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Pássaros que escrevem
Desde tempos imemoriais o ser humano agrega-se, em função
de sua natureza coletiva e solidária. A humanidade evoluiu graças
a esse acordo tácito e inconsciente de unir forças para vencer
os perigos inevitáveis que ameaçam todo ser vivo.
Pode-se arriscar a dizer que os homens são fruto de uma história consciente e não de um instinto desenvolvido lentamente ao longo dos séculos, como é o caso dos animais. Ao amadurecer, enquanto cultura e civilização, o homem também criou uma história individual, cada vez mais evidente quando olhamos para os grupos sociais e chegamos mesmo a reconhecer nomes e pessoas que se sobressaem às outras. Como fenômeno político, isto é normalmente aceito e, por enquanto, ainda não tocaremos no fenômeno estético. Apesar desta individualidade algumas vezes alcançar proporções alarmantes, em alguns casos de abuso de poder como o genocídio de ditadores que enganam um país inteiro, ela nos convida ao desafio extraordinário de nos adaptar à realidade dos outros, reconhecendo neles nossa imagem refletida como num espelho de dois lados. Vários são os momentos em que nossa individualidade assume proporções inimagináveis para os egoístas, e uma delas, sem dúvida, é a teoria e a prática da literatura, que nos remete a um universo de reconhecimento mútuo enquanto seres criativos e mutantes que somos. Nós poetas trabalhamos com um conjunto de códigos que surge não sabemos bem de onde, passa não sabemos bem por que lugares, é decodificado não se sabe bem por quem e transforma-se não se sabe bem em quê, mas seguramente poderíamos chama isso de bioestética, ou seja, a vida passando por nós em forma de literatura, em forma de impressões e expressões cuja base é o espírito humano e cujo ápice é a consagração do Criador de um registro coletivo de imagens literárias. Mas a literatura não se resume a um estar passivo, um ser individual e restrito a pequenos grupos; pelo contrário, ela exige um vôo maior para aqueles que se arriscam em traços semânticos e contornos fonéticos. E este vôo maior se dá quando a poesia sacrifica-se como um instrumento de consolidação cultural de uma nação, quando suas metáforas alcançam significados bem superiores à fala cotidiana, determinando que novos caminhos poderão ser seguidos acima do bem e do mal, estas duas ambigüidades constituintes de coisas que só conseguem espaço no passado. Que povo poderia sobreviver a si mesmo se não conhecesse a via interior de sua própria história? E esta “via interior” traça seu rumo de baixo para cima, do povo para as elites, da terra para o céu, do interior para as cidades, de onde nada se tem a perder e, por conseguinte, muito a se ganhar. Sem qualquer ranço de xenofobia, podemos afirmar que o oculto, o marginal, o obscuro guardam em si o futuro, porque de nada nem ninguém dependem e, sendo livres, não repetirão fórmulas. A História não é apenas um registro
de datas e heróis, tal como a estudamos em livros técnicos;
ela também exige que homens e grupos assumam riscos de exporem suas
próprias idéias e sentimentos acerca do que se passa ao seu
redor. Assim foi com Sócrates, Galileu, Freud e outros tantos. Dentro
de cada um de nós existe um pouco de cada um desses gênios,
e só escrevendo, publicando e divulgando livros a história
pode ser escrita ao mesmo tempo que vivida: fenômeno típico
da popularização dos recursos gráficos e da democratização
da poesia oral.
O que distingue um livro técnico de um livro de criação literária é que o primeiro encerra-se nos fatos descritos, enquanto o segundo prolonga-se infinitamente, permitindo ao homem não só pensar sobre si mas também sugerir novas faces ao seu movimento nesta vida. Poderíamos dizer que isso é uma forma de morrer e renascer, sempre com a anuência consciente de quem decide sobre seu próprio destino, nem que seja por fantasia. A literatura tem seu destino traçado muito próximo ao daquele pequeno filete de água que desafia as pedras e rochas ao seu redor e se transforma mais adiante em um rio. Este pequeno filete de água que brota em algum lugar obscuro de uma montanha corresponde ao impulso inicial do espírito humano, onde surgem as primeiras imagens que vão compor um poema. Esse grande rio e este grande poema, então formados, só existem porque uma série de outros fatores objetivos caminham junto a eles. Portanto, a criação literária não é um fenômeno abstrato e solitário; muito pelo contrário, precisa da cumplicidade de uma série de experiências sociais e históricas para se configurar como tal. Assim como os pássaros através de suas asas descrevem geometrias naturais que, se bem observadas, podem nos deslumbrar com uma linguagem própria de ritmo e brilho, os homens escrevem sobre vôos que, na hora da escrita, só cada um deles sente. Tanto quanto as gaivotas que criam no ar uma letra “V” e vão trocando de posição à medida que o da frente cansa, este sentimento estético deve ser compartilhado estrategicamente, para que todos sintam-se com o mesmo valor e peso. Daí, a necessidade extrema da comunhão de espíritos livres de preconceitos dualistas... Daí a necessidade do surgimento de um novo homem, algo como um novo homo sapiens, cuja sabedoria seja a do coração, ao qual poderíamos chamar de homo cordis. Este novo homem, principalmente através da linguagem poética, preocupa-se com o mundo que estamos deixando para os nossos filhos, um mundo em que se privilegia a técnica em função da criatividade, a força da matéria em função do poder espiritual. Em maio de 1968, estudantes revoltosos escreveram sabiamente nos muros de Paris: “A imaginação no poder”. Isso não foi apenas uma frase a mais, e sim um estandarte de amplitude semântica que alcança nossos dias com uma atualidade fantástica, já que cada vez mais a robotização do homem cria chagas sociais de desemprego e a mecanização dos espíritos nos torna cada vez menos capazes de lidar com nossos problemas existenciais. A nação brasileira, o país onde vivemos, a cultura que estamos ainda construindo há cinco séculos, está literalmente nas nossas próprias mãos. Precisamos todos sair de dentro de nós e darmos exemplo às outras nações que as diferenças, sejam de que ordem for, são complementares e confirmam seus opostos, já que em nosso sangue pátrio correm glóbulos italianos, alemães, portugueses, africanos, indígenas etc. E a maior representação prática de que tanta diversidade pode obter êxito e alcançar sua plenitude é através da prática da escrita, do exercício literário e da comunhão coletiva de bens espirituais compartilhados, são trabalhos como o desta coletânea. Quando o nosso amigo e irmão de letras Sérgio Grigolletto nos convidou para escrever este prefácio, eu me senti várias vezes, eu me ouvi em várias vozes, eu percebi que estava me inserindo dentro de reflexão profunda sobre a oralidade contemporânea da poesia e sua coletivização, através das coletâneas que unem autores e leitores, relativizando-os a cada momento, às vezes admiradores, às vezes admirados, e permitindo-lhes verem sua palavra impressa tal qual vê seus autores ídolos. Estamos voltando às origens gregas? Somos novos aedos? Estamos publicamente abrindo nossos corações e mentes em nome de um bem comum que poderíamos chamar espírito poético? Essa exposição pública, através da palavra falada, também não seria uma forma de destacar o que há de música e ritmo num poema, de acordo com cada nova leitura que é feita? Porém, de maneira nenhuma este momento mascara o poeta que se transforma num ator, quando se lê diante de várias pessoas... de maneira nenhuma este momento rouba a literariedade dos versos e estrofes antes apenas escritos num papel; assim como o cinema não roubou ao teatro seu encanto, muito menos a televisão a cabo roubará a mística que apaixona os cinéfilos. A exposição pública do fenômeno poético é um algo extraordinário que, na nossa opinião, deve sempre formalizar-se através de uma coletânea, como se fosse uma festa de formatura de alguns, uma cerimônia de batismo para outros ou até mesmo o diploma de doutorado para muitos. O que importa é que o homem escreve tal como um pássaro voa: ao escrever, está mudando seu destino, procura novos rumos para o seu olhar, mesmo sabendo dos riscos que isto acarreta: escrever é estar sobre abismos, já que todos têm o direito de voar. Está de parabéns o Clube Amigos das Letras por mais este trabalho realizado, seu editor Sérgio Grigoletto por mais esta contribuição para a humanização de nossa sociedade, os participantes da coletânea que, num ato de coragem estética, expõem suas vidas através dos segredos das palavras que são desvendados sempre que um olhar volta-se para dentro. João de Abreu Borges
- Poeta e ativista cultural - Rio de Janeiro-RJ.
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