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Escolhas
Fátima Ricci
Poços de Caldas - MG
Viver é preencher o tempo: dias e noites que teimam em suceder-se. Em dois extremos temos os muito ativos, para quem dormir é tortura e desperdício de tempo, e os incapazes de locomoção, para quem o tempo disponível é que tortura, e dormir é melhor que estar consciente. E inerte... Entre os dois extremos, a maioria: gente normal, que dorme e se refaz, trabalha e come, conversa e caminha, toma banho e ouve disco, faz compras e lê jornal, viaja e vê TV, convive e ama, sem muito pensar. E os níveis de escolha? O cara preso na cama de hospital, que só respira e tem o coração preservado, batendo e irrigando o corpo, esse tem nenhuma. Ou melhor, tem duas: suportar a consciência via audição, com lágrima ou sem. Só isto. Os presos nas cadeias e hospícios têm algumas e bem poucas. Andarilhos, mendigos e vagabundos são descompromissados e nisso são livres: sem pressão de metas a cumprir, horários, desempenho. Mas têm que escolher se andam ou se sentam, se comem do lixo, do mato, ou do que pedem aos outros, se conseguem um banho ou deixam como está, se vão dormir no jardim, debaixo da ponte, no albergue ou na porta da loja. Escolhas. Viver é feito de escolhas. Mas isto se refere aos nossos próprios atos e atitudes. Não escolhemos o que os outros fazem ou nos fazem. Aí nossa escolha está restrita à maneira como lidamos com o que nos afeta. Não dá para impedir os ventos. No máximo alteramos a posição das velas, se não quisermos que o barco vire. E, se quisermos, é só deixar que aconteça. Tudo são escolhas. Pequenas e corriqueiras, grandes e decisivas, médias e cotidianas. Até o deixar de escolher encerra uma escolha: a derradeira, que talvez conduza à morte. Daí em diante, e até prova em contrário, contamos com nossas convicções. Ou, com a falta delas. Falta de fé e preocupações filosóficas que, aliás, não povoam a mente das criaturas simples e puras. Melhor para elas. Criaturas urbanas, ditas civilizadas, escolheram ter preocupações quando optaram pelo conforto material que as cidades propiciam. Seres que não sobreviveriam na tranqüilidade dos campos e matas, dormindo em caverna, comendo frutas silvestres que teriam que colher e carne que teriam que caçar, tomando banho de cachoeira e de rio, enfim, nenhum comprometimento, pouquíssima dependência, toda a liberdade. Quem quer de verdade? Na prática, não somente em tese? Podemos até querer, romanticamente, talvez resgatando lembranças herdadas de antepassados distantes. Mas tudo indica que não somos mais capazes, então, escolhemos nem tentar. Pessoas são produto dos níveis de consciência e do uso que fazem deles. Quanto mais alto o nível, mais escolhas. Quanto mais opções, mais pressão. Simplificar diminui a pressão e a angústia. Se fidelizo o raciocínio puro, fatalmente complico. Se sigo o coração, simplifico? Sim e não. Interiormente, com certeza. Como agem os animais, seguindo os instintos. Conseqüências à parte! Considerações também. Considerar é reconhecer dados, compará-los, tirar conclusões e tomar decisões. Com ou sem ação: escolhas. Se escolho não interferir não tenho trabalho de pensar. Sem pensar não me preocupo, e preocupar-se o que é? Tentativa de antecipar-se às probabilidades. Porque sem preocupar-me estou à mercê dos acontecimentos. (Na verdade, sempre estamos.) O que muda é o fator surpresa: evitamos ser surpreendidos se nos preocupamos. Então, o que conduz ao preocupar-se é o orgulho de estar a postos. Simples! Complicado... Como o próprio pensar. Pensar esgota. * * *
“À Associação
Atlética Banco do Brasil (ABBB) de Poços de Caldas, patrocinadora
de minhas participações nas Antologias do Clube Amigos das
Letras desde 2003”
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Fátima Ricci tem crônicas
e poesias publicadas em jornais, revistas e sites na Internet. Formada em
Letras, considera a Literatura uma atividade lúdica e fascinante,
seja no papel de leitora ou de escritora. Outros amores: cinema e música,
dança e natureza, Andrea Bocelli e Poços de Caldas. Esta é
sua quinta participação em antologias do Clube, o que considera
uma honra. Uma frase: “O amor é a história da vida das mulheres
e um episódio na dos homens” (Anne Louise Germaine de Stäel).
Apoio Cultural: AABB–Associação
Atlética Banco do Brasil – Poços de Caldas–MG
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