves entupimentos mas agora, a coisa parecia sério. Por mais que tentasse, não consegui consertar a bichinha.
- Chama a desentupidora. Eu não vou ficar aqui uma semana (carnaval…) com essa pia entupida.
Agora, já era sua irmã falando. Ela mora em Sampa e quando pode, foge da agitação paulistana para ficar com os irmãos, cá no interior.
- Você está pensando que está em sua casa, é? Aqui não tem desentupidoras. Tem quebra-galhos, mas quem vamos achar no carnaval?, retrucou a primeira irmã.
Coçou a cabeça e veio num estalo:
- O Renga! O Renga sabe mexer com essas coisas. Ele é encanador!
Pegou o telefone e ligou para a empregada, em sua barraca de lanches.
- Sueli, o Renga tá por ai? Então, faça o seguinte: pega uma garrafa de conhaque vagabundo, embrulha bem, bem disfarçada mesmo. Não diz o que é. Só pede para o Renga trazer aqui, na minha casa.
Renga, é um desocupado. Fica zanzando entre as barracas da praça fazendo pequenos biscates por uns trocados e claro, doses de bebida. Conhaque, a sua preferida. Um pobre coitado ou um estilo de vida, quem quiser, que julgue.
O fato é que ele chegou rapidinho com uma maçaroca de jornal amarrado com barbante. Entregou para minha amiga que foi desenbrulhando e comentando:
- É conhaque com soda caustica que desentope pia né?, perguntou minha senhoria, fazendo a cara mais imbecil possível.
- A senhora endoidou!?! Onde já se viu isso?!? Me dá aqui isso que eu conserto a pia para a senhora, oras.
Rapidinho, o Renga (uma mistura de Mario Bross com Borat, o tipo) quebrou a parede pelo lado de fora da casa e fez o serviço. Mais rápido, constatamos uma das ignoradas maravilhas do mundo: uma pia fluindo livremente para a rede coletora. (01)
A irmã, discordou do abuso. Acendeu um cigarro, sentou-se, cruzou as pernas, serviu-se de um café… até que surgiu a oportunidade para mostrar isso:
- Assim, visita gratuita? Não precisa pagar, só o conhaque basta? Porisso que você nunca foi prá frente, não pensa nos outros.
A outra, apressou-se - aos sussurros - em explicar:
- Não é isso! Se pedisse para ele vir por dinheiro, ele não viria. Se pedisse para ele vir para consertar a pia, ele não viria. Fazer uma entrega, como ele fez, é o que ele sempre faz. E não é de graça, viu? Ele é meu agregado, come e bebe quando quer comigo. Mas se não tiver psicologia, ele se faz de difícil, entendeu sua sonsa?
Verdade pura, que tenho como comprovar.
Um irmão, tinha um restaurante e quando passava por lá na “hora da fome”, metia-me pela cozinha e fazia um prato. Veio o aviso:
“Olha, quando vier, sente-se à mesa e deixe que os garçons façam seu trabalho. Você fazendo, eles ficam desorientados, entende?”
(01) - Outra maravilha do mundo? O lençol com elástico. Merece o Nobel do Comodismo quem inventou isso.