“A Aids saiu de macaco africano e entrou pelo rabo de branco americano”, escreveu uma vez Paulo Francis. Sim, escreveu. Ele não disse isso detrás de seus óculos com lentes “fundo de garrafa” (01) na telinha da televisão.

O colunista que conquistou admiradores e desafetos em sua carreira (Yes, Jimmy Carter, including) (02), tinha o respaldo de um grande jornal (Folha de São Paulo e depois, O Estado de São Paulo) para expôr com segurança seus pontos de vista e ácidas opiniões sobre temas polêmicos.

O último que lembro, foi sobre O.J.Simpson, aquele ex-jogador de futebol americano julgado (e inocentado) pelo assassinato da ex-mulher e de um amigo.

E Paulo Francis: “Claro que O.J.Simpson matou a ex-mulher e o amigo, um reles fornecedor de cocaina para ambos. Simpson ficou ligadão, quis dar uma bimbadinha e deve ter ultrapassado das medidas na orgia”.

Por essas amostragens, bem podem ver o peso da opinião de um articulista que trocou o Brasil por Nova Yorque sem, no entanto, nunca ter perdido contato com suas raízes. Por aqui, Francis foi um dos que estiveram na trincheira nos “anos de chumbo”, escrevendo para o Pasquim e fosse vivo, um seu petardo contra um momento político seria bastante para desmoralizar seu alvo.

E se ele disse que algum degenerado tinha um macaco como “esposo”, é porque tinha. E, segundo o lido depois, parece-me que um tipo do vírus têm em macacos seus hospedeiros. Considere as mutações virais e chega-se a conclusão de Francis.

No Brasil, quando surgiram as primeiras mortes suspeitas por Aids, eram de pessoas que frequentavam Nova Iorque. Um primeiro que li, foi de um cabeleireiro de famosas, desses bem afetados.

Não estou para hastear nenhuma bandeira de moralismo, longe de mim isso. O fato, é que por aquela época a doença chegou a ser chamada de “Peste Gay”, tal ser esse o seu público único até então, de infecção e mortes. Dalí, para ampliar-se para drogados e heterosexuais, foi um pulo.

Cheguei a escrever vários artigos em pequenos jornais por onde passei defendendo para a Aids o enfoque de saúde pública e não outros. Muito menos o da moral cristã (3) que a igreja católica até o presente momento se prende.

E nem me digam que a Igreja de Roma nada aprendeu com o episódio Galileo Galilei, regenerado séculos depois. Aprendeu que deve se ater a seus dogmas e redesenhar seu rebanho, restringindo-o aos fieis praticantes de seus preceitos. E não é isso que parece querer, inflingindo sanções ao uso da camisinha?

E o que dizem os padres? Nada de sexo antes do casamento, sejam monogâmicos e sexo, só para procriar. Ora, me digam se tudo não fazem para ficar com um diminuto rebanho? Mas em tudo, nem uma palavra sequer sobre viver das doações de milhões de hipócritas, essa não menos hipócrita Santa Igreja.

Ainda bem que o papa em pessoa ouviu (pela imprensa) um sonoro “Não” do presidente Lula com respeito a isso. Vá te catar, ô homem! Igreja é igreja, estado é estado. Não se pode mais voltar no tempo e pensar em confundir o estado laico.

Negócio é o seguinte: Entre quatro paredes, tudo pode, ô meu. Mas use camisinha para não correr o risco de dividir depois com os vermes da terra, tá ligado?

(01) - A Globo arrumou uma armação de óculos idêntica àquela que Paulo Francis usava. Mas sem as lentes, para não dar reflexo nas câmeras. Era divertido perceber quando ele estava com óculos sem lentes.

(02) - Francis chegou a aborrecer o presidente americano com suas críticas. Os serviços de informação da Casa Branca compravam a Folha de São Paulo nas bancas no Brasil em São Paulo, mandava para a Embaixada em Brasilia que traduzia a coluna de Paulo Francis e informavam ao gabinete da presidência em Washington. É mole? Imaginem a trabalheira disso, numa época que nem o quase falecido fax existia.

(03) - Moral cristã está hoje, mais para vício de linguagem que conceito a ser definido. Tudo bem que o Brasil seja a maior nação católica do mundo, mas com um cristianismo restrito a vestígios de herança cultural, o único valor que se impõe é o da marca: Jesus Cristo.

Esta bem, vou considerar que muito do ensinamento cristão perdura em nossa cultura. Mas dai a querer uma inversão de poder com o estado é uma distância abissal, o desejado pelos homens de batina.

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