Edna Oliveira de Sant’Ana
                                                          Salvador - BA

    As dores do mundo

Crianças rotas engolidas pelos esgotos
infectados, lotados de ratos, tentando escapar
dos atos violentos de homens armados e
dos atos obscenos de homens depravados.

Crianças avariadas, tragadas por um
preparado glutinoso, viciadas pela dor,
humilhadas pela cor, e por decreto
agonizam sob as pontes de concreto.


Crianças esquálidas, desumanizadas pelos
corpos mirrados, pelas cabeças enormes
entre os ombros disformes, cuja imagem
se configura a um espectro da morte.


Crianças traficadas, mortas e mutiladas,
cujos órgãos seccionados são leiloados
a preço de uma inocente vida para serem
implantados nos corpos em busca de vida.


Crianças exploradas sexualmente, incluídas
como apelo principal do turismo sexual para
servirem aos prazeres do turista bestial que
despeja a sua podridão no corpinho virginal.

Crianças escravizadas, exploradas pelos
pais e patrões em troca de alguns tostões
ganhos com mãos, braços, pernas e pés que
se atarão para sempre aos grilhões da servidão.

Crianças que um dia servirão a essa nação
como meretrizes, assaltantes, traficantes...
que ocuparão espaço nas celas e favelas e
continuarão sofrendo todas as dores do mundo.






























* * *

“Às crianças que vivem ao relento do discernimento humano”

* * *
Edna Oliveira de Sant’Ana conhece obras de Castro Alves, Augusto dos Anjos, Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Fernando Pessoa, Rimbaud, Camões, Garcia Lorca, Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Fernando Sabino e Gabriel Garcia Márquez. Um pensamento: “Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus” (Eclesiastes).
 
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